hans ulrich obrist e a hipótese gaia

Todos os anos a publicação eletrônica Edge.org solicita a cientistas, pesquisadores e intelectuais que respondam a uma determinada pergunta sobre a relação entre ciência, sociedade e cultura. Em 2016 a pergunta escolhida foi “que conceito científico você acha que deveria ser mais amplamente conhecido?”

Pesquisadores ligados às ciências naturais ofereceram de respostas previsíveis e usuais a conceitos avançados e próximos de pesquisas contemporâneas: compareceram no rol de respostas desde a “segunda lei da termodinâmica” aos problemas de Fermi , passando por noções de “estatística e probabilidade”, a ideia de “matéria”, o “DNA”, entre outros.

Uma resposta em particular, contudo, destaca-se do conjunto: o curador estelar Hans Ulrich Obrist sugeriu a Hipótese de Gaia como o conceito científico que mais amplamente deveria ser conhecido pelo grande público. A peculiaridade desta resposta tem a ver com dois dados associados a ela: em primeiro, lugar, Obrist não é propriamente um representante “legítimo” do campo das ciências, mas um reconhecido frequentador dos mais privilegiados círculos globais do igualmente privilegiado mundo das artes e dos museus. Possivelmente o curador mais famoso do mundo, atualmente é diretor da Serpentine Gallery, sendo ainda autor de livros bastante lidos sobre museologia, curadoria e história da arte. Tudo isto parece torná-lo, em princípio, um peixe fora d’água na lista da Edge.org — ou, talvez, um autor de uma resposta que potencialmente seria tomada por “ingênua” ou “equivocada” pelos demais cientistas, o que apenas a torna ainda mais interessante.

Em segundo lugar (e isto também torna a resposta ainda mais interessante) a Hipótese Gaia é ela própria desacreditada por uma parcela significativa do mundo acadêmico — ela chega mesmo a ser considerada mera pseudociência por alguns pesquisadores. Contudo, trata-se de uma formulação razoavelmente bem conhecida em certos ambientes não científicos, particularmente em meios contraculturais ligados ao ambientalismo — o que eventualmente a torna mesmo objeto de crítica por ser considerada um “conceito da moda”, mal lido ou mal aplicado. Trata-se, afinal, da tese formulada por James Lovelock e aperfeiçoada por Lynn Margulis que toma a Terra em sua totalidade como uma espécie de organismo vivo integrado: uma rede complexa de organismos agindo de forma sinergética e se auto-regulando — proposição que, em última instância, falha quando submetida a critérios de reprodutibilidade, falseabilidade e refutabilidade próprios da prática científica.

Tal fato poderia contribuir a uma eventual associação da resposta de Obrist à sua distância do mundo das ciências duras. Porém, ainda que se trate de um sujeito oriundo do mundo das artes, o curador possui uma longa trajetória de envolvimento com a cultura científica, operando eventualmente com conceitos e procedimentos próprios da prática científica em suas exposições e colaborando em alguns projetos com o igualmente estelar filósofo Bruno Latour, intelectual aguerrido ao mesmo tempo crítico e entusiasta máximo da ciência moderna. Em 1999 seu trabalho na exposição Laboratorium ficou célebre por reunir práticas experimentais artísticas e científicas.

Articulado a tantas redes intelectuais e artísticas, portanto, seria desonesto chamar de “ingênua” a resposta de Obrist. Ao contrário, trata-se da afirmação de um posicionamento político cada vez mais comum hoje: o da necessidade de tomar a prática científica em uma perspectiva política e de reconhecer Gaia como uma relevante participante no jogo político contemporâneo (em última instância, um sujeito).

Ainda que de fato exista certo modismo no recurso à Gaia, a maneira como ela é mobilizada como uma entidade com a qual é preciso negociar em termos políticos — sobretudo a partir das formulações de Isabelle Stengers — me parece não só relevante como desafiadora. Não se trata de entender a natureza ou o planeta (em toda sua abstração) como um sujeito de direitos, dotado de uma consciência ou agência próprias, mas de reconhecer o peso político que esta entidade criada por múltiplos outros agentes políticos possui. Esta possibilidade, aliás, parece um caminho interessante para ultrapassar mesmo a cisão entre ciências e política, ou entre a técnica e a sociedade. Ao invés de recorrer a argumentos tecnocráticos para combater ações que contribuam para um cenário de mudanças climáticas, trata-se de reconhecer a própria entidade fictícia que é a natureza (porque, afinal, criada pelas próprias ciências que vêm com razão denunciando sua destruição) como um ator político válido. Neste sentido, apontar a hipótese Gaia como o conceito científico mais relevante em 2016 para a população em geral — em tudo o que ela possui de “pseudocientífico” ou “ficcional” — parece, afinal, uma provocação não só válida como oportuna e urgente.

gaia e obrist

Segue uma tradução livre da resposta de Obrist:

De acordo com a Hipótese de Gaia de James Lovelock, o planeta Terra é um ser vivo auto-regulado. Nesta cativante teoria, o planeta, em todas as suas partes, permanece em condições adequadas à vida graças ao comportamento e à ação de organismos vivos.

