repostagem: estudantes de arquitetura na periferia do capitalismo

Este texto foi originalmente publicado por mim em http://stoa.usp.br/gaf/weblog/34840.html

Postado por gabriel fernandes

texto publicado no jornal umpramil nº40 ("umpramil de férias"), produzido pelos estudantes da fauusp

outra versão também pode ser encontrada em http://docs.google.com/View?docid=d3zmvfb_11ggk9bmhq

        cerâmica portante

 

O texto que segue é um conjunto de pensamentos e reflexões, mais ou menos desconexos, mais ou menos desenvolvidos e mais ou menos pertinentes. Espero que apreciem a leitura e espero que eu consiga de alguma forma contribuir para qualquer debate que ocorra ou venha a ocorrer. Começo e termino com as necessárias citações ao mestre.

1

“Ninguém nega, ninguém pode esconder o caos que impera nas cidades que a burguesia dirige. Muito ao contrário, todos acompanham os protestos populares, inclusive os urbanistas e tratadistas que até disputam entre si os argumentos para reforçar e dar cores vivas às misérias urbanas. Os livros de urbanismo, em geral, são um passeio aos cortiços. Americanos querem para si a desonra de possuírem em Nova Iorque um Harlem – o maior cortiço do mundo. Já autores ingleses ressaltaram num masoquismo mais digno, à inglesa, as misérias de seu East End. Entre nós, em São Paulo, é a própria prefeitura que exerce o cinismo burguês à falta de “autores qualificados”. (…)

(…) Os termos para isentar de culpa a burguesia, para convencer que não adianta derrubá-la do poder, que tudo sempre foi o que é, são diversos. (…) O remédio que unanimemente se recomenda para aliviar as situações é a planificação. A isso também estamos acostumados em São Paulo. (…)

(…) Planos e mais planos, que em resumo oferecem à humanidade, de um lado, o primarismo medieval, do outro lado, o fascismo.(…)

(…) A casa popular foi reconsiderada, glosada, estudada, por todos os arquitetos, sob todos os aspectos possíveis e imagináveis, em todos os países. (…) Bastava produzir em série. (…)

(…) Surge afinal, a questão: onde ficamos? Ou: o que fazer? Esperar por uma nova sociedade e continuar fazendo o que fazemos, ou abandonar os misteres de arquiteto, já que eles se orientam numa direção hostil ao povo, e nos lançarmos na luta revolucionária completamente?

Nenhum dos dois, unicamente.” (1952)

ARTIGAS, “Caminhos da arquitetura moderna” in Caminhos da arquitetura; São Paulo: Cosac e Naify, 2004, pp38-39, 49 (todos os grifos são meus)

2

(…) Eu cheguei a assumir a responsabilidade de dizer para vocês que o caminho que eu estava indicando era o caminho que, no futuro, faria de vocês homens dignos tal como eu pensava que eu era. Agora, na sua frente, eu posso pedir profundas desculpas. O nosso projeto nacional não funcionou e não se pode por a culpa no Partido Comunista. E hoje, quando vejo o PT falando em consultar as bases pela TV, me dá vontade de dar risada.” (Artigas em entrevista a Paulo Markun, 1984)

“As idéias do velho mestre” in Caminhos da arquitetura; São Paulo: Cosac e Naify, 2004, pp172 (publicado originalmente na Folha de São Paulo, edição do dia 19 de janeiro de 1985)

3

“(…) Para discutir os projetos com os mutirantes, os arquitetos inventaram algumas metodologias. Cito três das mais exemplares. A primeira utiliza um modelo tridimensional, o ‘maquetomóvel’, uma maquete desmontável e remontável. (…)

A segunda metodologia entrega ao mutirante o controle do processo. (…) Os arquitetos, neste caso, trabalham apenas como leitores dos desenhos, os quais levam para o escritório e avaliam. (…)

A terceira alternativa, cética em relação à ação direta dos mutirantes (…), reinvidica um papel mais ativo ao arquiteto no processo de projeto. (…) Em assembléia, o arquiteto apresenta em grandes pranchas elementos que representam usos domésticos (…) o arquiteto debate com os mutirantes e conduz o processo, põe janelas no canto e não no meio, faz recuos e recortes que jamais seriam propostos, tentando fazer aparecer seu desenho e explicando suas motivações.

(…)Se os arquitetos estiverem motivados a construir obras com invenção e não apenas com reproduzir com correção técnica a autoconstrução, quais argumentos devem utilizar, por exemplo, para rechaçar os balaústres ou as janelas arqueadas coloniais? Para isso o arquiteto não pode apenas lançar mão de sua razão técnica, afirmando por exemplo que são elementos construtivos antieconômicos, pois estaria assim impedindo o diálogo franco e restituindo sua ‘autoridade’ inqüestionável de técnico de nível superior. Se é preciso criar uma cultura arquitetônica comum entre arquitetos e mutirantes, ela deve ser francamente debatida e experimentada até consolidar um novo imaginário do que seja o habitat popular numa grande cidade."

