casas grandes

Imagens recentes da demolição da Ala Leste do complexo da Casa Branca tomaram as redes sociais no fim de outubro, tendo sido recebidas ora com surpresa, ora com repulsa, ora com deboche. Donald Trump, que pretende construir no local um novo salão de baile com capacidade para cerca de mil convidados, havia alegado que o novo anexo não afetaria em nada a Casa Branca — mas, pelo visto, ele se referia ardilosamente apenas à edificação principal e não a seus anexos construídos ao longo do século 20.

Nas redes sociais brasileiras, em particular, o deboche foi quase hegemônico: apontava-se sistematicamente como nos EUA supostamente não só não haveria SUS como também não haveria um órgão como o Iphan, cuja autoridade sobre bens tombados impediria que algo semelhante acontecesse no Brasil.

sítios históricos e monumentos nacionais

De fato, a legislação federal estadunidense de reconhecimento e identificação de bens culturais apresenta muitas limitações relacionadas à preservação desses edifícios e monumentos quando comparada com o caso brasileiro, que praticamente impede qualquer tipo de intervenção, mutilação ou destruição sem prévia autorização, seja a propriedade pública ou privada. Embora o sistema federal de listagem de bens culturais nos EUA seja mais bem costurado (articulando listagens estaduais e federais de forma estruturada), a capacidade do estado em limitar as intervenções em bens privados é bastante restrita e dependente da complementação de leis locais.

Numa comparação grosseira com o caso brasileiro, há nos EUA algo como dois “livros de tombo” federais: o primeiro, que reúne cerca de 90 mil bens, é o National Register of Historic Places, cujas inserções são deliberadas por conselhos estaduais, num sistema articulado entre as várias unidades da federação. O segundo constitui um subgrupo do primeiro: é o cadastro de “national landmarks” (que inclui “monumentos naturais” e “monumentos históricos”). São cerca de 2.500 “National Historic Landmarks”.

As intervenções em edifícios públicos presentes nestas listas (sobretudo na segunda) demandam avaliação prévia de determinadas instâncias. A Casa Branca, contudo, é uma exceção, embora seja tanto um “sítio histórico” quanto um “monumento nacional”: as intervenções previstas para ela são avaliadas por um conselho formado especificamente para a sua própria curadoria, mas tal conselho não foi nomeado e implementado na atual gestão desde a posse de Trump, cujo antirrepublicanismo sistemático em seus processos de tomada de decisão se transformou em norma.

A demolição da Ala Leste ganha contornos simbólicos ainda mais intensos quando lembramos a maneira pela qual se dividem os “domínios” daquele complexo: se a Ala Oeste é tradicionalmente associada ao funcionamento da cúpula do Executivo federal e à própria figura do Presidente da República (trata-se, afinal, do anexo no qual se encontra o famoso Salão Oval), a Ala Leste é associada à figura da Primeira-Dama e à gestão do cotidiano da Casa Branca. Ainda que tal divisão reitere institucionalmente uma certa divisão sexual do trabalho e um certo olhar patriarcal para a gestão do espaço doméstico (sem falar na própria formalização da figura institucional da Primeira-Dama, um cargo não-oficial e não eleito), não deixa de ser uma agressão à figura da Primeira-Dama a destruição de seu espaço particular de trabalho.

duas casas-grandes

Mais interessante que comparar o precário sistema federal de proteção do patrimônio cultural lá do norte com o nosso cá do sul, talvez seja pensar nos paralelos possíveis entre as duas respectivas residências presidenciais. À primeira vista, não poderiam ser edificações mais distintas e distantes: uma neoclássica, construída no início do século 19; a outra, modernista, pensada no meio do século 20.

Para além das diferenças na superfície, contudo, os paralelos mais interessantes começam a surgir quando olhamos para elas com mais cuidado — sobretudo aqueles ligados à sombra da escravidão que ainda paira em ambos os países.

Do ponto de vista discursivo há inclusive grandes paralelos: se o neoclassicismo washingtoniano evocava para a jovem nação estadunidense o legado greco-romano da tradição democrática e republicana, a arquitetura brasiliense também, de certa forma, evoca na pureza de suas formas claras e em suas muitas transparências o desejo de construção de uma nova república democrática no interior do continente americano, levando ao sertão o projeto civilizatório da modernidade. De formas diferentes, ambas as abordagens apostam na construção de imagens fortes e imponentes para instituições republicanas assentadas no novo mundo.

O Palácio da Alvorada é quase inteiro transparente, ainda que resguarde minimamente a privacidade do apartamento particular do Presidente da República e de sua família — embora certamente distante e inacessível para a imensa maioria da população brasileira.

A Casa Branca é um curioso edifício cujo caráter muda a depender de por onde ela é vista: quando avistada da Avenida da Pensilvânia trata-se de uma modesta e quase discreta edificação neoclássica com alguma inspiração paladiana — uma residência discreta, ainda que imponente. O amplo gramado que separa a Casa da Avenida ajuda inclusive a esconder as duas alas laterais construídas no século 20 — lembrando um tanto a configuração do Monticello, casa-sede da propriedade rural de Thomas Jefferson, um dos “pais-fundadores” dos EUA e notório senhor de pessoas escravizadas. Quando vista, contudo, a partir da Esplanada Nacional, ela ganha uma imponência ainda mais reiterada, em função do aclive em cujo topo ela se encontra e pela colunata curva de sua fachada posterior, que se projeta para fora de seu volume principal como que aumentando seu tamanho. Voltada para a cidade é bastante discreta, mas quando se volta para o principal espaço cívico da república estadunidense, ela revela a força do Executivo naquele arranjo de poderes.

A colunata posterior da Casa Branca (muito mais fotografada, inclusive, que seu frontão principal voltado à Avenida da Pensilvânia) fatalmente nos faz lembrar da arquitetura típica de casas-grandes dos “plantations” estadunidenses. Se a articulação entre um volume principal e duas alas secundárias laterais já lembrava o Monticello (casa-grande mais famosa dos EUA) em particular, esta vista posterior com sua colunata curva lembra ainda mais as casas-grandes caracterizadas sobretudo por suas varandas também estruturadas em colunatas — em muitos casos também posicionadas em posições topográficas elevadas.

Se a sede do Poder Executivo estadunidense faz referência direta a uma casa-grande — expressão de uma nação construída em torno da violência da escravidão — o mesmo pode ser dito do Palácio da Alvorada no Brasil. Com efeito, praticamente desde que foi construído a referência à casa de fazendo é explícita (e até mesmo intencional): uma grande casa avarandada elevada do solo, com capela anexa e cujo subsolo é destinado aos seus serviçais.

Dado todo esse contexto de violências, talvez a agressão de Trump à Casa Branca nem seja tão distante assim do efetivo espírito senhorial sobre o qual foi construída aquela República — assim como a nossa.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.