quarentenoutubro (22/10/2020): podcast

O caráter aberto dos sistemas de alimentação de conteúdo de tipo RSS faz dos podcasts — que tradicionalmente, em grande parte, utilizam tais protocolos — um dos últimos resquícios ainda vibrantes da velha web aberta que caracterizou, em alguma medida, as décadas de 1990 e 2000.

Nos anos 2010 a onipresença das redes sociais — sobretudo Facebook, YouTube, Twitter e Instagram — baseadas em plataformas fechadas de distribuição de conteúdo tornaram o ideal de uma web aberta, transparente, segura e ancorada na privacidade e na livre colaboração uma ilusão cada vez mais distante. O uso generalizado de aplicativos fechados em dispositivos móveis, em substituição do navegador, e o desaparecimento quase total de blogues e outras formas autônomas e abertas de expressão e distribuição de conteúdo independente vem nos tornando cada vez mais reféns dos já célebres algoritmos invisíveis que operam por trás de tais plataformas fechadas.

Podcasts, contudo, ainda mantinham — até agora, ao menos — algo do caráter aberto, difuso e colaborativo da velha web dos anos 2000. A própria palavra “podosfera” — apesar da sonoridade algo grotesca — faz referência explícita à velha “blogosfera” dos anos 2000. O sentido associado a ela também é bastante reminiscente da cultura construída em torno dos velhos blogues, em que autores distribuídos pela internet citavam-se e conectavam-se por meio de protocolos abertos, sem qualquer amarra a uma plataforma fechada ou aplicativo opaco.

A trincheira dos podcasts, contudo, está prestes a desabar — mesmo porque essa descrição algo romântica que fiz dele tem certamente muito de ingênuo. A ofensiva do Spotify sobre a podosfera indica a virtual plataformização da mídia: em poucos anos o monopólio do Spotify sobre os podcasts pode ser tão grande ou até superior ao do monopólio do YouTube sobre a distribuição de conteúdo vem vídeo.

A ameaça do Spotify aos produtores de podcasts foi muito bem descrita por Rodrigo Ghedin em um texto no Manual do Usuário publicado ainda no ano passado.

Valorizemos o RSS e o que ainda existe de web aberta, baseada em protocolos de livre utilização construídos de forma colaborativa. Já faz dez anos da publicação do clássico artigo “The Web is Dead. Long Live the Internet” (“A web está morta. Vida longa à internet”), na revista Wired. Tentemos ainda manter vivo o último resquício daqueles tempos.


Este desenho participa da série #quarentenoutubro, uma alternativa ao Inktober.

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