Lovelock é um cientista independente, ambientalista, inventor, autor e pesquisador cujo interesse precoce em ficção científica o levou à ideia de Olaf Stapledon de que a Terra possui ela própria uma consciência. De O que é a vida, de Erwin Schrödinger, ele extraiu a teoria da “ordem a partir da desordem”, baseada na segunda lei da termodinâmica, de acordo com a qual a “entropia apenas aumenta em um sistema fechado (como o universo)” e portanto a “matéria viva evita o declínio para o equilíbrio termodinâmico mantendo homeostaticamente entropia negativa em um sistema aberto.”

Como um pesquisador na Nasa, ele trabalhou no desenvolvimento de instrumentos para a análise de atmosferas extraterrestres. Isto o levou ao interesse em potenciais formas de vida em Marte. Ele chegou à ideia de que para estabelecer se haveria ou não vida em Marte, bastaria medir a composição dos gases presentes na atmosfera.

Quando visitei Lovelock no ano passado em sua casa em Chesil Beach, ele me contou que fora em setembro de 1965 que ele teve seu momento de epifania. Ele estava no Laboratório de Propulsão à Jato com o astrônomo Carl Sagan e com a filósofa Diane Hitchcock, que havia sido empregada pela Nasa para verificar a consistência lógica dos experimentos ali conduzidos. Um outro astrônomo entrou no escritório com os resultados de uma análise da atmosfera em Vênus e Marte. Em ambos os casos, ela era composto quase exclusivamente de dióxido de carbono, enquanto a atmosfera da Terra também contém oxigênio e metano. Lovelock perguntou a si mesmo por que a atmosfera da Terra era tão diferente daquela nos seus dois planetas irmãos. De onde tais gases viriam?

Considerando que o oxigênio vem dos vegetais e o metano das bactérias — ambos seres vivos — ele repentinamente entendeu que a Terra deveria estar regulando sua atmosfera. Quando Lovelock começou a falar sobre sua teoria com Sagan, a primeira resposta do astrônomo foi: “Veja bem, Jim, não faz sentido pensar que a Terra pode regular a si mesma. Objetos astronômicos não fazem isto.” Mas então Sagan disse: “Espere um minuto, há algo que vem quebrando a nossa cabeça de astrônomos, o problema do Sol frio: no nascimento da Terra, o Sol era 30% mais frio do que ele é hoje, então como não estamos todos assando?”

Isto levou Lovelock à conclusão de que “Se a vida animal e vegetal regula o CO2, eles podem controlar a temperatura.” E foi aí que Gaia entrou no recinto. À época criticada como uma ideia New Age, a primeira grande cientista a levar a sério a ideia de Lovelock foi a pragmática bióloga e teórica evolucionária Lynn Margulis. Como Lovelock tinha treinamento médico, em bacteriologia, ele tendia a pensar nas bactérias como patógenos. Ele nunca havia pensado previamente nelas como uma grande infraestrutura que mantém a Terra viva. Como ele me contara: “Foi Lynn a responsável por isto.” Margulis entendia que, ao contrário de tantas outras  interpretações, a hipótese de Gaia não era uma visão da Terra como um organismo único mas como uma selva de entidades intercaladas e sobrepostas umas às outras, cada uma construindo seu próprio ambiente.

Lovelock vem tentando persuadir os humanos de que eles são inconscientemente não mais do que a doença de Gaia. O desafio agora não é proteger humanos contra micróbios, mas proteger Gaia desses minúsculos micróbios chamados humanos. “Assim como as bactérias tocaram a Terra por 2 bilhões de anos e tocaram muito bem, mantendo-a estável,” dizia ele, “somos nós que agora estamos tocando a Terra. Estamos tropeçando um pouco, mas o futuro da Terra depende de nós tanto quanto ele depende das bactérias.”

Imagem: Wikimedia Commons.

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