Stapelstuhl; 1971

panton vermelha

Uma das mais interessantes seções da revista eletrônica Design Observer se chama “Mistérios acidentais”: a cada semana seu curador, John Foster, reúne de forma meio fragmentada, meio casual, documentos e imagens inusitadas, exóticas e curiosas relacionadas a um determinado tema de seu interesse. Foster é colecionador do que chama de “arte de autodidatas” e “fotografia vernacular”, reunindo um rico acervo de imagens que está longe de figurar entre as coleções e arquivos de museus e centros de pesquisa em história do design, mas que se apresenta igualmente rico e profundamente marcado por forte carga simbólica e afetiva.

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Stapelstuhl; 1971
curioso redesenho (intencional ou involuntário?) da panton

A imagem acima foi destacada na mais recente edição dos “Mistérios acidentais” no Design Observer, dedicada à gráfica e ao design da Alemanha Oriental, sobretudo de suas últimas décadas.

Fascina a graciosidade e involuntária ironia presente na imagem, considerando-se sua origem: fabricada na Alemanha Oriental por uma empresa estatal de materiais plásticos e aparentemente projetada por um designer chamado Ernst Moeckl, esta cadeira revela um curioso, singelo e surpreendente redesenho da famosa cadeira Panton, ícone do design ocidental de meados do século XX. Aparentemente a citação (ou plágio?) à Panton não foi intencional, visto que desenhos similares e menos explícitos eram explorados por Moeckl em anos anteriores (como nesta cadeira “canguru” de 1968). Os primeiros protótipos da Panton datam do início dos anos 1960, e imagens dela certamente circulavam mesmo do outro lado da Cortina de Ferro. No entanto, como parece demonstrar a versão “canguru” de 1968, o tal Moeckl buscava uma experimentação formal que vinha de outra linha e, ao que parece, convergiu em algum momento com os desenhos de Panton.

Imagino esta “cópia” da Panton espalhando-se ao longo dos anos pelo imaginário dos cidadãos da Alemanha Oriental, como uma espécie de elemento do cotidiano desprovido de qualquer tipo de aura, a qual é tão comum nos ícones ocidentais de design (reunindo apenas, talvez, tal qual ícones soviéticos como os automóveis Lada, certa referência ocasional e oportuna à autoridade e opressão do estado estalinista a que estava submetido o povo). Esta quase “vernacularidade” desta versão não intencional da Panton lembra, em outro contexto, as citações que costumam ser feitas ao pilar do Palácio da Alvorada em casas populares autoconstruídas espalhadas pelo Brasil. As marcas do tempo que particularmente aparecem nesta imagem, aliás, reforçam uma suposta relação entre a cadeira e o cotidiano (a qual, no entanto, não tenho obviamente condições de afirmar como fato).

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Foster também mantém um blogue de seus “mistérios acidentais”: http://accidentalmysteries.blogspot.com.br/. De todo modo, as colunas no Design Observer são mais interessantes.

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