27 de março de 2020, quinto dia da quarentena
Bater panelas em janelas sempre nos pareceu uma forma um tanto quanto preguiçosa e patética — para não dizer mesmo coxinha — de protestar. Protesto de verdade, sempre achamos, acontecia na rua, junto com o povo, seja em mobilizações de massa, seja por meio de ação direta de grupos de ativistas.
O panelaço à brasileira, popularizado em 2015 em meio ao golpe contra Dilma Rousseff, soava não só elitista e constrangedor como também uma espécie de apropriação indevida dos “cacerolaços” argentinos de anos recentes — estes protagonizados de fato pelo povo nas ruas e não pela classe média acomodada. O panelaço, contudo (é claro) tem origem operária diretamente voltada às lutas populares e é registrado como forma de pressão, nas ruas, desde meados do século XIX.
Nestes tempos de isolamento, porém, em que protestos de rua seriam irresponsáveis, é preciso confessar: bater panelas nas janelas protestando contra os absurdos de Bolsonaro tem sido absolutamente catártico e reconfortante.
São tempos difíceis, todos sabemos. O presidente da República atenta contra a saúde pública todos os dias, seja com pronunciamentos estapafúrdios, seja com canetadas perversas. Estamos em casa e esperamos achatar a famosa curva. Enquanto não há muito mais o que fazer, olhamos para alguns dos objetos cotidianos ao nosso redor.