imagens da quarentena (21/4): aniversário de brasília

21 de abril de 2020, trigésimo dia da quarentena

E de repente — em meio aos nossos esforços de isolamento físico e ao fato de que a capital federal fora tomada por energúmenos e milicianos — lembramos que Brasília, nesta terça-feira, completa 60 anos.

Soube também que a data de 21 de abril, além de ser feriado dedicado ao mito de Tiradentes, é também o dia da polícia e o dia de nascimento de Max Weber. Não pode ser coincidência: Brasília, afinal, é a apoteose da burocracia e da repressão, não é mesmo?

Entre todos aqueles lindos monumentos da cidade, um dos que mais gosto é o quase esquecido edifício-monumento do Museu Histórico de Brasília. Localizado num ponto privilegiado da Praça dos Três Poderes, é um de muitos outros artefatos ofuscados pelos protagonistas daquele espaço — o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal e o edifício do Congresso Nacional (que, na prática, dá as costas para a praça, o que certamente diz muito sobre nossa democracia). Trata-se de um edifício ofuscado e apequenado pelos demais, aliás, apesar de seus muitos atributos excepcionais e monumentais: caracterizado por grandes vigas com tamanho de um pé-direito — entre as quais o espaço expositivo se estabelece — apoiadas em um único ponto de apoio, o edifício exibe balanços ousados em um volume prismático e opaco que, de algum modo, me faz lembrar de certa arquitetura monumental mais ou menos reminiscente de algum realismo socialista, sem no entanto, aspectos do ecletismo. Aquele busto de Juscelino que surge de uma das empenas exteriores só reforça essa sensação.

Esse edifício me parece bastante significativo para pensar no Brasil que inventamos ao longo do século XX: tem pretensão monumental, ainda que em seu contexto seja bastante modesto. Adentra-se nele por meio de um portinha algo patética, após a qual atravessa-se uma escadaria de escala quase privada, residencial, doméstica. Em seu interior, a pompa de um cenário construído em um mármore que esconde a brutalidade do concreto e adornado por letras serifadas descrevendo uma ficção construída com sangue de calangos fincada no meio do nada e sem qualquer perspectiva.


São tempos difíceis, todos sabemos. O presidente da República atenta contra a saúde pública todos os dias, seja com pronunciamentos estapafúrdios, seja com canetadas perversas. Estamos em casa e esperamos achatar a famosa curva. Enquanto não há muito mais o que fazer, olhamos para alguns dos objetos cotidianos ao nosso redor.

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