imagens da quarentena (29/3): telefone celular

29 de março de 2020, sétimo dia da quarentena

Não recordo mais a fonte, mas certa vez li em algum lugar a respeito da suposta estratégia de obsolescência programada da Apple, virtualmente distinta de praticamente todos os seus concorrentes: em vez de programar falhas de software ou hardware a se manifestarem num certo período de tempo após a compra de seus produtos, para assim forçar o proprietário a adquirir uma nova versão que, em princípio, não teria qualquer nova utilidade, a empresa preferiria promover alterações incrementais de design e (em certo sentido) de “styling” que tornariam os produtos anteriores antiquados, deslocados ou simplesmente fora de moda. Denúncias e notícias recentes de que a empresa de fato promove reduções intencionais de desempenho em seus aparelhos antigos à medida em que o sistema operacional é atualizado tendem a refutar o argumento em sua totalidade, mas é inegável que o marketing agressivo e irritante da empresa aposta naquela estratégia.

Apesar disso, talvez eu seja um dos (poucos?) consumidores que evitam a todo custo atualizar seus produtos a cada nova versão lançada (seja porque meus atuais aparelhos funcionam adequadamente, seja porque, afinal, meu parco salário não permitiria tal coisa). Mantenho já há quase cinco anos um velho iPhone 6s, lançado em 2015, sem qualquer intenção de trocá-lo por um novo no futuro próximo. A tela já foi trocada duas vezes em função de quedas, assim como os fones de ouvido que acompanharam o aparelho, utilizados intensamente até quase se desfazerem. Infelizmente, contudo, aplicativos básicos — como o do maldito Twitter — já apresentam os sinais da idade do aparelho. Justo durante uma quarentena…

Há quem troque de aparelhos todos os anos. Fico me perguntando se tais dispositivos (que acompanham as pessoas quase o tempo todo e sequestram em suas telas um tempo considerável da atividade de seus olhos) são relevantes a ponto delas associarem a eles memórias relevantes, tornando-os quase “objetos biográficos” — ou se, ao contrário, são tão cotidianos e genéricos que passam despercebidos.

Já falei aqui sobre a musealização de iPhones em função quase exclusivamente de seu papel nas narrativas hegemônicas sobre a história do design. Seria possível criar um museu de celulares em função de eventos memoráveis que eles exerceram na vida de milhares de pessoas anônimas?


São tempos difíceis, todos sabemos. O presidente da República atenta contra a saúde pública todos os dias, seja com pronunciamentos estapafúrdios, seja com canetadas perversas. Estamos em casa e esperamos achatar a famosa curva. Enquanto não há muito mais o que fazer, olhamos para alguns dos objetos cotidianos ao nosso redor.

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