Paul Cézanne. Marges de um rio. 1906. Óleo sobre tela, 65x81 cm. Coleção particular, Suíça.

paisagens simmelianas

Paul Cézanne. Margens de um rio. 1906. Óleo sobre tela, 65x81 cm. Coleção particular, Suíça.
Paul Cézanne. Margens de um rio. 1906. Óleo sobre tela, 65x81 cm. Coleção particular, Suíça.

Seguem algumas anotações sobre a forma como Georg Simmel mobiliza o conceito de paisagem em seu texto Filosofia da paisagem, publicado originalmente em 1913. Outros aspectos do mesmo texto já foram destacados aqui: arte, ciência, religião.

Todas as citações são desta edição, disponível na rede: SIMMEL, Georg. [1913] A filosofia da paisagem. Covilhã: LusoSofia Press, 2009. Tradução de Artur Morão. Disponível em http://www2.uefs.br/filosofia-bv/pdfs/simmel_01.pdf

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Simmel parece, antes de tudo, interessado em discutir oposições conceituais particularmente interessantes: a parte e o todo; o fenômeno e sua percepção; o absoluto e o relativo; entre outros. O autor encontra na relação entre a paisagem, sua constituição no nível da consciência, a natureza e a arte um conjunto privilegiado de elementos e relações para explorar tais oposições, construindo fascinante percurso argumentativo.

A paisagem de Simmel aparece aos poucos, sutilmente, embora fale-se dela desde o início. A palavra surge logo na segunda frase de seu texto, inserida em meio a um alerta: não basta reconhecer elementos isolados justapostos para se argumentar estar diante de uma paisagem. A paisagem simmeliana é antes de tudo um fenômeno do espírito.

Simmel alerta desde o início para não se confundir paisagem e natureza. Esta, para ele, é descrita como um fenômeno extrínseco ao homem, absoluto, dele independente. Como fenômeno físico, a natureza pode mesmo incluir elementos construídos pelo homem: é justamente esta relação homem-meio que, segundo o autor, não deve ser confundida com a paisagem, algo que será recorrente em outros momentos da história do pensamento geográfico. Natureza é unidade, totalidade sem fragmentos, composição sem componentes isolados. Natureza não é estrutura, é um todo cuja compreensão encontra-se além do restrito esforço analítico baseado em operações de dedução ou classificação e taxonomia de elementos

A paisagem, porém, igualmente não se constitui como estrutura, não é composta por elementos ou por fragmentos. Paisagem é antes de tudo percepção, ambiência, clima, estado de espírito, estar no mundo. Trata-se, experimentando-a, de viver a relação entre a parte e o todo que não é, no entanto, natural. A parte, associada à paisagem, justamente porque construção do espírito, porém, é ela própria uma totalidade em si, ainda que tributária da Natureza. Embora não chegue a de fato transformar a paisagem em uma categoria de pensamento, Simmel a entende de forma complexa: não é nem a mera percepção de um conjunto de elementos, nem a mera estrutura física pela qual se organizam tais elementos (naturais ou culturais). Em outras palavras, parece não se tratar nem de uma forma, nem de uma estrutura, mas de algo orbitando no domínio da representação, ainda que não se confunda diretamente com esta, visto que há algo de material na paisagem que escapa à representação.

Simmel associa o surgimento da paisagem, enquanto operação cognitiva, com o advento da modernidade, mas alerta contra o aparente lugar comum de que o “sentimento da natureza” também seja fenômeno específico da modernidade. A totalidade, para Simmel, encontrava-se plenamente celebrada e presente nas religiões primitivas: para ele, é no contexto pós-medieval que surgem as condições para que se promova o recorte da parte e do todo, separando paisagem — enquanto algo ainda não muito bem definido localizado entre a percepção, a representação, a construção a partir da matéria — da Natureza — um todo extrínseco ao homem, inalcançável.

