é preciso reconhecer a potência criativa de romero britto

O mundo da arte insiste em não entender plenamente a capacidade criativa e estética de Romero Britto.

Insiste em menosprezá-lo, ignorando uma das mais potentes expressões artísticas contemporâneas: normalmente o artista-pernambucano-radicado-em-Miami é reduzido a um mero “ilustrador” que mobiliza formas infantis e pretensamente naïf ou a um designer cujo mau gosto colabora em produzir mercadorias bastante adequadas aos devaneios e desejos estéticos da classe média, vendendo falsa sofisticação a preços praticáveis, ainda que elevados.

Não que nada disso esteja errado ou equivocado, mas para além desse preconceito de superfície há uma profundidade estética que críticos, teóricos e historiadores da arte simplesmente ignoram.

Romero Britto é, antes de tudo, um excelente performer.

Britto eleva até a última potência propostas célebres de meados do século 20 como a famosa Merda de artista de Piero Manzoni ou o porco empalhado enviado por Nelson Lerner ao 4º Salão de Arte Moderna de Brasília.

A performance de Britto não se limita por qualquer constrangimento ou vergonha decorrente do mau gosto inerente às formas que mobiliza. Ao contrário, reconhece e celebra o mau gosto na forma de mercadoria.

Sua grande obra de arte não são as muitas peças coloridas de decoração que mais lembram uma versão surreal de algum pesadelo mondriânico: a grande obra de Britto é sua própria galeria. É aí que reside sua genialidade: são milhares de pessoas comprando e vendendo porcarias cafonas e kitsch a preço de ouro.

Tal operação torna Britto ainda mais relevante para a arte contemporânea que os habituais Jeff Koons e Damien Hirst. Estes ainda procuram se inserir em enquadramentos discursivos que permitem recuperar o velho vocabulário dos ready mades e da crítica ao mundo institucional da arte. Britto, ao contrário, não está nem aí pra isso.

É incompreensível que sua galeria ainda não faça parte do rol de obras essenciais da arte contemporânea. Aliás, espero sinceramente ver numa próxima Bienal um diorama funcional de sua galeria em escala 1:1 — com direito, é claro, à compra e venda de suas porcarias coloridas nos preços originais.

Finalmente, toda essa potência criativa só faz tornar ainda mais interessante o caso de uma de suas peças que foi jogada ao chão em vídeo viralizado nos últimos dias. Trata-se, certamente, da melhor interpretação contemporânea da célebre performance de Ai Weiwei na qual o artista chinês derruba e estraçalha uma suposta cerâmica chinesa da dinastia Han. Parafraseando a obra de Ai Weiwei, intitulada “Derrubando uma urna da dinastia Han” (de 1995), a performance promovida pela consumidora de Britto em sua frente poderia certamente se chamar Derrubando a merda de artista — adicionando, aliás, muitas camadas de significado a um ato tão simpático, algo tão ao gosto do mundo da arte.

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