estragando o museu da casa brasileira

Já comentei por aqui que gosto bastante de museus de design. Como comentei aqui, trata-se de uma tipologia de museu bastante parecida com museus históricos — na medida em que ambos mobilizam em seus processos curatoriais a cultura material cotidiana de diferentes períodos, como peças de mobília, instrumentos de trabalho, objetos de lazer, etc — mas com a particularidade daqueles de se inserirem nas narrativas, discursos e disputas ligados especificamente ao mundo do design, a seus personagens e eventos.

Já tive a oportunidade de visitar alguns desses museus em diferentes países, como o Mude, em Lisboa; o Cooper-Hewitt (museu ligado ao famosíssimo Instituto Smithsoniano), em Nova Iorque; o Museu das Coisas, em Berlim e o Museu de Design de Barcelona, entre outros que se dedicam em maior ou menor grau a este universo (como o Museu de Artes Decorativas de Paris ou o Museu de Artes e Design de Nova Iorque). São espaços privilegiados para pensar como nos apropriamos de objetos do cotidiano, sobre as formas de morar, de trabalhar, de viver.

museu da casa brasileira: nosso museu de design

Tínhamos na cidade de São Paulo uma dessas instituições — o Museu da Casa Brasileira (MCB), órgão ligado à Secretaria Estadual de Cultura que durante anos ficou sediado no Solar Fábio Prado, na Avenida Faria Lima. Apesar das limitações de orçamento e de estrutura, tratava-se de museu com exposições e ações curatoriais que em muitos casos rivalizavam ou até superavam aquelas de seus equivalentes do norte global.

Marcas desenhadas por Alexandre Wollner expostas no Museu da Casa Brasileira nos jardins de sua sede na Avenida Faria Lima (2019)

O museu já produziu ou recebeu exposições memoráveis (especialmente aquelas com curadoria de Giancarlo Latorraca), cujos catálogos se tornaram material bibliográfico muitas vezes único sobre os temas que abordam. Destaco, em particular, Maneiras de expor (2014), mostra que reproduziu ambientes cenográficos e expográficos desenhados por Lina Bo Bardi; A mudança é a única constante no universo (2019), exposição retrospectiva única sobre a obra de Bruno Munari; Lelé: fábrica e invenção (2010), provável primeira grande retrospectiva do trabalho do arquiteto João Filgueiras Lima; assim como uma das próprias exposições de longa duração do Museu, dedicada ao design vernacular e a produtos do cotidiano presentes — como quer o próprio título da instituição — nas casa brasileiras.

Alguns anos atrás, porém, fomos surpreendidos com a saída forçada e mal explicada do MCB daquela que foi sua sede durante vários anos. Nesta segunda-feira, mais uma vez, fomos novamente surpreendidos com a notícia (novamente sem maiores explicações) de que o governo do estado pretende agora levar este museu sem sede para a Residência Olivo Gomes, célebre projeto de Rino Levi e Burle Marx localizada em São José dos Campos.

política cultural de migalhas

Por um lado, parece uma boa notícia — trata-se, afinal, da ocupação de um imóvel célebre da história da arquitetura tombado em nível estadual até então sem qualquer melhor tratamento ou qualificação. Olhando com maior cuidado, percebe-se não só o quanto é problemática esta mudança quanto o quão sintomática ela é de uma total ausência de política cultural para este campo.

O que segue é baseado exclusivamente naquilo que foi noticiado na imprensa: o governo do estado obviamente tem o benefício da dúvida a respeito de algo ainda não totalmente esclarecido na esfera pública. Tudo indica, contudo, que os sinais de miséria da política cultural estadual que estamos testemunhando não estejam longe da verdade.

  1. Um museu sem equipe. Um dos dados mais assustadores que a notícia da mudança aponta é o de que o Museu da Casa Brasileira hoje simplesmente não possui equipe técnica. Em outras palavras, o mais importante museu de arquitetura e design do país não tem um corpo perene de funcionários qualificados para lidar com o acervo, com sua inventariação, conservação e comunicação. As notícias indicam que foi necessário mobilizar parte do corpo técnico da Pinacoteca do Estado — museu de arte que não necessariamente está acostumado a lidar com acervos de design — para viabilizar a mudança, indicando gambiarra institucional das mais graves. Um museu como o MCB precisa de funcionários públicos estáveis com garantia de condições adequadas de trabalho, bem como uma sede devidamente pensada para seu acervo.
  2. Um museu sem sede adequada. Para onde vai a reserva técnica? A Residência Olivo Gomes tem condições ambientais e infraestrutura adequada para receber laboratórios de conservação? Espaços para curadoria? Ambientes para ação educativa? Por mais gigantesca que ela seja, tudo indica que ela seja insuficiente para receber programa tão complexo — sobretudo levando em conta o caráter bastante heterogêneo de um acervo de design.
  3. Um museu em meio a uma política cultural patrimonialista. Um dos pontos mais assustadores da notícia é a suposta justificativa dada pela Secretaria de Cultura para a transferência do museu para uma cidade do interior do estado: isto seria alegadamente uma forma de democratizar e descentralizar a ação cultural pública, desconcentrando equipamentos localizados na capital. Isto é uma falácia absurda: dotar o interior de mais equipamentos e ações culturais é urgente e mais do que necessário, mas não se faz isso retirando equipamentos da capital — cidade que, é bom recordar, está inserida numa região metropolitana que agrega quase metade da população do estado. O mais grave é a naturalidade com que se alega que tal transferência se dá em função da antipatia do governador do estado (bolsonarista da pior estirpe) pela população da capital, visto que é no interior que ele tem mais votos.
  4. Um museu de design ou um museu-casa? Finalmente, a instalação do MCB na residência Olivo Gomes fatalmente levará a questionamentos a respeito da curadoria daquele próprio imóvel tombado e de sua eventual caracterização como potencial museu-casa. Isto não é um problema insolúvel, mas a velocidade com que se deu a mudança e a ausência de equipe técnica fatalmente apontam para que este problema esteja simplesmente sendo ignorado.

É uma boa notícia que o MCB finalmente tenha encontrado uma nova sede. A maneira como se deu a mudança, porém, aponta para a condição miserável com que as políticas culturais são tratadas pelo atual governo bolsonarista.


PS: pra piorar, ao mesmo tempo em que foi noticiada a mudança do MCB para São José dos Campos, registrou-se também que há um desejo dentro da Secretaria de Cultura de desenterrar o infame projeto de Herzog e de Meuron para o Teatro de Dança que havia sido proposto ainda na gestão de José Serra para a região da Luz no Centro de São Paulo. À época os movimentos sociais da região denunciaram o caráter excludente do projeto e a maneira como ele contribuía para a expulsão da população de baixa renda da bairro. À época, Jacques Herzog foi publicamente contestado quando esteve em São Paulo para a apresentação do projeto. Mais de quinze anos depois alguém na Secretaria desengaveta o projeto (pelo qual os cidadãos paulistas pagaram cerca de quarenta milhões de reais) e tem a brilhante ideia de reimplantá-lo — mas desta vez em Campinas, mais uma vez para agradar o eleitor conservador do bolsonarista de ocasião. Não é a primeira vez que um projeto de grife muda de lugar para aproveitar a assinatura de um arquiteto estelar — o mesmo aconteceu com a Praça dos Museus da USP — mas não de forma tão radical quando mudar de uma cidade para outra. Mais uma vez: é a política cultural de migalhas.

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