5 razões pelas quais você (talvez) devesse ser a favor da destruição de estátuas

Crítica expográfica é um blog com um interessante material sobre a prática e o estudo da expografia, bem como de assuntos relacionados a museus e patrimônio cultural. Recentemente a autora, Renata Lanz, especialista em design expográfico e áreas afins, publicou um artigo elencando 5 razões pelas quais as pessoas deveriam ser contra a destruição de estátuas, em função dos recentes casos de derrubada de monumentos dedicados a figuras associadas ao racismo e ao tráfico de escravos.

Do ponto de vista de teorias clássicas da conservação e campos similares, os argumentos são sólidos e valem a leitura. Contudo, tendo a discordar de, se não todos eles, ao menos dos seus principais fios argumentativos. A seguir gostaria de apresentar, respeitosamente, contra-argumentos a cada um dos pontos elencados.

precisamos escutar

Não penso que seja uma discussão simples nem menosprezo os argumentos tradicionais ligados ao campo do patrimônio cultural, que veem na preservação da integridade e da suposta autenticidade das obras aspectos relevantes para a salvaguarda de estudos futuros sobre elas, bem como da possibilidade de gerações futuras as ressignificarem. Creio, contudo, que esta mesma tradição menospreze, por outro lado, contribuições de ordens diversas (como as da antropologia ou mesmo de epistemologias não ocidentais). Também penso que estou longe de ser a melhor pessoa a falar do assunto, já que o lugar de onde produzo meu discurso (de um homem branco numa posição que, apesar de periférica no mundo, encontra-se razoavelmente confortável) definitivamente não é o mesmo daqueles diretamente afetados pelos horrores associados a tais monumentos — horrores certamente vividos na pele até hoje por minorias raciais em todo o mundo. O ideal neste momento, está evidente, é que nos calemos e escutemos estes indivíduos e grupos (e é isso que tenho tentado fazer nas últimas semanas, apesar da tempestade de debates sobre o assunto que surgiram nas redes sociais entre profissionais de patrimônio e museus).

Os comentários a seguir, portanto, são meramente tentativas de pensar alto sobre o assunto enquanto escuto todos os argumentos. Não têm pretensão acadêmica: são quando muito um esboço a partir de comentários que fiz em redes sociais em reação à postura usualmente mais conservadora que temos visto sobre o assunto.


Em primeiro lugar, o texto fala em “aniquilamento da memória”. Parece-me uma forma problemática de olhar para esses monumentos: se, por um lado, eles atuem como vetores ou referenciais de memória, eles certamente não são a memória, como têm nos alertado desde sempre autores como Ulpiano Meneses. Ao contrário, justamente porque há comoção pública em torno deles e pelo fato deles afetarem tanto tantos grupos sociais que sua destruição ritualizada na forma de manifestações políticas os ativa enquanto referenciais de memória. Não é sua destruição que levará ao aniquilamento da memória coletiva: ao contrário, o que os movimentos de derrubada de estátuas têm provado é que é justamente o ato destrutivo que ativa processos de construção e reconstrução de memória associados a eles. Memória, afinal, é invenção, é sempre “ficção”: é socialmente construída por meio de interações como essas. Quando falamos em destruição de estátuas, certamente estamos falando na destruição de referenciais de memória, mas não do seu aniquilamento, mas talvez mesmo da sua construção.

Adianto, inclusive, que sou por princípio favorável a mutilações, destruições e intervenções em bens culturais, especialmente caso eles estejam “tombados” ou listados em instâncias de preservação do patrimônio cultural. Bens culturais assim são caracterizados justamente porque são coisas materiais ou são práticas a que se atribui uma dimensão imaterial de valor, de sentido e de significado. Para que sejam bens culturais, devem portanto ser praticados enquanto tal e devem estar integrados à vida social — só assim os processos de atribuição de valor podem continuar existindo. Mutilações, destruições e intervenções são parte fundamental desses processos e atuam no sentido de salvaguardar e continuamente construir e reconstruir tais valores.

