Crédito: keetr, 'havaianas', 2010, CC-By. Fonte: https://www.flickr.com/photos/hellokitae/4322362577/

brasil, uma marca

Jair Bolsonaro anunciou no dia 4 de janeiro a nova marca do governo federal. Parece ser um hábito peculiarmente brasileiro o de construir identidades visuais específicas para o governo da vez: ao contrário de outros países, nos quais cada poder e instância do Estado define um sistema perene e consistente de comunicação visual, nossos gestores parecem fazer questão de criar marcas efêmeras associadas ao dono temporário do poder.

A marca anunciada por Bolsonaro prescinde de crítica: é ao mesmo tempo evidentemente ruim e adequada ao seu público cafona da Barra da Tijuca, para o qual o excesso de degradês, desalinhamentos, desequilíbrios e amadorismos soam simplesmente… TOP. Não há muito o que dizer sobre o desenho além do que já foi exposto nesse fio do Twitter:

Alô galera falando da “falta de design gráfico” do regime Bolsonaro: isso não é descuido estético, nem coincidência. É projeto. Tem muito mais design nesse “não-design” do que se pensa. O mesmo vale pros memes “toscos” que circulam nos zaps dos minions. — Pedro Oliveira (@pedroliveira_) 4 de janeiro de 2019

A marca de Bolsonaro parece se definir por uma versão quadrada de um Pac Man tupiniquim, verde e amarelo, debochadamente disposto a devorar tudo e todos. Em face dessa tragédia visual, talvez valha a pena recuperar marcas anteriores, do governo federal ou não, e — também talvez — as escolhas e preferências estéticas que elas sintetizam ajudem a explicar o poço sem fundo em que caímos.

Brasil, um país de todos

Brasil, um país de todos (2003–2010)

A marca usada nos governos Lula, sintetizada pelo lema “Um país de todos”, já foi objeto de uma crítica bastante conhecida de Alexandre Wollner. Em entrevista a André Stolarski (publicada no livro A formação do design moderno do Brasil, editado pela Cosac Naify em 2005), Wollner aponta o que considera problemático no desenho e na conceituação da marca:


Apesar de certa rabugice do velho Wollner, é impossível deixar de concordar com seus comentários: de fato, trata-se de uma solução um tanto quanto preguiçosa para sintetizar uma mal definida e bastante difusa identidade brasileira, sempre associada a uma suposta diversidade e pluralidade que acaba, apesar das usuais boas intenções, apagando ou invisibilizando alguns dos retalhos presentes nesta imensa colcha. Contudo, ainda que se concorde com essa certa rabugice, há que se reconhecer algo de simpático ou mesmo charmoso nessa velha marca — sinal, talvez, do velho clichê de um saudosismo por tempos mais felizes.

Marca proposta por Alexandre Wollner em 2005 como alternativa à marca oficial do Governo Brasileiro (“Brasil, um país de todos”).

O mesmo Wollner, à época, havia ele próprio sugerido um novo desenho para a marca do governo brasileiro. Contudo, apesar também das suas boas intenções, o projeto do mestre Wollner não convence. Sem o charme da marca atrapalhada de Lula, esta parece genérica e sem vida. Se na marca de Lula o apelo a uma identidade difusa era a matriz do projeto, aqui parece ser nosso eterno desencontro enquanto nação.

Brasil: país rico é país sem pobreza / Brasil: pátria educadora

Se a marca do governo Lula tinha algo de simpática, apesar de mal resolvida, as marcas dos governos Dilma são simplesmente ruins, apesar de mais bem resolvidas (ou, talvez, medíocres, o que é ainda pior). Parecem uma readaptação da marca de Lula pioradas, adicionadas de efeitos infames de degradê e tridimensionalização das formas das letras.

Itamar quæ sera tamen

Se o governo de Itamar Franco foi uma grande gambiarra, ao menos sua marca tem algo de peculiar. Não negando suas origens mineiras, a marca de Itamar Franco dá destaque a um triângulo equilátero que faz evidente referência ao da bandeira de Minas — com a diferença de não ser vermelho pois, afinal, vermelho é coisa de comunista e podia pegar mal copiar tão descaradamente a segunda bandeira mais bonita do país (a primeira é obviamente a de Pernambuco com todo aquele jeitão de cartaz de filme do Glauber Rocha). E como mensagens chapa-branca são usuais em lemas governamentais, apela-se aqui novamente a um idealizado sentido de coesão nacional: Brasil, união de todos.