ARANTES, Pedro Fiori, Arquitetura Nova; São Paulo: Editora 34, 2002

A idéia de “projeto de país” na nossa condição atual pode até ser considerada mito ou falácia por alguns. Porém, é inegável que esta faculdade – e tudo aquilo que nela prezamos – foi construído sobre o debate a respeito de um projeto de país. Se hoje estudamos o que estudamos em nosso currículo é porque em algum momento fazia sentido ao projeto de país que se estava desenhando que arquitetos contribuíssem desta ou daquela maneira ao desenvolvimento da sociedade. Aquele projeto de país falhou. Permito-me uma indagação bastante superficial: se não há projeto de país por trás do nosso currículo atual, então, qual o motivo de aplicá-lo?

[1]

Recentemente Jorge Wilheim1 publicou um texto na Folha de São Paulo no qual tenta alertar a sociedade paulistana das barbaridades arquitetônicas que ela própria produz. Segue um trecho:

(…) Quando plantas dos apartamentos são publicadas, espanta-me a similitude dos programas e dimensionamentos: parece que há um único protagonista a desenhar com sua "mão escondida" todas as plantas, com iguais dimensões dos quartos, denominações sempre que possível em inglês e a presença inevitável, esta brasileira, da churrasqueira.

O que não se publica é o nome do arquiteto autor desses projetos! A "mão escondida" o apagou, seja por não considerá-lo importante a ponto de figurar ao lado do decorador, do paisagista e dos realizadores do empreendimento; seja porque o próprio arquiteto não se sinta à vontade com o resultado. Se arquiteto existe, como entender, tiradas poucas exceções, o descaso com a estrutura e com a fachada, geralmente um aplique colado, muitas vezes imitando um paupérrimo estilo neoclássico?

Ao percorrer a cidade, vejo, com espanto, o resultado disso: um descalabro arquitetônico, na profusão grotesca e gigantesca de fachadas sem caráter, uma acúmulo de mediocridade preenchendo a paisagem urbana, num completo descaso com a rua em que cada prédio se localiza, ao atulhá-la com trânsito que não pode suportar e uma seqüência de grades, muros, muralhas com guarita, por vezes parecendo-se com presídios. Expressão voraz e predatória do privado não-urbano, recusa da cidade e da vida societária, exclusão ostensiva de tudo o que é público, de todos.(…)

Reparo em outro aspecto do texto de Wilheim: ele se pergunta porque ocorre neste fenômeno a total anulação da interferência da figura do arquiteto na configuração dos edifícios que compõem este cenário. Não é, claro está para todos, uma pergunta inédita. Há na biblioteca da FAU um bom mestrado sobre o tema. Cito um trecho de um artigo baseado na pesquisa e publicado na Revista da Pós:

(…) A pesquisa de mercado, a qual em alguns momentos é apresentada como doadora incontestável da autoridade do profissional de marketing, atestando sua legitimidade com relação ao atendimento dos desejos do consumidor, tem como objeto não só as formas materiais que o produto possa assumir, mas também suas possíveis imagens, os signos que possuem trânsito, penetração em identificáveis nichos da demanda.

É nesse sentido que o profissional de marketing se introduz como emissor das representações dos produtos imobiliários, como produtor de sentido do espaço, papel o qual, socialmente, parecia até aqui ser atribuído ao arquiteto.(…)2 grifo meu

O assunto está fartamente estudado: sabemos que para o atual mercado imobiliário residencial a pesquisa de novas tipologias arquitetônicas, a busca de soluções inovadoras e criativas e o incentivo à “boa arquitetura” não fazem sentido, visto que não é este tipo de característica que “agregará valor aos projetos”. Os enormes lucros de que este mercado goza provém da exploração de mão-de-obra desqualificada, da limitação do mercado a uma faixa de renda restrita, da caixa preta dos BDIs, quando de obras públicas, etc, etc.

Jorge Wilheim, como se sabe, é um mais importantes especialistas em planejamento urbano no país e um dos principais nomes na construção do atual plano diretor da cidade. Como sabemos, trata-se do plano que, em toda a história, mais avanços estabelece em relação ao estabelecimento de instrumentos de combate ao capital imobiliário especulativo, ao repovoamento do centro, e em relação à redução das desigualdades urbanas. É também o plano que – justamente por contar com todos estes instrumentos – prova que planejamento não consegue reduzir desigualdade nenhuma e que trata-se de ferramenta dotada de imobilismo em relação à situação de segregação intensa a que se submete grande parte da população. Provou que, não importa o quão bem intencionadas sejam as estratégias de dotar o processo de planejamento de participação popular, é justamente esta participação que é subvertida pelo capital e por este utilizada como justificativa para a manutenção do estado de coisas que vivemos.

