a sinceridade da bienal de arquitetura brasileira

bloco branco sobre o qual há um conjunto de desenhos expostos sob uma placa de vidro
Croquis da expografia da Bienal Internacional de Arquitetura de 2019 expostos no Centro Cultural São Paulo

Em 2003 eu tinha 18 anos e ainda estava no cursinho me preparando para o vestibular de arquitetura. Nessa condição visitei a 5ª Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo. Fiquei fascinado. Eram tempos de relativo otimismo: Lula tinha acabado de ser eleito presidente e o Partido dos Trabalhadores já estava em seu terceiro ano de gestão na prefeitura de São Paulo, tendo como mandatária a histórica feminista Marta Suplicy. 

(É meio doido, aliás, pensar que hoje seria quase impossível que uma mulher que já defendeu publicamente o direito ao aborto em rede nacional fosse eleita para a prefeitura da maior cidade do país. Mas isto é outro assunto.)

Talvez como reflexo deste clima, aquela edição foi marcada por um certo espetacularismo da arquitetura produzida pelo Estado: estavam lá, por exemplo, as maquetes dos então impressionantes Centros Educacionais Unificados promovidos pela gestão de Marta Suplicy (projeto de Alexandre Delijaicov, André Takiya e Wanderley Ariza) e de outros projetos da prefeitura. Mesmo por parte do neoliberalíssimo governo do estado havia iniciativas interessantes, como os projetos para a expansão do Metrô de São Paulo. Numa época em que ainda sequer sonhávamos com as facilidades do Google Maps, fomos apresentados a uma gigantesco mapa do município de São Paulo formado por uma montagem de fotos aéreas dispostas no chão do Pavilhão — uma forma de ver a cidade absolutamente inédita para a maior parte das pessoas. Visitar aquele espaço certamente havia confirmado minha escolha para o vestibular: era aquilo que eu queria estudar — e era com arquitetura pública que eu queria atuar.

a bienal internacional de arquitetura

A Bienal Internacional de Arquitetura (BIA) teve sua primeira edição em 1973: uma espécie de desmembramento da seção de arquitetura da então já célebre Bienal de Arte de São Paulo, o evento foi uma parceria da Fundação Bienal com o Instituto dos Arquitetos do Brasil (IAB). Nos últimos anos o evento tem sido promovido exclusivamente pelo IAB, tendo inclusive deixado de ocorrer no Pavilhão da Bienal do Parque do Ibirapuera já faz vários anos. Após ter sido sediada em diferentes espaços culturais da cidade (nos Sescs, no Centro Cultural São Paulo e até mesmo pulverizada em pequenos espaços em diferentes bairros), sua mais recente edição voltou ao Ibirapuera, ocupando agora o prédio da Oca.

Aspecto da Bienal de Arquitetura com painéis e mesas expositivas
Aspecto da Bienal Internacional de Arquitetura de 2019 em sua seção localizada no Centro Cultural São Paulo

Desde sua primeira edição a Bienal teve altos e baixos (talvez mais baixos do que altos, é preciso reconhecer, apesar das abordagens interessantes e competentes que foram promovidas pelas curadorias da 12ª e da 13ª edições, ocorridas em 2019 e 2022). Por muitos anos, inclusive, mantive um certo ranço dela e do próprio campo disciplinar, com seus arquitetos estelares, discursos herméticos recorrentes e suas narrativas ensimesmadas. Bem ou mal, contudo, essas bienais têm sido momentos oportunos para pautar questões ligadas à vida nas cidades, às formas de morar e em reunir palestrantes e debates interessantes.

um parasita

Dada essa trajetória já consolidada e a posição central que o evento ocupa no campo disciplinar, foi com certa incredulidade e espanto que soubemos da existência de um evento paralelo que ocorrerá agora no primeiro semestre de 2026 chamado Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB). Além de adotar um título tão próximo ao da Bienal promovida pelo IAB, esta nova suposta Bienal tem se vendido como um evento inclusivo e marcado pela diversidade, já que ela reuniria projetos de todos os estados do país.

Passando os olhos pelas imagens de divulgação, contudo, tudo leva a crer tratar-se antes de uma feira de arquitetura de interiores, decoração e de mercado imobiliário. Os projetos parecem se resumir às sempre insuportavelmente entediantes residências de elites, normalmente localizadas em lotes unifamiliares de condomínios fechados — estruturas notoriamente reconhecidas há décadas como verdadeiros crimes urbanísticos e ambientais, responsáveis por destruir habitats naturais e agravar desigualdades urbanas. É, portanto, a pura negação de qualquer possibilidade de inclusão e de diversidade.

Pela quase nula sofisticação dos projetos apresentados e pelo tédio de seu conjunto, o evento parece antes uma espécie de CasaCor um pouco mais envergonhada — um evento que não tem coragem de admitir se tratar de uma iniciativa do mundo do mercado imobiliário e tenta atrair para si certa autoridade e legitimidade que a ideia de uma “bienal de arquitetura” carrega, mesmo que caracterizada pela ausência de qualquer debate mais qualificado.

Pra piorar, esta bienal paralela cobra aos visitantes cerca de absurdos 100 reais pelo ingresso mesmo tendo surpreendentemente conseguido captar recursos pela Lei Rouanet. Uma bienal que se revela tão inclusiva quanto um camarote VIP — e aparentemente tão cafona quanto um lugar desses.

uma bienal de arquitetura sincera, afinal?

Não parece haver qualquer curadoria consistente ou sofisticada na reunião dos projetos exibidos ou na forma como eles são apresentados. O evento lembra um pouco as supostas exposições de arte promovidas todos os anos no Carrossel do Louvre — shopping center localizado junto ao famoso museu parisiense, nas quais os supostos artistas ali expostos em geral pagam pela presença de suas obras na mostra. Todos os anos, aliás, a imprensa brasileira sempre cai na mesma armadilha de noticiar que a obra de algum fulano qualquer foi acolhida pelo Louvre quando na verdade o sujeito provavelmente pagou pra ser exposto não no museu mas no saguão daquele shopping center — que, afinal, nada tem a ver com o museu (e que, aliás, sequer faz exposições de arte contemporânea, o que torna tais notícias uma gafe ainda mais constrangedora)

Parece que o mesmo tende a ocorrer com esta bienal paralela: escritórios em busca de reconhecimento passarão a anunciar que foram “escolhidos” para expor suas obras “na bienal de arquitetura de São Paulo” — ainda que não a histórica Bienal Internacional de Arquitetura de São Paulo, mas essa versão paralela.

Por outro lado, porém, talvez se trate de uma bienal mais sincera. No fundo, o mundo da arquitetura é isso mesmo: uma sucessão interminável de imagens entediantes de residências burguesas sem graça inseridas em um universo radicalmente apartado da realidade vivida pela maior parte da população. Talvez, no fundo, os debates mais “sérios” e mais “sofisticados” promovidas pela Bienal Internacional de Arquitetura sejam de fato uma ilusão — ou um eficaz véu que de fato esconde toda essa desgraça entediante que a bienal paralela apresenta com tanta sinceridade.

Arquitetura, afinal, é realmente muito mais do que isso?

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