1. derrubar a estátua não afastaria o problema

O racismo e toda a violência cotidianamente direcionada contra as populações negras e as minorias raciais talvez não sejam magicamente extintos no momento em que um monumento a um escravocrata seja derrubado. Contudo, o que — como sociedade — dizemos quando deliberadamente mantemos em pé, no espaço público, monumentos dedicados àqueles que sequestraram, mataram e torturaram populações até hoje submetidas à violência, ao preconceito, à discriminação?

A autora alega que tais monumentos deveriam ser preservados para que fôssemos todos “provocados” por eles, o que não seria possível caso estivessem ausentes. Como comentei acima, não sou negro e não vivo na pele a violência do racismo. Não tenho condições de julgar a reação de alguém que sofreu violência racista a vida toda quando se depara com um monumento ao racismo. Quando vejo uma estátua como essa ser derrubada, contudo, sou lembrado dessa violência — sou lembrado inclusive de que somos todos parte do problema. E isto acontece justamente porque tais monumentos estão integrados à vida pública: porque participam de uma teia de construção de relações simbólicas e de significados. Não se trata aqui também de apenas “escovar a história a contrapelo”: não basta analisar os processos pelos quais eles foram construídos, por quem foram encomendados, dissecar os discursos de sua produção, circulação e inserção na vida pública ou de analisar sua inserção de classe e seu papel ideológico. Não basta a frieza do discurso acadêmico: a ritualização de sua destruição exerce papel fundamental — catártico mesmo — na tomada de consciência, na afirmação de identidades e memórias soterradas e em responder a uma sociedade que sempre tratou de silenciar vozes e corpos indesejados.

Derrubar tais estátuas, portanto, definitivamente não afasta o problema: ao contrário, derrubá-las coloca-o na ordem do dia. Faz emergir vozes soterradas durante séculos. Não fosse o caso, não estaríamos escrevendo sobre isso agora.

2. os supostos apagamentos históricos e seus efeitos

A autora alega que a destruição ou a retirada da estátua colabora para apagar justamente os eventos que são alvo da crítica quando de sua destruição, “jogando para debaixo do tapete” o problema. Sugere, então, que sejam promovidas ações “educativas” ou ferramentas de mediação para que as pessoas tenham consciência das atrocidades associadas às figuras homenageadas por tais monumentos.

Parece-me uma medida um tanto paternalista e disciplinadora — e, mais uma vez, menospreza a violência cotidiana sofrida por aqueles que reivindicam a derrubada desses monumentos. Tais reivindicações ocorrem não porque as pessoas sejam ignorantes, mas justamente porque as pessoas sabem o que significam tais monumentos. Não é uma placa, uma ação de mediação ou uma ação educativa que vai instrui-las sobre isso: elas já sabem disso. Sabem, inclusive, que tais ações de mitigação são no fundo um artifício — esse sim — voltado para jogar para “debaixo do tapete” a violenta teia de significados associadas ao monumento. Colocar uma placa explicativa ou um mediador ao lado da estátua em vez de se derrubá-la não evidencia o papel traumático que ela exerce no meio social: ao contrário, colabora para que ele seja escondido, pois permanece domado, disciplinado, movido para uma instância discursiva controlada — controlada inclusive, potencialmente, pelos grupos que desde sempre detêm o poder e o discurso sobre a cidade e sobre a cultura.

Derrubar, nesse sentido, é romper com essas amarras disciplinares e com o silenciamento típico da mediação de conflitos.

3. efemeridade vs. materialidade

A autora sugere que o efeito espetacular das derrubadas das estátuas neste momento talvez não tenham efeito daqui a 50 anos ou mais. Seria então “ingênuo” achar que derrubar as estátuas agora contribuiria para a luta no longo prazo.

Mais uma vez, não sou protagonista desta luta e só posso me calar e ouvir os seus protagonistas sobre suas estratégias e táticas. E do que tenho escutado, só me convenço de que tais estratégias e táticas estão corretas, pois trata-se de uma opressão de séculos que, sempre postergada, finalmente foi encarada por meio de ações diretas como as derrubadas das estátuas. Discute-se a retirada de estátuas problemáticas na Inglaterra há décadas e uma solução sempre é postergada: com as ações recentes, finalmente se avançou nessa discussão.

