André Gorz. Carta a D. História de um amor.

Carta aos acadêmicos para 2017

Você acabou de fazer oitenta e dois anos. Continua bela, graciosa e desejável. Faz cinquenta e oito anos que vivemos juntos, e eu amo você mais do que nunca. Recentemente, eu me apaixonei por você mais uma vez, e sinto em mim, de novo, um vazio devorador, que só o seu corpo estreitado contra o meu pode preencher. À noite eu vejo, às vezes, a silhueta de um homem que, numa estrada vazia e numa paisagem deserta, anda atrás de um carro fúnebre. Eu sou esse homem. É você que esse carro leva. Não quero assistir à sua cremação; nem quero receber a urna com as suas cinzas. Ouço a voz de Kathleen Ferrier cantando: “Die Welt ist leer, Ich will nicht leben mehr.” [“O mundo está vazio, não quero mais viver.”], e desperto. Eu vigio a sua respiração, minha mão toca em você. Nós desejaríamos não sobreviver um à morte do outro. Dissemo-nos sempre, por impossível que seja, que se tivéssemos uma segunda vida, iríamos querer passá-la juntos.

André Gorz. Carta a D. História de um amor. São Paulo: Annablume/Cosac e Naify, 2008, pp. 70–71. Trad. Celso Azzan Jr.

Há alguns anos, por sugestão de meu orientador, li Carta a D., um dos mais belos textos de amor já escritos nas últimas décadas. No trágico livro, o conhecido sociólogo francês André Gorz se desamarra da escrita burocrática e pesada própria da academia e nos apresenta uma bela, sincera, visceral e trágica declaração de amor a sua esposa, Dorine.

É difícil falar muito sobre o texto, tal a aflição de sua leitura: manifestação final de Gorz para Dorine, trata-se da última obra do autor antes do suicídio do casal, em 2007. Vítima de uma doença grave, Dorine estava em condição terminal: ambos, porém, já haviam expressado o desejo de não sobreviver um à morte do outro. André e Dorine morreram em 24 de setembro de 2007.

O livro percorre a trajetória de cinquenta anos de vida do casal: ao mesmo tempo graciosa e desesperadora, a carta relembra as dificuldades do início — desde as peculiaridades do jovem casal de esquerda que não se dava bem com a ideia burguesa de casamento aos obstáculos econômicos de jovens intelectuais sem emprego —, a chegada da maturidade e a descoberta da doença — que revolucionou o cotidiano da dupla, cada vez mais próxima de ideais próprios da ecologia política e de um certo ecossocialismo/ecoanarquismo. Amplamente reconhecido como o filósofo das novas relações de trabalho do capitalismo tardio, Gorz com o tempo deu “adeus ao proletariado” e revelou-se uma espécie de ativista verde — sua trajetória intelectual, porém, se explicita insignificante não fosse a profunda relação (intelectual, afetiva, amorosa) com Dorine.

Você não tinha mais nada a esperar da medicina. Recusava-se a se acostumar com os analgésicos e a depender deles. Decidiu então assumir controle do seu corpo, da sua doença, da sua saúde; tomar o poder sobre sua vida em vez de deixar a tecnociência médica tomar o poder sobre sua relação com o seu corpo e consigo mesma. Você entrou em contato com uma rede internacional de doentes que se ajudam mutuamente trocando informações e conselhos depois de terem batido de frente, assim como você, com a ignorância e às vezes a má-vontade da classe médica. Você se iniciou na ioga. Tomava posse de si administrando suas dores por meio de antigas técnicas de autodisciplina. A capacidade de compreender o seu mal e tratá-lo lhe parecia o único meio de não ser dominada por ele e pelos especialistas que a transformariam em consumidora passiva de medicamentos.

A sua doença nos levava ao campo da ecologia e da tecnocrítica. Meus pensamentos não a abandonavam quando preparei, para a revista, um dossiê sobre medicinas alternativas. A tecnomedicina me parecia uma forma particularmente agressiva daquilo que Foucault chamaria mais tarde de biopoder — o poder que os dispositivos técnicos assumem até sobre a relação íntima de cada um consigo mesmo.

pp. 63–64

André Gorz e Dorine. Fonte: https://andymerrifield.org/2015/06/27/vernacular-values-remembering-ivan-illich/
Dorine e André. Fonte: https://andymerrifield.org/2015/06/27/vernacular-values-remembering-ivan-illich/

A carta é também um pedido de desculpas a Dorine, que teria sido mal representada em toda a obra anterior de Gorz e que o teria alertado para os riscos de ignorar a potência do subjetivo em meio a grandes estruturas sociais.

E, nesse sentido, talvez ela seja uma bela contribuição (ou mesmo um alerta) a jovens acadêmicos. Temo tecer quaisquer outras palavras sobre o livro pois não faria justiça à sua densidade — muito já foi escrito sobre ele e recomendo particularmente a resenha de Fernanda Azeredo de Moraes na Revista Estudos Feministas — , mas destaco a seguinte passagem:

Você percebia realidades que me escapavam porque não correspondiam à matriz que eu usava para ler o real. […]

Durante muito tempo, você se deixou intimidar pelo meu lado peremptório; suspeitou que ali estava a expressão de conhecimentos teóricos que você não dominava. Pouco a pouco você se recusou a se deixar influenciar. Melhor: se rebelou contra as construções teóricas, particularmente contra as estatísticas. Elas são tão menos comprobatórias quanto mais seu sentido advenha apenas de sua interpretação, dizia-me você. Ora, esta última não pode ter pretensões de rigor matemático, ao qual a estatística deve sua autoridade. Eu necessitava de teoria para estruturar meu pensamento, e argumentava com você que um pensamento não estruturado sempre ameaça naufragar no empirismo e na insignificância. Você respondia que a teoria sempre ameaça se tornar um constrangimento que nos impede de perceber a complexidade movediça da realidade. Tivemos essa discussão dezenas de vezes e sabíamos de antemão o que o outro iria responder. No final das contas, elas eram uma espécie de jogo, mas nesse jogo você sempre ganhava. Você não precisava das ciências cognitivas para saber que, sem intuições ou afetos, não há inteligência nem sentido. Imperturbáveis, as suas opiniões reivindicavam o fundamento da sua certeza vivida, comunicável, mas não demonstrável. A autoridade — vamos chamar de ética — dessas opinões não necessita do debate para se impor, enquanto a autoridade do julgamento teórico desmorona se não consegue convencer pelo debate. O meu “por que você sempre tem que ter razão?!” não tinha outro sentido. Acho que eu precisava mais do seu julgamento do que você do meu.

pp. 40–42

Que tenhamos um 2017 menos turbulento, mais repleto de afetos e intuições.

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Publicado por

gabriel fernandes

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