Há espaço hoje para se falar em Desenho? Projeto de cidade? Projeto de país? Atuação política? Sobreviver?

[2]

Nos anos 50, 60 e até meados dos 70, o modelo de atuação liberal do arquiteto estava efetivamente associado a um certo projeto de país. Valia o discurso da “boa arquitetura”: pregava-se que o arquiteto, mesmo exercendo atuação liberal – e portanto, mesmo atuando no setor privado –, tinha em mãos a possibilidade de propor uma cidade mais justa em seus muitos projetos, assim como uma estética de vanguarda para nosso tempo e nosso país. Havia poucos profissionais no mercado e um público consumidor formado por uma certa parcela da elite local (intelectuais, professores universitários, etc) propício à experimentação e às novas formas. Nos anos 70, por outro lado, assistiu-se a uma proliferação de empresas de engenharia de médio e grande portes que também passaram a contratar arquitetos – tome-se o caso paradigmático da Hidroservice e seus cento e tantos arquitetos assalariados. Neste momento, Rodrigo Lefèvre chega a escrever um artigo para a revista Módulo pregando esta forma de atuação como um vetor necessário e oportuno ao desenvolvimento do país e à superação de desafios sociais. Surgidas com o milagre econômico do regime autoritário, logo elas se desintegraram.

O cenário para a atuação liberal hoje, porém, certamente não é mais similar àquele dos anos 50 ou 60. Não existe mais a tal da “elite intelectual” e não são poucos os profissionais que todos os anos as muitas escolas despejam no mercado. No entanto, estas escolas insistem em constituir seus currículos segundo o paradigma da atuação liberal.

Pensemos, porém, que um arquiteto que se vê sem alternativas de utilizar-se de sua prática profissional como instrumento de transformação da cidade e da sociedade escolha levar uma “vida dupla”: submete-se às dificuldades e as frustrações que o trabalho cotidiano oferece mas resolve militar em um movimento ou partido político como atividade secundária. Será que só é possível pensar nestas duas esferas (do trabalho e da política) com esta dualidade opressora? O profissional se vê sem condições de estabelecer uma práxis que tenha algo a dizer ao mundo e se conforma com isto, estabelecendo duas frentes de atuação: uma pragmática, no trabalho e outra militante, na política. Fatalmente a opressão da esfera do trabalho impedirá a continuidade da luta política deste sujeito. Pergunto-me: faz sentido em se falar, nos dias de hoje, em unir novamente práxis e trabalho?

Há espaço hoje para se falar em projeto de cidade? Projeto de país? Atuação política? Sobreviver?

[3]

Uma das alternativas que se levantou a partir dos anos 80 foi o da atuação direta dos arquitetos com os movimentos ligados com a reforma urbana de uma forma geral e com os movimentos de moradia em particular. Durante a gestão de Luíza Erundina em São Paulo (a qual por si só já foi revolucionária3), houve uma ebulição de assessorias técnicas se formando e trabalhando junto de movimentos de moradia na construção de conjuntos habitacionais por meio de mutirão autogerido, coordenadas pelo programa Funaps-Comunitário (capitaneado por Nabil Bonduki). Com o fim da gestão e com o fechamento, por parte dos governos conservadores que se seguiram, da máquina pública a muitas destas experiências, houve também a dissolução de algumas destas assessorias.

A citação de Pedro Arantes, a terceira a abrir este texto, explora bem o significado e as dificuldades que envolvem esta forma de atuação. Não há dúvidas: todo o conjunto de experiências com mutirões autogeridos que existiram nos últimos 20 anos foram fundamentais especialmente para a formação de um grupo de movimentos sociais maduros e autônomos. Não há dúvida: trata-se de um conjunto de experiências que efetivamente levou à emancipação de muitas lutas localizadas e à constituição de um cenário de alternativas à crise social do país.

Porém, tudo indica que a conjuntura política atual – excessivamente reacionária – estabeleça um processo de sufocamento cada vez maior destas experiências, tornando-as mais e mais localizadas. As dificuldades próprias a cada uma delas tendem a indicar – no longo prazo e infelizmente – o isolamento das demandas e dos grupos, assim como a eventual reprodução nestes projetos das condições de segregação que os próprios tentam combater: são projetos que não conseguem ser executados em terrenos que não os mais periféricos, muitas vezes tentando combater o processo de periferização das cidades mas participando dele.

