
Prezado Presidente Lula,
Aos 17 anos eu votei pela primeira vez. O ano era 2002 e fiz questão de fazer meu título de eleitor porque queria participar da ampla mobilização nacional por mudança que tinha lugar no país naqueles tempos. Embora meus pais nunca tenham deixado faltar nada em casa, vivi uma infância espartana na Zona Leste de São Paulo durante os anos 90, mesmo que confortável se comparada à infância de milhões de pessoas que naquela época ainda viviam em condição de miséria. Eu lembro até hoje das manchetes: em 2002 cerca de um terço do país vivia em condição de miséria. Uma em cada três pessoas passava fome. É absurdo quando a gente diz em voz alta: menos de trinta anos atrás, uma em cada três pessoas no país passava fome.
Frente a este cenário, meu primeiro voto foi, naturalmente, em você.
Gostaria de ter ido presenciar a posse ao vivo em Brasília, mas, à época, ainda muito jovem e sem dinheiro, não podia me permitir essa pequena aventura. De qualquer forma, ao longo dos anos seguintes, nós vimos o país se transformar. Em 2004 eu consegui entrar no curso de Arquitetura e Urbanismo na Universidade de São Paulo e lembro que entre meus colegas graduandos eu contava nos dedos das mãos a quantidade de estudantes negros — alguns deles, inclusive, eram intercambistas europeus. Eu fazia parte de um pequeno grupo de graduandos que vinha dos bairros mais pobres de São Paulo. Hoje as universidades mudaram e vemos as filhas e filhos da classe trabalhadora não só as frequentando como ocupando seus espaços com competência e responsabilidade, escrevendo dissertações e teses que estão transformando o país. As filhas e filhos de empregadas domésticas, porteiros, motoristas e operários estão percorrendo o mundo produzindo conhecimento graças à expansão do ensino superior público.
Ao longo desses anos testemunhamos uma série de vitórias: contra a fome, contra a miséria, contra a ausência de oportunidades. Nunca antes na história deste país se construíram tantas universidades e se criaram tantas vagas no ensino superior público. Essa luta, obviamente, foi resultado da ação de milhares de companheiras e companheiros, mas não fosse sua chegada à presidência da República em 2003 talvez nunca tivéssemos conquistado tanto. Você liderou uma luta que levou o país a ser retirado do mapa da fome não apenas uma, mas duas vezes.
Nas últimas duas décadas, dediquei praticamente toda a minha vida adulta à universidade pública, seja na forma de graduando, mestrando, doutorando e como servidor técnico-administrativo. A universidade pública pra qual eu me dediquei tanto, que me abriu horizontes e que me mostrou mundos novos, contudo, foi sistematicamente atacada quando a Presidência foi usurpada por um miliciano de péssima fama cujo nome prefiro não evocar. Chegaram a dizer naqueles anos que universidade não é pra todo mundo — na mesma época em que quase morremos em função de uma omissão criminosa do então Presidente da República no tratamento da pandemia. Votamos em você em 2022 novamente para frear esses ataques e reconstruir o país.
Escrevo estas palavras às vésperas do dia 25 de outubro com a certeza de que derrotaremos mais uma vez a milícia e que continuaremos a reconstruir o país. Os dias têm sido tensos e os ataques do outro lado são cada vez mais violentos e agressivos, mas não desanimamos pois sabemos que o desânimo é reacionário e desde 1989 a gente canta: “sem medo de ser feliz.”
De qualquer forma, independente do resultado das urnas, não quero deixar de dizer: OBRIGADO. Certamente tenho muitas críticas a diversas ações e atitudes cometidas pelos seus governos em todos estes anos, mas mesmo assim: obrigado. Obrigado por tudo. Obrigado por liderar um país em que uma pessoa que cresceu num lugar chamado Vila Ré poderia virar doutor. Obrigado por mostrar ao mundo que colocando o pobre no orçamento é possível fazer com que a fome seja varrida de um país continental. Obrigado por ter construído tantas universidades e institutos federais. Obrigado por nunca ter submetido o Brasil à condição de subalterno nas relações exteriores. Obrigado por mostrar que um torneiro mecânico poderia se tornar o mais importante presidente da história do país.
Obrigado. Dia 26 estaremos ao seu lado.