Mais uma vez, trata-se de um argumento paternalista e disciplinador por parte da autora: quem somos nós para dizer que a história e a memória desses grupos deve ser discutida, escrita e construída a partir apenas dos nossos termos? Segundo a autora: “Não podemos estudar a memória e a história apoiados em bolhas de sabão.” Não somos nós que nos encastelamos em nossas bolhas de sabão quando dizemos isso?

4. “revendo” a história

A autora sugere ser melhor ressignificar um símbolo que “destrui-lo”. Para isso, sugere que a história oficial — bem como muitos museus — ainda representam o negro como uma vítima e não como um agente histórico. Nesse sentido, a derrubada das estátuas contribuiria para reforçar o papel de “vítima”.

Parece-me, mais uma vez, um argumento paternalista e, em última instância, racista. Se, por um lado, ela está certa com relação à postura racista da história oficial na representação do negro como um sujeito “fraco”, por outro, não tenho condições — já que não sou negro e não vivo na pele o racismo — de dizer ao movimento negro o que ele deve ou não fazer para combater tal situação. Ao contrário, só tenho a escutar e a aprender. Alegar que a destruição seja uma tática ruim para se contrapor a essa narrativa significa roubar do movimento negro o seu protagonismo na luta antirracista.

Volto a ressaltar: não há ressignificação mais impactante para um bem cultural que destrui-lo. Bens culturais assim se caracterizam por se integrarem à vida social. Sua destruição ritualizada, como resultado de um processo coletivo de atribuição de sentido, apenas potencializa e reitera o seu caráter de bem cultural.

5. “Exija dos museus o protagonismo na história, não a destruição de monumentos”

A autora ressalta críticas importantes e sólidas a ações de instituições museológicas que colaboram no apagamento e silenciamento de vozes e memórias da população negra no Brasil. Como comentei, a autora é especialista em expografia e museografia e suas contribuições, nesse sentido, são relevantes. Ela sugere que nos mobilizemos para que museus e instituições afins incorporem sujeitos sociais tradicionalmente silenciados, rompendo com séculos de segregação. Não há como discordar da autora, nesse sentido.

Justamente em função disso que considero relevantes as práticas e demandas de destruição de estátuas e monumentos que vimos comentando até agora. Trata-se justamente de um processo de tomada de protagonismo na discussão sobre a cultura, sobre as políticas e as estéticas da memória e sobre o espaço público — tomada de posição pela via da ação direta que se legitima em função de uma sociedade que há séculos trata de silenciar tais vozes.

Nesse sentido, não será o caso de inverter a provocação? Será que não é hora de exigirmos dos museus e das instituições de patrimônio cultural que passem a incorporar práticas de destruição e a ritualização da perda?

Concluo, como faço muitas vezes, lembrando o antropólogo Alberto Goyena, que acredito ser quem melhor já discutiu o assunto, em um texto (publicado no livro A alma das coisas) sobre a demolição dos Budas de Bamiyan pelo Talebã em 2003:

Não é para todos e em toda parte que a transmissão de uma identidade cultural se faz por meio da preservação de bens materiais. A demolição, assim como a construção e a restauração, tem mesmo seu vocabulário e gramática próprios e parece-me central levá-los em consideração ao empreendermos um estudo sobre a alma das coisas. Afinal, é também demolindo que lembramos e, preservando, que esquecemos.

enfim

O que era para ser um comentário em um blog, em resposta a um artigo que me incomodara, ou um mero comentário em redes sociais, acabou se transformando num texto talvez longo demais para o que ele se propunha.

Não esgoto aqui todas as razões pelas quais considero legítima a mutilação, destruição ou intervenção em bens culturais: quis apenas questionar os argumentos do texto original. Caso escreva no futuro algo com caráter mais acadêmico, volto às outras razões e a essas. Por ora, como havia ressaltado, acho que devemos continuar a parar e a escutar quem por séculos demanda a destruição de símbolos de opressão.


As imagens são intervenções em fotografias do Monumento a Borba Gato disponíveis no Wikimedia Commons em licença Creative Commons.

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