“por que a participação é importante”

Segue um registro de um seminário ocorrido em 2006, durante a Bienal de Veneza, reunindo nomes como Peter Blundell-Jones e Lucien Kroll: porque participação é tão importante (arquivo .wav, o áudio está péssimo, não achei a transcrição). Mais nas seguintes páginas: http://easa.antville.org/stories/1488710 e http://www.indymedia.ie/article/87770

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Os então ainda quentes protestos ocorridos nos subúrbios parisienses no ano anterior (aliás, analisados por Paulo Arantes no artigo “Alarme de incêndio no gueto francês”*) são evocados na construção dos argumentos expostos nesse seminário (grifo meu):

As a matter of urgency, we must stop considering architecture, urban and landscape design as products of techniques, rationalities, methods, economy, hard sciences, specifications, or narcissism. Last year, in the French Clichy-sous-Bois, we saw riots when young people burned 1000 cars in 20 days as well as many public buildings, and how it had been triggered by a criminal modern architecture. If the 20th century was overwhelmed by the power of technology authority, the 21st century will probably endeavour to soften and try to rehumanize its citizen`s behaviours and by the way, also its architecture.

(trecho de um texto de René Schérer constante de um pôster colocado por Kroll no pavilhão onde ocorreu o seminário em 2006)

É evidente ingenuidade rotular como indutora dos protestos exclusivamente a “criminosa arquitetura moderna” dos grandes conjuntos localizados nas periferias de Paris: o mais provável é que tal arquitetura tenha de fato assumido publicamente o papel de bode expiatório, como que mascarando os verdadeiros culpados (se é que se pode falar em “culpados” quando do exercício do direito ao dissenso), visto que tornou-se política pública a demolição dos conjuntos construídos nos anos 50 e 60. Mais ingênuo ainda é ignorar o papel exercido pelo preconceito cotidiano às populações marginalizadas na Europa, materializado nas longas distâncias entre trabalho e moradia, pela longa distância entre a vida cotidiana e as ilusões de um minguante Estado de Bem Estar Social (que nunca funcionou para os imigrantes), pela longa distância entre o aparente cosmopolitismo francês e a intolerância às culturas consideradas “exóticas”.

A partir de um entendimento frágil de qualquer conjuntura política e social, toda alusão a processos “participativos” torna-se não apenas ingênua como ideológica: mascara de fato os conflitos, ao invés de potencializá-los. Assim, quase não se torna possível deixar de concordar com as críticas mais comuns às propostas de participação do usuário nos processos de conceituação da arquitetura: eles tendem mesmo a configurar-se como um reflexo das políticas neoliberais de “auto-ajuda” pregadas pelo Banco Mundial e pelo FMI, visto que tudo não passaria de um mero processo de “conciliação” entre os donos do poder e os excluídos dele (sem falar no rebaixamento de níveis de salário que tais políticas “conciliatórias” encobrem).

No entanto, na trajetória de arquitetos como Kroll, Blundell Jones e Peter Hubner encontram-se ainda algumas possibilidades de transformação, pois reposicionam o conhecimento arquitetônico para além da autoridade única do arquiteto. Tais possibilidades são inerentes aos processos de produção (ou conceituação, a depender do caso) da arquitetura: este reposicionamento sugere de fato a necessidade de construção de um novo conhecimento arquitetônic — ou construtivo —  comum entre arquitetos e não-arquitetos (“somos todos arquitetos…“). Este conhecimento deveria ultrapassar a barreira da tecnocracia e, talvez, constituir-se em diálogo.

Lucien Kroll

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É curioso que o texto presente nas paredes do pavilhão onde ocorreu o citado seminário começasse com a expressão “urgência” (“As a matter of urgency, we must stop considering[…]”), ao se referir justamente aos protestos em Paris. Paulo Arantes, em seu artigo sobre os mesmos, diz o que segue:

[…] não surpreende que dois dias depois, encabeçando uma enorme manifestação unitária de protesto, se pudesse ler numa faixa de bom tamanho um enfático “Não ao regime de exceção”. Ficou bem entendido — pode-se presumir sem muito erro — que aquela proclamação solene do Estado de Urgência mal encobria não só a sua “rotinização”, mas vinha para desviar a atenção da real involução da sociedade salarial francesa e a correspondente implosão de seu modelo social, voltando-a para o perverso imperativo de criminalizar e punir os pobres e demais excedentes do sistema. […]

Isso não é tudo. Se a faixa contra o regime de exceção — que já sabemos ser a regra para a underclass pós-colonial, mas se estendendo como novo padrão de gestão para o conjunto dos cidadãos — faz todo o sentido do mundo, com o qual nem por isso é menos difícil atinar, outra faixa não menos enfática que a acompanhava era tudo, menos inequívoca — embora fosse rigorosamente a expressão de um novo senso comum de esquerda, tanto a esquerda de governo quanto a extraparlamentar, ou talvez por isso mesmo. A palavra de ordem de igual ou maior força era “Por um Estado de Urgência Social”. Só faltou uma versão abreviada da mesma ideia, e logo me explico: “Por um verdadeiro Estado de Urgência Social”. Como se vê, urgência em maiúsculo nos dois lados, ambos enredados no mesmo círculo vicioso — sendo que, por definição, não há futuro numa situação de urgência, salvo prevenir o pior, daí a perenização do precário e vice-versa — tanto o Estado, cada vez mais “preventivo” à medida que a cultura administrativa emergencial foi se tornando a norma de governo, quanto uma população gerida pelo princípio da insegurança e composta por categorias cada vez mais ansiosas. […]

Numa hipótese explicativa do imbróglio expresso pela justaposição das duas palavras de ordem, o colapso de hoje de fato tem a idade que lhe foi atribuída, desde que o tomemos como a retomada ou reabertura de uma crise maior e de outra magnitude — aparentemente remota, depois de uma “trégua” também conhecida como os trinta anos dourados do capitalismo (transcorridos com crescimento, pleno emprego, urbanização, Estado Social, etc., entre o imediato pós-guerra e os primeiros abalos da Pax Americana na segunda metade dos anos 1970 do século passado). […]

grifos meus

* Artigo publicado na Revista Margem Esquerda, nº 12, 2008, versão ampliada aqui

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