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na apple é proibido colar post-its na parede

No início deste ano empregados da Apple trabalhando no recém inaugurado Apple Park acionaram os serviços públicos de emergência em razão de acidentes de trabalho decorrentes das puras, limpas e aparentemente inofensivas cortinas de vidro espalhadas pelo edifício desenhado pelo escritório Foster & Partners para ser a nova sede global da empresa — ou, ao que tudo indica, desenhado por Jonathan Ive e apenas assinado por Norman Foster, já que a aura em torno da autoria dos produtos da Apple mesmo neste caso permanece em torno da figura já canonizada do diretor de design da companhia. Como aparentemente é comum em outros projetos da Apple que miram em uma pureza quase abstrata para seus produtos, descolada da realidade cotidiana, também a sua nova sede parece ser suscetível a acidentes bastante prosaicos e, inegavelmente, um tanto quanto patéticos. Tão patéticos que os veículos de imprensa não se cansam de lembrar que se trata de um edifício estimado em 5 bilhões de dólares no qual regras básicas de prevenção de acidentes são ignoradas.

Por meio de legislação de acesso à informação o San Francisco Chronicle pode consultar e divulgar registros dos telefonemas ao serviço de emergência. O jornal inclusive repercutiu o fato de que as autoridades públicas já haviam advertido a Apple dos riscos decorrentes da existência de panos de vidro não devidamente sinalizados. Segundo os registros de algumas ligações ocorridas ao longo de alguns dias, foram relatados primeiro um acidente que levou a grave sangramento na cabeça de um funcionário e mais tarde outro no qual o pessoal da Apple sequer conseguia assegurar que o paciente encontrava-se consciente.

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Shinya Suzuki, Apple Park, 2018, CC-By-ND

Em função de cada vez mais corriqueiros acidentes de trabalho, muitos dos funcionários que desde a segunda metade do ano passado tiveram seus postos de trabalho transferidos — em muitos casos a contragosto — para a nova sede começaram a colar adesivos coloridos tipo “post it” nos panos de vidro para advertir os demais dos perigos daquelas perigosas e (agora) potencialmente assassinas paredes invisíveis. A resposta oficial da empresa foi de que tal atitude contrariava os padrões de de qualidade de design e identidade visual tão prezados pela companhia e todos os inofensivos post-its passaram a ser recolhidos.

De fato, o caso das paredes invisíveis parece ser só mais um a se somar às muitas reclamações que os funcionários vêm manifestando a respeito do novo local de trabalho — em geral reservadamente, mas às vezes de forma pública e bem explícita. Teriam existido até mesmo ameaças de demissão por parte de alguns. Em 2017, quando questionado a respeito das críticas ao edifício resumidas por comentaristas externos, Johnny Ive teria dito que “nós não fizemos o Apple Park para as pessoas. Então muitas das críticas são completamente bizarras, porque ele não foi feito para você! E eu sei como nós trabalhamos, você não sabe!”

Talvez ele imagine saber como as equipes deveriam trabalhar (apesar do descontentamento dos funcionários), mas parece não saber como as pessoas se comportam quando precisam passar de um ambiente a outro atravessando uma parede ou porta.

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Michael Estigoy, Apple Park, 2017, CC-By-NC

iPentágono

Muito já foi dito sobre o edifício — a revista Wired, que publicou a primeira resenha crítica sobre a obra, não só declarara que o prédio “é uma droga”, como o considerou um “anacronismo embalado em vidro”. O título da matéria, publicada em agosto de 2017, é significativo: “Se você se importa com cidades, o novo campus da Apple é uma droga.” De fato, a matéria atenta para a total ausência de qualquer originalidade no complexo: pelo pouco que pudemos ver dele, parece ser de fato nada mais que o velho e conhecido edifício suburbano, descolado de qualquer contexto urbano mais amplo, configurado segundo a velha utopia moderna do espaço de trabalho tipo “open plan”.

Seria pretensioso fazer qualquer análise do edifício a partir apenas do material de segunda mão que temos disponíveis via reportagens da imprensa especializada. No entanto, é impossível olhar para aquela (mega)estrutura e não pensar nela simplesmente como o velho edifício corporativo moderno que ele é, por mais insistente que seja o discurso de inovação cultivado ao redor dele. A imagem do edifício projeta a velha utopia de eficiência, economia, serenidade e harmonia que sempre se associou aos seus similares — só que desta vez com o afinco quase autoritário da Apple de apresentar um design preciso, sem falhas, sem costuras, limpo e reduzido àquilo que se pensa ser seu essencial. Tudo no edifício parece ter sido desenhado especificamente para o local, das maçanetas às placas fotovoltaicas, das mesas e cadeiras às grandiosas portas de vidro: tudo parece reeditar a velha utopia do projeto total, expressa na conhecida máxima que reza que o arquiteto/designer deveria desenhar “da colher à cidade”. Até mesmo as caixas de pizza da lanchonete são produzidas segundo um desenho patenteado pela Apple.

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Caixa de pizza patenteada pela Apple. Fonte: Dan Winters, https://www.theverge.com/2017/5/16/15646154/apple-pizza-box-patent-come-on

A imponência pretensiosa do edifício, apesar de clean e pura, reiterada especialmente pelas suas dimensões colossais e pelo recurso a uma forma geométrica elemento, também já rendeu inevitáveis comparações a outros edifícios onde igualmente se prevê a existência de igual ordem de controle, eficiência e autoridade: não são poucas as comparações com o edifício do Pentágono, sede do Departamento de Defesa estadunidense — como demonstra mesmo a página da Wikipédia sobre o edifício.

O que mais chama a atenção é a facilidade com que velhas críticas à arquitetura moderna podem ser aplicadas ao projeto de Ive + Foster: o edifício parece mesmo um grande panóptico, onde o (auto)controle e a (auto)vigilância são totais — não há, com excessão das salas dos diretores, espaço de trabalho que não seja suscetível aos olhares curiosos de quem quer que passe pelos arredores através dos sempre presentes panos de vidro patenteados pela Apple. O caso dos post-its proibidos é simplesmente a expressão mais paupável dessa já conhecida relação autoritária entre a arquitetura e aqueles que a vivem — relação esta já tão criticada e agora reinventada em 2017, mas desta vez com o selo “Designed by Apple in California.”

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Fragmentos de diagramas e imagens publicadas na edição da revista CLOG dedicada à Apple. À esquerda: Axel Kilian, Monumental Simplicity, CLOG Apple, fevereiro de 2012, p. 94. À direita: CLOG Apple, fevereiro de 2012, p. 93.
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