žižek, real [2]

originalmente postado em http://notasurbanas.blogsome.com/2010/08/18/zizek-real-2/

Alguns apontamentos do autor nas conclusões do texto citado na postagem anterior.

[…] A noção marxista correta de “base” não deve ser entendida como uma fundação que determina e, por conseguinte, delimita o escopo da liberdade (“pensamos que somos livres, mas somos na verdade determinados por nossa base”); deve-se concebê-la como a própria base (quadro, terreno, espaço) de e para nossa liberdade, a substância social que a sustenta. Nesse sentido, as regras de civilidade não restringem nossa liberdade, mas oferecem o espaço para seu desabrochar; a ordem legal mantida por aparatos estatais é a base para nossas trocas mercadológicas livres; as regras gramaticais são a base indispensável para nosso pensamento livre (e, para tanto temos de exercitá-las cegamente); os hábitos como nossa “segunda natureza” são a base para a cultura; o coletivo de crentes é a base, único espaço em que um cristão pode ser livre etc. É também assim que se deve entender o infame apelo marxista por “liberdade concreta e real” em oposição à “liberdade abstrata e meramente formal” burguesa: a primeira não impõe o conteúdo possível (“você só pode ser livre se apoiar nosso lado, comunista”); a questão é, principalmente, que “base”que lhes permita tornar real sua liberdade enquanto produtores; embora haja liberdade de expressão e de organização “formal”, sua base é restrita.

Num curto e perspicaz ensaio sobre civilidade, Robert Pippin estudou os dois enigmáticos extremos dessa noção que designa a atitude benevolente de deixar de lado o cálculo de custos e benefícios, de confiar e tentar não humilhar os outros outros etc. […] Pippin está certo ao vincular seu papel crucial nas sociedades modernas com a ascensão do indivíduo livre autônomo — não apenas no sentido de a civilidade ser a prática de tratar os outros como iguais, sujeitos livres e autônomos, mas também, de modo muito mais refinado, de sua frágil rede ser a “substância social” dos indivíduos independentes livres, seu principal modo de (inter)dependência. Se essa substância se desintegra, o espaço da liberdade individual está banido.

O capitalismo global de hoje corroi mais do que nunca essa substância, em pelo menos quatro pontos: o impreciso risco de catástrofe ecológica; a inadequação da propriedade privada no que diz respeito ao que se chama “propriedade intelectual”; as implicações socioéticas de novos desenvolvimentos tecnocientíficos (especialmente em biogenética); e, por último, mas não menos importante, novas formas de apartheid, novos muros e novos guetos. […]

Os primeiros três antagonismos dizem respeito aos campos que os intelectuais Michael Hardt e Toni Negri chama “comuns“, a substância partilhada de nosso ser social cuja privatização é um ato violento ao qual se deveria resistir por meios violentos, se necessário. […] Se a Bill Gates fosse permitido o monopólio, teríamos chegado à situação absurda de um indivíduo particular possuir de fato os softwares principais de nossa rede de comunicação básica. […] Nicholas Stern tinha razão ao caracterizar a crise climática como o “maior fracasso do mercado na história humana”. […] A referência a “comuns” justifica, então, o renascimento da noção de comunismo: permite-nos ver seu progressivo “cerceamento” como um processo de proletarização dos que estão, por conta disso, excluídos de sua própria substância.

Em contraste com a imagem clássica de proletários que “não têm nada a perder a não ser seus grilhões”, estamos todos correndo o risco de perder tudo: a ameaça é de sermos reduzidos a sujeitos cartesianos vazios e abstratos destituídos de conteúdo substancial, despossuídos de nossa substância simbólica, com nossa base genética manipulada, vegetando em ambiente inabitável. Essa ameaça tripla a nosso ser inteiro torna a todos potencialmente proletários, e a única forma de evitar que isso ocorra é agir de modo preventivo.

ŽIŽEK, Slavoj. “A utopia liberal”, Revista Margem esquerda nº 12. São Paulo: Boitempo Editorial, novembro de 2008, pp. 59–61.

É interessante o deslocamento semântico produzido pelo autor com a palavra “comunismo” (não se referindo diretamente a “comunidade”, mas aos tais bens “comuns” da humanidade) e de como tal palavra pode sugerir uma nova agenda para transformações mais amplas, diretamente relacionado a uma base de liberdade concreta, porque efetivamente ligada à autonomia. Vejo fortes relações entre a experimentação de uma “base de liberdade” concreta e a prática freireana.

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