repost: mike davis, ‘new urbanism’ e koolhaas

originalmente publicado em http://stoa.usp.br/gaf/weblog/37357.html no dia 22 de novembro


mike davis, ‘new urbanism’ e koolhaas

Postado por gabriel fernandes

sta ifigênia

A revista Margem esquerda n. 12 apresenta uma entrevista a Mike Davis, conduzida por Otília Arantes, Mariana Fix, Ermínia Maricato e Michael Löwy neste ano por meio de correio eletrônico.

Ainda não comecei a lê-la, mas já me chamaram a atenção algumas passagens (todos os grifos são meus, uma cópia destes trechos também se encontra aqui):

(…)

Margem esquerda – Você faz a crítica ao que chama de "urbanização autônoma", dada a ausência de Estado, mas não seria essa a única forma de sobrevivência e até de resistência das populações desassistidas?

Mike Davis – Essa é uma leitura equivocada: eu critico a mitologia de que os pobres urbanos podem solucionar a crise da vida diária sem redistribuição fundamental de riqueza social e poder político. Está na moda a celebração das habilidades de sobrevivência e as capacidades de auto-ajuda dos moradores das favelas, enquanto é ignorada a evidência gritante de que as oportunidades econômicas informais estão se degradando rapidamente na maior parte dos países desenvolvidos, enquanto as ocupações tradicionais vêm sendo largamente privatizadas ou forçadas a terrenos mais perigosos. A "urbanização autônoma" soa muito bem se você nunca viveu em uma favela, mas, como outros conceitos distorcidos do discurso "ONG urbanista" ("concessão" é o pior), isso romantiza a auto-ajuda, minimiza a escala de necessidade humana e substitui a luta social e redistribuição de renda por filantropia. Além disso, em discussões oficiais sobre moradia e emprego informais, valiosas idéias anarquistas sobre auto-organização dos pobres têm sido estranhamente distorcidas para servir aos objetivos da agenda neoliberal de desenvolvimento. Mais perniciosa ainda (…) é a desvalorização da iniciativa do poder público, e certamente, da responsabilidade do governo em garantir montante adequado de investimento social em infra-estrutura urbana e recursos humanos. (…) Nos Estados Unidos, além do mais, os urbanistas tendem a ser ignorantes em relação à experiência de movimentos que têm tentado combinar mobilizações baseadas em favelas com lutas nacionais pela reforma ou transformação do Estado. (…) Arquitetos, em particular, são inclinados a abraçar slogans e ícones em vez de fazer um esforço para entender a atual política que molda a forma urbana.

[mais adiante, em uma pergunta sobre crise ambiental, Davis comenta rapidamente o new urbanism e a falaciosa arquitetura sustentável]

(…)A conseqüência de transferir o fardo do suprimento de moradia para os próprios pobres, falhando, então, em prover infra-estruturas essenciais ou armaduras tradicionais de cultura urbana, é a catástrofe da vida diária na periferia, onde qualquer trajeto para o trabalho ou ida ao hospital leva horas em engarrafamentos dentro de um miniônibus superlotado e sufocante. Contudo, é aqui onde as cidades despejam o lastro da pobreza e marginalidade, que o slogan dos novos urbanistas estadunidenses de "expansão reurbanizadora" – embora em sentido muito mais radical do que o pretendido originalmente – tem a ressonância humana e ambiental mais urgente. Falando de uma perspectiva estreita, eu acho que a crise interna na arquitetura e nas profissões de planejamento hoje em dia é precisamente a falta de conceitos e designs inteligentes que tratem da pobreza, energia, mudança climática e espaço público no contexto das cidades em desenvolvimento ou nas periferias pobres de metrópoles mais antigas. As mais ricas podem escolher entre uma abundância de engenhosos desenhos para eco-living, mas qual é o objetivo último? Permitir que celebridades propagandeiem sobre seus estilos de vida "zero-carbono" ou trazer energia solar, banheiros, internet e empregos verdes no serviço público para as comunidades urbanas pobres?

ME – Você se refere a Lagos, na Nigéria, como um exemplo extremo de cidade-favela. Como o arquiteto holandês Rem Koolhaas, acredita que ela é o nosso futuro? Ou seja, mais do que uma cidade atrasada africana em vias de modernização, é um caso paradigmático de uma cidade situada no primeiro plano da modernidade global? O que diferencia o seu diagnóstico do de Koolhaas?

Mike Davis – Não há uma forma educada de se dizer isso: os delírios de Koolhaas têm se tornado desculpas débeis para o mal estar social. Com efeito, ele diz que "tudo bem que os nigerianos, cujo país tem sido pilhado durante décadas por ditadores militantes apoiados pelo Ocidente, tenham de viver na merda e na miséria auto-organizadas, contanto que outros regimes autoritários, como os de Dubai e Pequim, apóiem as minhas construções absurdas". As megalópoles fascinam as autoridades e os arquitetos-celebridades, mas para a maior parte dos moradores urbanos o futuro será definido pela qualidade de vida em lugares como Maracay, Ndadema, Santa Cruz, Diyarbakir, Nagpur, Padang, Suxian. Essas cidades de médio porte, mas que crescem rapidamente, estão normalmente fora do escopo do radar teórico, mas são a escala modal que precisa ser incorporada com mais urgência às análises dos urbanistas. Imagine se os astrônomos baseassem a ciência das estrelas quase que exclusivamente no estudo das Gigantes Vermelhas e das Supernovas.

fonte: "Entrevista – Mike Davis" in Margem esquerda – ensaios marxistas, edição 12. São Paulo: Boitempo Editorial, novembro de 2008, pp 16-20.

Apesar de eu achar que as entrevistadoras lidam com estes temas muito melhor do que o entrevistado, as opiniões são interessantes, considerando que vêm do centro do capitalismo. Infelizmente Davis (assim como Harvey, Neil Smith e toda uma linha de intelectuais estadunidenses marxistas) é pouco lido em seu país de origem…

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