a cidade e o “cansaço existencial”

originalmente publicado em http://notasurbanas.blogsome.com/2009/06/27/a-cidade-e-o-cansaco-existencial/

Em meados dos anos 90 Paulo Freire escreveu um livro cuja premissa era estabelecer um diálogo com as ideias e as repercussões de sua obra principal e mais estudada – Pedagogia do oprimido. Ou, em suas palavras, um “reencontro com a Pedagogia do oprimido“. Tal livro recebeu o sugestivo título Pedagogia da esperança. Trata-se de leitura bastante agradável – não se constitui de um livro acadêmico, pesado, sóbrio, mas de uma espécie de grande crônica entremeada por reflexões filosóficas, sociais, culturais e pedagógicas – além de emocionante e inspiradora.

A certa altura do livro, descrevendo encontros que Freire tinha com operários imigrantes, comenta o autor a respeito de uma certa “anestesia histórica” e de um “cansaço existencial”. Segundo ele:

Um outro problema sério que lideranças lúcidas e politicamente engajadas de trabalhadores imigrantes tinham de enfrentar nos anos 70 e sobre o que discutiam comigo à raiz da leitura que faziam da Pedagogia [do oprimido], era a desmotivação dos companheiros para o compromisso com a luta política em seus países de origem.

Eu mesmo participei de encontros na Suíça, na França, na Alemanha, com trabalhores imigrantes, em que escutei diversos discursos que falavam muito mais do anseio por uma vida menos difícil na experiência fora de seus países e no desejo de um dia a eles voltar em condições bastante melhores do que as em que um dia os haviam deixado. O que podia perceber na época, ora escutando-os nos referidos encontros, ora em conversas com as lideranças em que me falavam das dificuldades de mobilização e de organização política, é que grande parte dos trabalhadores que imigravam de seus países era tomada, ao chegar ao contexto de empréstimo, de um lado, por um sentimento de alívio e de alegria por ter trabalho ou por ter o que fazer, de outro, por uma sensação de medo. O medo de perder a ínfima segurança encontrada no contexto de empréstimo. Sua fragilidade era maior do que o teor mínimo necessário de aventura e de risco para aceitar um compromisso político, mesmo leve. O tempo vivido em seus países de origem, à espera de emprego, de segurança, lhes havia feito jogar toda a sua esperança no emprego no contexto de empréstimo e não nas mudanças estruturais de seu contexto. Deixava, assim, essa grande parte dos trabalhadores imigrantes o seu contexto de origem trazendo no corpo inteiro uma espécie de cansaço, que chamei, na época, “cansaço existencial”. Um cansaço que não era físico, mas espiritual, que deixava as pessoas por ele assumidas vazias de ânimo, de esperança e tomadas, sobretudo, do medo da aventura e do risco. É que a ele, o cansaço, se ajuntava o que nomeei “anestesia histórica”.

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança. São Paulo: Paz e Terra, 2008, 15ª edição, pp 123-124

Hoje somos todos exilados em nossas cidades: partilhamos todos deste mesmo cansaço que nos impõe que a história morreu.

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