Residência Farnsworth

mies van der rohe em gotham city

Todos conhecem a residência Farnsworth: clara, limpa, pura. A mais bem acabada expressão tectônica, o mais perfeito posicionamento no sítio, o melhor e mais conciso desenho segundo uma composição geometricamente perfeita. O famoso projeto de Ludwig Mies van der Rohe certamente possui assento garantido no panteão de obras mais significativas do século XX: não seria exagerado dizer que tal é a sua mitificação que a obra se abstrai de si mesma, se desmaterializa e sacraliza-se para além dos problemas mundanos e dificuldades prosaicas que frequentam as narrativas em torno de seu projeto e construção — e em particular da relação abusiva e por anos silenciada que se constituiu entre o arquiteto demiúrgico, arrogante e chauvinista e a cliente, Edith Farnsworth, que havia simplesmente encomendado uma residência de veraneio e recebeu, ao contrário, uma casa-manifesto em grande medida inabitável. Se Mies é um herói mitológico, a residência Farnsworth talvez seja, reconhecidamente, um de seus mais bem acabados doze trabalhos.

Todos também conhecem Bruce Wayne, alter-ego do super-herói conhecido como Batman, publicado na forma de histórias em quadrinhos desde 1939 pela DC Comics. Já é conhecida inclusive a analogia feita entre esses super-heróis fictícios e os heróis das mitologias clássicas: todos conhecemos seus mitos de origem, seus destinos trágicos e suas jornadas épicas, bastando às representações fictícias (na TV, no cinema e nos quadrinhos) promover variações criativas em torno de temas já familiares e já assimilados por todos. Todos sabem, por exemplo, que Bruce Wayne se divide entre sua requintadíssima Mansão Wayne e a Batcaverna de seu alter-ego.

Uma casa de vidro em Gotham City

Já que tratamos de mitos tão vulgares, não deixa de ser curioso (mas também bastante oportuno) que no filme Batman v. Superman — A origem da justiça, dirigido por Zack Snyder e lançado em 2016, a já mítica Mansão Wayne tenha sido substituída por uma espécie de versão obscura e bizarra da residência Farnsworth.

No filme a Mansão aparece como vítima de um incêndio ocorrido em momento anterior ao seu início. Bruce Wayne é apresentado habitando o que parece ser uma residência de veraneio localizada na mesma propriedade, junto a uma lagoa e em conexão direta com a mítica Batcaverna. O que talvez surpreenda (ou não?) é que tal casa de campo corresponde quase perfeitamente a uma versão em tom mais obscuro da igualmente mítica residência Farnsworth.

A planta do imóvel, como sugerida no filme, parece bastante fiel à casa original: de um lado um espaço de jantar e estar, de outro, um quarto de dormir. No meio, uma estrutura que deve concentrar as instalações hidráulicas e onde se presume estarem banheiros e cozinha. A mobília não poderia ser diferente: das famigeradas cadeiras Barcelona e BRNO aos divãs planos desenhados pelo próprio van der Rohe e por Lily Reich, o cenário é um perturbador e obscuro espelho dos interiores da própria residência Farnsworth. Mais sobre a ambientação pode ser encontrado em duas matérias do blog Film and Furniture. Até mesmo o National Trust for Historic Preservation, à época do lançamento do filme, se interessou pelo assunto.

Curiosamente, nas fases de elaboração de concept art para o filme, os designers envolvidos haviam pensado em soluções de projeto menos diretamente alusivas à obra de Mies. Um dos desenhos disponíveis, aliás, lembra vagamente mais a Casa de Vidro de Philip Johnson que propriamente a original de van der Rohe.

Desenho de estudo para a residência de Bruce Wayne no filme Batman v. Superman. Este conceito foi substituído no filme pela residência mais próxima ao desenho da Residência Farnsworth. Disponível em: http://collider.com/batman-v-superman-concept-art/

Com o desenvolvimento do filme, porém, parece ter ficado óbvio que a referência direta à obra prima clean do modernismo parecia mais interessante e perturbadora, agora obscurecida e destituída de sua alvejada pureza. Mármores e estruturas de aço brancas foram escurecidas, assim como o próprio couro das cadeiras Barcelonas espalhadas pela casa.

Perturbador, contudo, é o depoimento da sra. Farnsworth a respeito de como ela se sentia quando ocupava a residência desenhada por Mies van der Rohe: “a verdade é que nesta casa, com suas quatro paredes de vidro, eu me sinto como um animal desconfiado, sempre em alerta. Estou sempre inquieta. Eu me sinto como uma sentinela em guarda dia e noite. Raramente eu posso me esticar e relaxar.”

Perturbador pois Bruce Wayne é um personagem tradicionalmente apresentado dessa mesma maneira nas suas várias representações, ainda que em um nível de patologia mais doentio e ressaltado: um personagem perturbado, paranóico, vigilante, sempre alerta. O sofrimento que a senhora Farnsworth enfrentava habitando aquele inferno desenhado por Mies van der Rohe pareceu, enfim, perfeitamente adequado para um personagem perturbado da cultura pop.

Modernismo pop

A sacralização da residência Farnsworth original foi certamente bastante satisfatória para o velho mestre alemão. Transformada em mito, a casa Farnsworth deixara de ser a prosaica e mundana residência de campo da senhora Farnsworth e passava a frequentar o manuais de história da arte — papel muito mais nobre e adequado aos desígnios sagrados destinados ao iluminado arquiteto, velho homem branco europeu. Uma mera cabana de fim de semana transformou-se, afinal, em alta cultura.

O que o velho Mies diria, contudo, se visse sua obra-prima destinada a um habitante tão vulgar quanto um personagem surgido em revistas de cultura de massas e disseminado em blockbusters de gosto duvidoso?

Mies talvez se revire no túmulo. Contudo, talvez, seja este episódio justamente a afirmação em grau máximo do velho sonho modernista de generalização e democratização da boa arquitetura em todas as instâncias da vida colaborando para a construção do homem novo: pureza formal e boa forma acessando diretamente mentes espalhadas pelo mundo inteiro assistindo às aventuras do bilionário que se veste de morcego para espancar marginais. Arquitetura moderna a serviço — veja só! — do combate ao crime.

Os motivos para que a residência de Bruce Wayne seja a Farnsworth e não alguma outra casa paradigmática do século XX como a Vanna Venturi — mais aberta ao pop, à ironia e ao kitsch — parecem bastante evidentes. Mies certamente se incomoda, mas acho que o casal Venturi e Scott Brown, em algum lugar, sorri.


Imagem de capa: Victor Grigas. Residência Farnsworth (imagem invertida). 2013. CC-By-Sa.

Galeria de imagens da residência como ela aparece no filme do site Film and Furniture: https://filmandfurniture.com/2016/03/batmans-taste-in-modernist-furniture-revealed-in-google-maps-tour-of-bruce-waynes-house-from-batman-v-superman/

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