quarentenoutubro (2/10/20): maratona

Brooklyn Nine-Nine talvez seja uma melancólica e, em certo sentido, patética resposta dos anos 2010 àquela que, possivelmente, foi a mais representativa sitcom estadunidense dos anos 2000: The Office.

Em The Office assistíamos a uma caricatura do mundo do trabalho no capitalismo avançado no auge do neoliberalismo: o cenário é repleto dos empregos inúteis (“bullshit jobs”) descritos pelo falecido e saudoso David Graeber. A equipe da fictícia Dunder Mifflin é razoavelmente diversa (há brancos, negros, latino-americanos, representantes de outras nacionalidades, homens e mulheres) e, de um modo geral, foge do padrão usual de seriados televisivos estadunidenses, em que os protagonistas e coadjuvantes são sempre maravilhosamente lindos, dotados de uma beleza excepcional e nada cotidiana. Os funcionários liderados pelo caricato Michael Scott são, ao contrário, bastante ordinários: é no cinismo deliberado dos eventos trabalhados na série que se encontra sua grande qualidade.

Trata-se, sabemos, daquele tipo de humor constrangedor, doído, em certa medida até autodepreciativo: rimos das situações constrangedoras que, de todo modo, espelham a nossa própria realidade patética. Todos os personagens são odiosos em alguma medida, não apenas o patético Michael Scott: mesmo aqueles que pretendem se comunicar com o espectador — aparentemente as únicas vozes de razão num mundo aparentemente tão ensandecido —, como o casal Jim e Pam, revelam fatalmente seus defeitos e refletem, no fundo, a igualmente criticável estrutura familiar de classe média que, ela própria, gera toda essa loucura. The Office é a expressão mais perfeita do mal estar no mundo neoliberal, da vida cotidiana no fim da história: trata-se de um riso perturbador, pois rindo de personagens tão patéticos espelhados em nosso mundo, reconhecemos mesmo a nossa própria vidinha de merda

Pulamos, então, para Brooklyn 99. A série, que retrata uma fictícia delegacia de polícia (a de número 99) no bairro do Brooklyn, em Nova Iorque, é provavelmente a mais perfeita forma de escapismo e de negação da realidade ao mundo retratado em The Office — não por acaso, ela estreou apenas alguns meses após a conclusão de The Office. Trata-se, afinal, de uma delegacia de polícia (a mesma polícia que, lembremos, tem sido alvo dos protestos do movimento Black Lives Matter) na qual a equipe representada é tão ou ainda mais diversa que aquela presente em The Office, ainda que eventualmente recorra a estereótipos: o líder da equipe é negro e homossexual. Há personagens latino-americanas, homens e mulheres em posição de poder semelhante. O protagonista é o típico estadunidense branco médio — mas sua posição é relativizada pela forma atrapalhada com que é retratado. Aliás, os dois policiais mais velhos que servem de constante alívio cômico numa série já repleta de piadas infames (preguiçosos e avoados) também são homens brancos, o que ajuda a relativizar as posições usuais com que representações étnicas e raciais são normalmente mobilizadas na TV estadunidense. Do ponto de vista de representatividade, portanto, a série certamente tem seus méritos.

Contudo, mais uma vez: trata-se, afinal de uma delegacia de polícia. E não se trata apenas da normalização da violência policial e dos absurdos cotidianos da sociedade em que ela está inserida: se The Office retratou a miséria da vida no neoliberalismo, Brooklyn 99 também é uma espécie de ode saudosa — e, portanto, patética — ao estado de bem estar social: afinal, retrata uma estrutura de serviços públicos razoavelmente eficiente, diversa, inclusiva, jovial e em grande medida tolerante e progressista — nada mais distante da realidade concreta. Seria, então, escapismo ou ingenuidade?

Não sei, mas preciso dizer que adoro Terry Crews.


Este desenho participa da série #quarentenoutubro, uma alternativa ao Inktober.

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