flávio villaça

Ontem soube do falecimento do professor Flávio Villaça, talvez a mais importante referência teórica em planejamento urbano durante os tempos de minha graduação em Arquitetura e Urbanismo nos anos 2000. Hoje não sou urbanista nem trabalho com planejamento urbano. Apesar disso, não só foi fundamental para minha formação o contato com a obra de Villaça como lembro com prazer da leitura atenta de seus textos durante os anos de graduação — uma obra sempre provocativa, didática e instigante.

Alguns podiam considerar os modelos que Villaça propunha para interpretar o fenômeno metropolitano no Brasil como excessivamente esquemáticos ou mesmo por demais didáticos. Para mim, contudo, tal formulação fazia todo sentido: à época eu morava na Zona Leste de São Paulo e estudava na Cidade Universitária — enfrentava longos trajetos de ida e volta todos os dias em ônibus e metrô sempre mais do que lotados. Enxergava cotidianamente e vivia aquilo que Villaça esmiuçava enquanto teoria de produção do espaço urbano no Brasil: cidades cujas identidades sempre eram subordinadas à ideologia da classe dominante, construídas em torno de estratégias perversas de segregação e marcadas pela concentração de investimentos públicos nas áreas de moradia e sociabilidade das elites. Villaça também nos instigava a desconfiar das possibilidades efetivas de transformação da sociedade por meio do planejamento quando este se limitava a se identificar como mera técnica, destacando sempre a necessidade de politizar planos diretores e outros instrumentos urbanísticos.

O vocabulário proposto por Villaça fazia parte de nosso dia-a-dia: “vetor Sudoeste”, setores de círculo de desenvolvimento urbano, vetores de expansão de centralidades, localizações, “lado de lá”, “lado de cá”, etc. De certo modo a leitura de Villaça ajudava a racionalizar aquela raiva que eu sentia dessa cidade tão segregada, perversa e violenta com seu povo mais pobre.

Trabalho hoje com outros temas e estudo e pesquiso ainda outros assuntos e nunca de fato conheci o professor Villaça, mas me entristece saber do falecimento desse professor, pesquisador e profissional tão relevante para minha formação.


Em 2009, durante uma das muitas revisões do Plano Diretor de São Paulo — e durante uma revisão particularmente problemática, pois pouco transparente e repleta de interesses obscuros — ajudei a organizar um evento na FAUUSP sobre como se dava todo aquele processo. Entre vereadores, pesquisadores e profissionais que havíamos convidado, destacava-se a figura do professor Villaça — que aceitou com muita gentileza nosso convite.

Vejo hoje os muitos colegas que trabalham em secretarias de planejamento, empresas públicas e privadas de urbanismo e em instâncias de gestão e formulação de políticas públicas e percebo a contribuição fundamental de Villaça para toda essa geração. Uma perda inestimável.

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