estrelas cadentes no brasil

Meu TFG é sobre os anos 70 (e arredores…), mas permit0-me fazer uma pausa para abordar acontecimentos recentes.

sociedade do espetáculo

Nos últimos anos algumas estrelas da arquitetura contemporânea mundial têm aparecido no Brasil com a singela intenção de promover palestras em faculdades e centros culturais. Por trás de tão bem-intencionada postura fica claro a qualquer espectador um pouco atento que os verdadeiros motivos relacionados à visita do sistema estelar ao Brasil têm mais a ver com desvendar e explorar esta nova e nada inusitada fronteira do capital global em tempos de crise estrutural do capitalismo e menos em inspirar e tutorar jovens sedentos de “boa arquitetura”. O país está tentando entrar no circuito e o circuito está tentando explorar da melhor forma o país: nossas elites estão desesperadas por signos que se transformem facilmente em mercadoria e os arquitetos estão desesperados em encontrar novos clientes para suas mercadorias culturais.

Senão, vejamos:

  • 2009: Jacques Herzog proferiu palestra na FAUUSP por conta de sua presença no Brasil devido à nada transparente contratação do escritório Herzog & de Meuron para a construção de complexo cultural envolvido no processo de gentrificação da Luz. Diga-se de passagem que tal complexo já nascera superfaturado e, tendo sido praticamente esquecido pelos tucanos da vez, entrara já para a condição de projeto nunca a ser executado — mesmo tendo o nada irrelevante valor do estudo já sido devidamente pago aos europeus. Os estudantes brasileiros vibraram com o performático arquiteto suíço. A imprensa chegou até mesmo a ressaltar, contudo, uma certa indisposição do arquiteto em uma das muitas festinhas de que participou enquanto por aqui esteve:Preciso de uma taça de vinho tinto“, disse aos anfitriões quando chegou. Sentou à mesa e logo trouxeram um prato de hors d’oeuvres sortidos. Ali, reconheceu que sim, o teatro é um “projeto para a classe alta”.
  • Ainda em 2009 representantes da Gehry Technologies (braço de pesquisa e desenvolvimento — e marketing digital — do escritório Gehry & Partners) proferiram palestra na FAUUSP para propagandear o software Digital Project e o uso (assim como a cultura) de tecnologias BIM (em um país em que ainda aplicamos chapisco, emboço e reboco às nossas paredes e empilhamos tijolos a dezenas de metros de altura).
  • 2010: Richard Meier veio se reunir com empresários brasileiros e aproveitou para fazer suspirarem os estudantes e arquitetos em sua palestra na FAUUSP. Chegou até mesmo a ser perguntado, ao que parece, o seguinte: “Mas… por que tanto branco?”, ao que não soube responder devidamente.
  • 2011: Bjarke Ingels do escritório BIG promoveu palestra no Mackenzie e defendeu um esquisitíssimo e altamente retórico discurso sobre um tal “hedonismo sustentável” ou “sustentabilidade hedonista” ou coisa parecida. É o melhor dos dois mundos do capitalismo contemporâneo: de um lado o discurso falacioso sobre a sustentabilidade e de outro a produção de experiências mercantilizáveis, consumíveis e exclusivas.
  • Finalmente, o guru da contemporaneidade descompromissada, mestre do brandscaping descolado e modelo da Prada, Rem Koolhaas, personagem global que se autoconstruiu desde os anos 70 após ter atuado como jornalista, promoveu uma performance-palestra no Sesc Pompeia por ter sido escolhido como co-curador de uma exposição sobre Lina Bo Bardi (nada menos afeito à cultura de elites no Brasil: necessitamos de um estrangeiro para celebrar a cultura local). Sua presença em terras brasileiras, no entanto, não ocorreu sem antes ter enviado um de seus sócios menos espetaculares: Shohei Shigematsu proferiu palestra na FAUUSP em abril.

O ciclo de alguma maneira se completa com a exposição Em nome dos artistas que será inaugurada no Pavilhão da Fundação Bienal de São Paulo nos próximos dias. Jeff Koons, Damien Hirst e outros artistas milionários, frequentadores assíduos dos eventos mais badalados da alta sociedade britânica e estadunidense, terão expostas suas obras que continuam disputadíssimas mesmo em um momento em que o capitalismo discute seu futuro.

Mesmo o mercado ordinário de alto padrão em São Paulo está sendo ocupado (e recuso-me a usar a palavra “invadido”, como o têm feito alguns colegas, pois não se trata de uma disputa mas de um movimento previsível do mercado de luxo) por jovens profissionais estrangeiros, sobretudo europeus recém-formados, que não têm encontrado posições confortáveis em seus países de origem.

Somos a nova fronteira do capital: Copa do Mundo em 2014, Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2016, Exposição Mundial em São Paulo em 2020. Até quando a quimera ficará em pé, porém?

Este encadeamento de fenômenos pode ser interrompido logo:

Revista Construção Mercado de setembro de 2011

As estrelas parecem mesmo cadentes: não há futuro vislumbrável para elas aqui da mesma maneira que não parece haver futuro sem elas para nosso capitalismo periférico que se deseja global.

Se por um lado o país embarcou de vez no circuito global de produção de imagens a tal ponto acumuladas que se transformam em capital, por outro, está próximo de uma bolha imobiliária de resultados desastrosos. As promessas de um cotidiano marcado pelo glamour e luxo dos arquitetos estelares podem se transformar rapidamente em uma ilusão passageira e em um sonho distante no passado, entretanto, já terá ocorrido a mudança fundamental: as elites locais, antes bregas e cafonas, foram devidamente domesticadas e tiveram seus gostos corretamente ajustados.

99% de nossas cidades, porém, não mudarão.

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2 comentários em “estrelas cadentes no brasil”

  1. Meu amigo, isso chama-se capitalismo.
    Assim o mundo anda e assim andará até evoluir mais um pouquinho.
    É a coisa mais óbvia do mundo um país emergente receber investimento externo, de todas as áreas.
    A arquitetura é o reflexo da sociedade, assim como a quantidade de presidiários, suicidas, etc. É muita inocência e utopia pensar que a arquitetura irá transformar o todo.
    Mesmo se a Europa não estivesse em crise e apenas pelo fato de o Brasil estar entrando em um patamar de país desenvolvido é que estamos recebendo a visita dos stars.

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  2. não nutro qualquer tipo de ilusão com a arquitetura ou com seu suposto “papel transformador.” Tafuri nos mostrou que qualquer tipo de “arquitetura revolucionária” é não só impossível como ingênua: a arquitetura serve exclusivamente aos interesses do capitalismo.

    Mas acho igualmente ingênuo considerar como “positivo” este momento em que o país passa a integrar com mais protagonismo o circuito do capital cultural internacional. Trata-se simplesmente de mais uma armadilha. Lembremos que o famigerado (e péssimo) Teatro de Dança da duplinha pop suíça H&dM chegou a ser estimado em 600 milhões de reais e sua única função era a de promover gentrificação e publicidade urbana. Concordar com isto me parece muito mais grave: este sim é um caso de “arquitetura transformadora”… a favor do capital.

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