Recentemente participei da visita ao assentamento D. Thomás Balduíno (imagem), do MST, em Cajamar, com um grupo de alunos da FAU. Não pretendo aqui reproduzir as críticas à arquitetura do conjunto que normalmente são feitas aos projetos de mutirão de uma forma geral: sabemos todos das dificuldades próprias de uma experiência como esta e a citação de Pedro Arantes que inicia este texto dá uma idéia da dimensão da problemática. Basta dizer que trata-se de um projeto residencial por vezes conservador em seu desenho: casa pequenas divididas em cômodos tradicionais. Isto, porém, não importa no momento. O trabalho foi realizado por um grupo de alunos e ex-alunos da FAU, assessorados pela Usina, e mostrou que da atuação política do estudante é possível plantar uma semente de utopia.

Considero o trabalho realizado no assentamento efetivamente um “projeto de utopia experimental”4, não propriamente pelo resultado, que pode ser criticado de diversas maneiras, mas pelo processo e pela cultura política que se produziu ali e que não teria acontecido se não tivesse sido estabelecido aquele espaço. Trata-se, de fato, de uma cultura política que supera o imobilismo da política institucionalizada. Trata-se, de fato, do estímulo à constituição da esfera pública, mesmo que pequeno e localizado. Chamem o movimento do que quiserem: de reformista, anti-revolucionário, etc. Havia ali, naquele momento, alguma esperança de revolução.

É, contudo, experimento localizado e eventualmente isolado de outras demandas sociais.

Há espaço hoje para se falar em projeto de cidade? Projeto de país? Atuação política? Sobreviver?

[4]

Tento concluir este texto confuso com o seguinte pedido aos estudantes: insistamos no contato com os movimentos sociais urbanos como forma de tentar propor uma práxis sobre a cidade e sobre a sociedade, como alguns colegas têm feito. Não por um desejo de “ganhar experiência”, “fazer extensão” ou por um desejo de “ajudar os necessitados”: não é de paternalismo infantil de que falamos. Minha passagem pela FAU não foi muito prolífica neste sentido e sinto que este contato teria sido o instrumento a preencher uma lacuna em nossa falta de perspectiva cotidiana: precisamos encontrar um modo de dizer algo para o mundo, de nos sentirmos indivíduos atuando por mudanças.

Falo na necessidade de trabalhar junto dos movimentos sociais – e de crescer junto com eles – pois assim podemos estimular uma ainda que mínima esfera de trabalho/práxis sobre a cidade. Não penso nos resultados imediatos: penso na superação de nosso cenário sem alternativas. Não se trata apenas da união da universidade (“teoria”) com os movimentos (“prática”): pensemos para além disto, pensemos na possibilidade de semear uma efetiva nova esfera de atuação na realidade urbana e social. Não estou pensando em “reformas”, estou pensando em como preparar – junto com o povo, refletido nos movimentos sociais – o terreno para a tão desejada revolução. Resignificar a política por meio da prática. A cidade é uma totalidade: trabalhar com um fragmento é trabalhar no todo.

Concluo o texto, enfim, com uma citação final de Artigas, nunca antes tão contemporânea:

(…) Surge afinal, a questão: onde ficamos? Ou: o que fazer? Esperar por uma nova sociedade e continuar fazendo o que fazemos, ou abandonar os misteres de arquiteto, já que eles se orientam numa direção hostil ao povo, e nos lançarmos na luta revolucionária completamente?

Nenhum dos dois, unicamente.

É claro que precisamos lutar pelo futuro do nosso povo, pelo progresso e pela nova sociedade dando a esta missão os melhores dos esforços, pois é à medida que, pela participação na luta ao lado do povo, compreendermos seus anseios, fizermos parte dele, que atingiremos a “espontaneidade nova”, que criará como interpretação direta dos verdadeiros anseios populares.

Mas é claro que enquanto a ligação entre os arquitetos e as massas populares não se estabelecer, não se organizar, enquanto a obra dos arquitetos não tiver a suma glória de ser discutida nas fábricas e nas fazendas, não haverá arquitetura popular.

Até lá, uma atitude crítica diante da realidade. [1952]

Artigas, op. cit.

2COSTA, André; Imagem da Arquitetura e Arquitetura da Imagem: uma investigação acerca da construção dos discursos na produção do espaço urbano

3Como sempre, não podemos deixar de lembrar da presença de Paulo Freire na Secretaria de Educação, Paul Singer no Planejamento, Ermínia Maricato na pasta de Habitação e Desenvolvimento Urbano e Marilena Chauí na Cultura.

4Para me utilizar da expressão de Henri Lefèvre.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s