as bases ideológicas do latuffismo

Um espectro assombra as redes sociais: o espectro da literalidade. É com enorme assombro e desconforto que testemunhamos com cada vez mais intensidade e de forma cada vez mais persistente o avanço de uma cultura de apreciação e de produção de obras de ficção nas quais não há espaço para qualquer sutileza, mistério, ambiguidade ou lacuna — tudo não só deve ser explicitamente apresentado de modo a não permanecer qualquer brecha para dúvida como também toda e qualquer expressão narrativa deve ser também moralmente inequívoca e correta.

Tudo — absolutamente tudo — não só precisa afastar qualquer possibilidade mínima de ambiguidade interpretativa como precisa também ser declaradamente correta de um ponto de vista moral e político. O espectro da literalidade surge numa era de corações e mentes de sensibilidades limitadas — sensibilidades moldadas em torno de fórmulas narrativas restritas, arranjos estéticos conservadores e escolhas de linguagem seguras, estáveis e nada desafiadoras ou sofisticadas. Mantras e chavões estúpidos como “jornada do herói”, “estrutura em três atos” e “representatividade” são repetidos à exaustão.

Estivesse viva, Susan Sontag talvez se visse impelida a escrever uma continuação a seu clássico ensaio “Contra a interpretação”, mas desta vez intitulado “Bom mesmo era quando havia pelo menos alguma brecha pra ser intepretada” — afinal há muito pouco hoje sobre o qual conversar em torno de uma peça de ficção no cinema ou na literatura mainstream para além da identificação de easter eggs, referências de construção de mundo ou de elementos daquilo que se habitou a se chamar de “lore”

latuffismo cultural

Essa mistura de conservadorismo estético, moralismo político e aversão à dúvida constitui um movimento muito peculiar de nossos tempos que alguns de nós apelidamos de latuffismo cultural — em evidente homenagem a um de seus mais célebres expoentes, o cartunista Carlos Latuff, notório por suas charges repletas de setinhas indicativas de mocinhos e vilões estrategicamente posicionadas para que ninguém tenha dúvida de quem deve ser celebrado e quem deve ser combatido. Latuff talvez sequer tenha sido o inventor do latuffismo, mas certamente foi um de seus mais profundos expoentes, a ponto de dar nome a todo o movimento.

A expressão, no entanto, não é unânime: outra forma de nomear o movimento é pelo uso da palavra “nolanismo”, desta vez em homenagem àquele que melhor o representa no cinema hollywoodiano: o cineasta Christopher Nolan — adequadamente apelidado de miliciano pelo sábio Chico Barney —, notório pelos diálogos excessivamente expositivos e pelas narrativas exageradamente didáticas. Nolan foi capaz, por exemplo, de produzir um filme sobre SONHOS em que não havia brecha para o devaneio, o desvio, a dúvida, a aleatoriedade, o absurdo: tudo devia se submeter às regras rígidas criadas para aquele mundo.

O podcast Viracasacas em edição recente discutiu os problemas do que se chamou de “woke 1.0” e destacou o latuffismo como um deles. Talvez caiba aqui destrinchar especificamente este fenômeno também.

moralismo

O desejo de correção total, de literalidade plena, de ausência completa de ambiguidade está bastante alinhado a uma postura bastante moralista perante o mundo. O latuffismo lembra fortemente, aliás, o que de pior se produziu sob a alcunha de “realismo socialista” — uma doutrina estética soviética absolutamente dogmática e centralizada, em nada muito diferente das estéticas oficiais de regimes nazi-fascistas.

Por trás desta convergência de moralismo, correção política e literalidade encontra-se, aliás, a percepção de que obras de arte devam ser de “fácil entendimento” para as massas — compostas, é claro, exclusivamente de indivíduos presumivelmente burros e insensíveis. O público das obras do latuffismo cultural é composto sempre por Donas Marias hipotéticas, supostamente dotadas de capacidade cognitiva limitada e raso repertório cultural.

ética neoliberal

Associado a todo esse moralismo e a esse desejo de correção política se soma também a premissa de que absolutamente todos os elementos inseridos em estruturas narrativas ou em manifestações estéticas precisem necessariamente cumprir com uma função para o avanço da trama — ou o que quer que isso signifique.

Daí a já anedótica aversão nas redes sociais, por exemplo, a cenas de sexo que supostamente não têm serventia narrativa — cenas supostamente “gratuitas”. Tudo precisa ser produtivo. Tudo precisa cumprir uma função. Puritanismo, produtivismo, funcionalismo: ética neoliberal em sua expressão mais sincera. Não há tempo a perder.

ditadura da palavra

A literalidade do latuffismo é, em última instância, também uma das expressões mais perversas da ditadura da palavra sobre a imagem que é característica de nosso mundo — mundo que é também profundamente iconofóbico apesar da enxurrada sufocante de imagens que caracteriza nossas vidas. A ambiguidade e a simultaneidade que são próprias do universo das imagens não coadunam com a necessidade de entendimentos diretos, unívocos e sequenciais próprios do latuffismo. Toda imagem no latuffismo deve ser acompanhada de uma explicação textual: não há qualquer possibilidade de autonomia da imagem, ela sempre se submete a um conceito sem nuances expresso por meio de palavras.

É por isto que o latuffismo se alinha tão facilmente a um mundo de blockbusters, franquias de super-heróis e à cultura pop. Nos filmes, livros, quadrinhos e outras expressões culturais  destes universos pouco espaço há para a elaboração formal, para o exercício da linguagem ou para a fruição daquilo que Susan Sontag associava a uma “erótica da arte” — tudo nestas obras se resume à “história” sendo contada. 

puritanos, conservadores, neoliberais e paternalistas

O latuffismo é, portanto, a expressão ideológica de uma geração puritana, conservadora, produtivista e condescendente — mesmo que supostamente de esquerda. Por meio dela legitima-se um mundo em que não se alveja mais a indústria cultural como um inimigo a ser vencido, mas como uma instância a ser conquistada e corrigida: exige-se dela mais representatividade, justiça social e pluralidade.

O latuffismo é a trava que nos impede de exercer uma das capacidades mais elementares da humanidade: a de imaginar — e, com isto, de sonhar outros mundos possíveis.

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