a brasília de william pitt

Um dos documentos mais misteriosos e interessantes relacionados aos mitos de fundação do Brasil, à sua independência e à construção do imaginário em torno de seu território é um provável texto apócrifo, produzido na primeira década do século 19, atribuído ao político conservador britânico William Pitt — que foi, por duas vezes, primeiro-ministro de seu país.

nova lisboa

Trata-se de um discurso, supostamente proferido por Pitt no Parlamento britânico, no qual o primeiro-ministro defendia a transferência da capital do reino de Portugal a uma cidade a ser construída no interior do Brasil, a ser oportunamente chamada de Nova Lisboa. Trata-se, talvez, de uma das mais antigas referências à construção de uma nova capital no interior do país — projeto que, como se sabe, seria poucos anos depois defendido por figuras como José Bonifácio e, já àquela altura, era sugerido pelo jornalista liberal Hipólito da Costa.

Tal discurso teria sido publicado em 1808 ou 1809 pela Imprensa Régia portuguesa em Lisboa, com o nada lacônico título de Discurso do imortal Guilherme Pitt, pronunciado poucos anos antes do seu falecimento, no Parlamento Imperial dos Reinos Unidos da Grã-Bretanha e Irlanda. Contém reflexões e prognósticos dignos de perpétua lembrança dos veneradores deste grande homem de Estado. O contexto é o da transferência da corte portuguesa para o Brasil, ocorrida, como se sabe, em 1808, com a chegada da família real ao Rio de Janeiro escoltada por navios britânicos.

Trata-se de documento já razoavelmente estudado: é possível encontrar artigos dedicados exclusivamente a ele, bem como constitui um dos primeiros objetos aos quais se dedica o historiador Laurent Vidal em seu estudo sobre os vários projetos de capital verificados na história do Brasil. Não é impossível encontrar cópias dessa edição da Imprensa Régia à venda em lojas de livros raros: atualmente há uma cópia disponível no Abebooks, por exemplo, pelo razoável preço de 800 dólares.

Também há uma cópia no incrível acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da Universidade de São Paulo — inclusive, com uma versão digital disponível para consulta. O título desta edição, contudo, é diferente e a editora creditada é a Typographica Lacerdina: Plano sabio, proferido no Parlamento de Inglaterra pelo Ministro de Estado Mr. Pitt, sobre a continuação da guerra com a França, e trasladação do throno de Portugal para o novo imperio do Brasil.

apócrifo ou autêntico?

A autenticidade do documento já foi questionada mesmo no século 19: o historiador Francisco Varnhagen, por exemplo, não tendo encontrado registros desse discurso nos arquivos e bibliotecas britânicas, questionou sua veracidade. Varnhagen argumentara que o texto provavelmente teria sido escrito por um brasileiro que, temendo qualquer tipo de censura ou reprovação, veria suas propostas mais bem recebidas na voz de um estadista britânico. De fato, não há nada que se aproxime dele nos registros dos discursos proferidos no Parlamento nos registros da instituição — que podem, aliás ser verificados online, num impressionante banco de dados que reúne material que percorre vários séculos de história parlamentar. Parte considerável do texto, contudo, diz respeito aos interesses britânicos no controle do comércio brasileiro — o que tornaria difícil, considerando os dados apresentados, que tais argumentos tivessem sido mobilizados por um brasileiro/português (sobretudo pelo peso que eles exercem no documento).

De fato, ao olhar para as circunstâncias em torno da publicação, a história começa a ficar interessante e misteriosa: ainda que não cite diretamente a transferência da corte em 1807–1808, o contexto geral em que se insere o texto é da presença de João VI no Rio de Janeiro. Desta forma, o texto só poderia ter sido escrito após essa data, sendo então publicado no ano seguinte. Contudo… William Pitt, seu suposto autor, falecera em 1806, dois anos antes da chegada da família real ao Brasil.

Mitos relacionados à fundação de nações normalmente se enriquecem de episódios como o desse discurso, repleto que é de mistérios em torno de sua concepção e publicação. Seu próprio conteúdo é propício à sua incorporação ao imaginário de fundação da nação: seu autor sugere que a virtual nova capital do império português no Brasil deveria se localizar no mítico Lago dos Xaraiés — local em que se acreditava até o século 19 se reunirem as nascentes dos principais rios do território brasileiro.

Há também curiosidades no texto: o eventual rio localizado junto à nova capital passaria a se chamar de “Novo Tejo” e os demais rios e cidades do reino receberiam os nomes de seus congêneres da antiga metrópole.

Independente da intenção de seu desconhecido autor verdadeiro — já que se duvida da autoria de Pitt desde meados do século 19 —, o fato é que Nova Lisboa nunca viria a se realizar. O discurso apócrifo de Pitt, porém, permanece como um dos mais misteriosos e interessantes documentos da história do Brasil.

•••

Em tempo: curiosamente, William Pitt teria falecido em função de complicações decorrentes do consumo excessivo de… vinho do Porto.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.