A estrela da morte

Após o golpe de 2016 fomos obrigados a conviver com a infame Estrela da Morte proposta por Michelzinho para representar o governo brasileiro. Com lema militarista e positivista, é sem dúvidas uma marca bastante adequada aos então novos tempos de austeridade e destruição de direitos. Cafona, antiquada e pesada, adequava-se plenamente ao novo governante não-eleito. Reminiscente das fases mais dêgradétícas de Hanns Donner, a marca parecia fundir o país e sua amada Rede Globo em uma única entidade. Desenhada pelo publicitário do rei e escolhida pelo príncipe infante, ela ao menos tinha lá sua graça como alívio cômico para tempos tão sinistros.

Luiza Erundina: gestão democrática, popular e orgulhosamente serifada

Vale sempre a pena destacar os esforços de constituição e consolidação de uma linguagem gráfica bonita, coerente e bem solucionada promovidos na gestão de Luiza Erundina em São Paulo, entre 1988 e 1992 — época em que muitos gestores municipais provavelmente consideravam tal iniciativa supérflua. Fruto indiscutível de seu tempo, o sistema de comunicação visual pensado pelo designer João Baptista da Costa Aguiar — que mais tarde seria responsável pelo feliz projeto de identidade da Companhia das Letras — abraça uma série de tendências próprias dos anos 80/90: revivalismo formal pré-moderno, simetria, uso agressivo de fontes serifadas, alto contraste, etc. Ainda que hoje o sistema pareça datado, continua muito bonito. O projeto originalmente era restrito à Secretaria Municipal de Cultura, então comandada por Marilena Chauí, mas aos poucos se expandiu às demais instâncias do governo.

A bandeira brasileira segundo Lucio Costa e Aloísio Magalhães

Tudo isso, no fundo, foi só uma desculpa para lembrar de Lucio Costa e Aloísio Magalhães. Ambos pensaram formas de melhor trabalhar nossa bandeira — por pior que ela seja — pensando-a como símbolo máximo do país, para o bem e para o mal. Segundo Lucio Costa (p. 49 da nova edição do Registro de uma vivência):

Entendo que em se tratando de fins esportivos, comerciais ou mesmo culturais, seria de toda conveniência a adoção de uma variante simplificada, mais fácil de fazer e, por isso mesmo, capaz de maior impacto e comunicação mais direta e dinâmica, graças a uma triangulação amarela alongada — o oposto, portanto, da contenção do desenho que lhe deu origem.

Desenho sugerido por Lucio Costa (Registro de uma vivência, 2018, p. 49)

O desenho acima, sugerido por Costa, lembra bastante a proposta de Aloísio Magalhães para a marca do Departamento de Turismo do Ministério da Indústria e Comércio.

João de Souza Leite (org.). A herança do olhar: o design de Aloísio Magalhães, p. 168
João de Souza Leite (org.). A herança do olhar: o design de Aloísio Magalhães, p. 168

São soluções otimistas e, em grande medida, igualmente positivistas, além de naturalmente ufanistas — trata-se, afinal, de uma bandeira nacional. Mas são também soluções graficamente engenhosas, geometricamente precisas, elegantes ainda que dotadas de uma dimensão de chapa-branquidão tão grande ou até maior que as anteriores. Ambos intelectuais/profissionais intimamente ligados com diferentes círculos do poder e da burocracia nacional, Costa e Magalhães souberam adequar e modernizar o ufanismo desengonçado do símbolo máximo do país aos anseios de um Brasil grande e moderno — mantendo, contudo, a pasteurização social que nos caracteriza desde sempre, anulando conflitos, fissuras e tensões. Se praticamente todas as demais marcas tentaram propagar alguma noção de união nacional de forma um tanto quanto atrapalhada e cafona — seja pela via da diversidade difusa, seja pela via de um civismo carola —, estas o conseguem de maneira elegante. Seriam, por isso mesmo, talvez mais perversas.

Imagem de abertura: keetr, CC-By, 2010, https://www.flickr.com/photos/hellokitae/4322362577/

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