A fim de resolver o dilema da conceituação da paisagem como algo localizado entre o domínio da percepção, da representação, da vida e da matéria, Simmel procura recorrer justamente à analogia da operação artística, e particularmente com as operações próprias da pintura:

O que o artista faz — extrair da torrente e da infinidade caóticas do mundo imediatamente dado um fragmento, apreendê-lo e formá-lo como uma unidade, que agora encontra em si mesma o seu sentido e intercepta os fios que a ligam ao universo e os reata de novo no ponto central que lhe é peculiar — eis o que também nós fazemos de um modo mais chão, com menos princípios, mais incerto nos seus limites, logo que contemplamos uma “paisagem” em vez de um prado, de uma casa, de um riacho e de um séquito de nuvens.

Os diferentes sistemas de pensamento (ou os diferentes sistemas culturais, como a ciência, a religião e a arte) são para Simmel essencialmente construções intelectuais (ideais, portanto, e não concretas) que essencialmente surgem como estruturas argumentativas legitimadoras de determinadas práticas consolidadas na vida social. Tais sistemas são, portanto, a ritualização de tais práticas por meio de sua transformação em ideia. A divindade, por exemplo, configura-se como uma construção ideal legitimadora e consolidadora de determinadas práticas e processos de entendimento de mundo presentes na vida de dada comunidade. A religião, portanto, constitui processo de autonomização da ideia sobre o lastro concreto que a respaldou, transformando-se em sistema hermético. Ou, em outras palavras, não é a religiosidade que provém da religião, mas a religião, enquanto sistema, que surgiu da prática ou do sentimento de religiosidade. O mesmo poderia ser dito da arte: não é dela que surge a prática ou o sentimento estético ou poético do ser humano, mas é disto que surge o sistema da arte (o qual, autonomizando-se, necessita legitimar-se ideologicamente). A maior provocação sem dúvidas é dirigida à ciência (e, particularmente, ao positivismo), que constitui protocolos e procedimentos fechados a partir do desejo cotidiano de conhecer e aprender.

Neste sentido — e particularmente pensando na discussão a respeito da paisagem — Simmel parece querer sugerir que não é a paisagem uma operação cognitiva que pode ser conceituada analogamente à operação artística, mas é justamente a operação artística que deveria ser entendida como a ritualização daquilo que é cotidiano e corriqueiro a qualquer ser humano.

Provém da vida — mas só porque e na medida em que a vida, tal como é vivida em cada dia e por toda parte, contém as energias formadoras, o seu efeito puro, tornado autónomo, determinando para si o seu objecto, se chama então arte. Sem dúvida, nenhum conceito de “arte” está em acção, quando o homem diariamente fala ou se exprime em gestos, ou quando a sua contemplação modela os seus materiais de acordo com o sentido e a unidade. Mas em tudo actuam tipos de configuração que devemos, por assim dizer só depois, chamar de artísticos; de facto, quando estes, na sua legalidade própria e fora do envolvimento útil na vida, formam para si um objecto, que é tão-só o seu produto — é que se trata justamente de uma “obra de arte”.

Só neste meio mais amplo se justifica a nossa interpretação da paisagem a partir dos derradeiros fundamentos configuradores da nossa imagem do mundo. Quando realmente vemos uma paisagem, e já não uma soma de objectos naturais, temos uma obra de arte in statu nascendi. E se, muitíssimas vezes, perante as impressões de uma paisagem, ouvimos os leigos dizer que gostariam de ser pintores para reter essa imagem, isso significa decerto não só o desejo de fixar uma reminiscência — desejo que seria igualmente provável frente a muitas outras impressões de outro género —, mas também que em nós, já nessa contemplação, está viva e se tornou operante, por embrionária que seja, a forma artística; e, incapaz de chegar à criatividade própria, insinua-se pelo menos no desejo e na sua antecipação interior.

É curiosa a maneira como Simmel problematiza a necessidade de distanciamento do objeto a ser representado como uma condição para a efetivação desta capacidade artística humana (a qual, como se ressaltou, antecede a obra de arte enquanto produto autônomo). Tomar o outro como objeto da ação poética parece menos evidente que representar o pitoresco, o belo ou o sublime da paisagem: a figura humana já estaria dotada de certa totalidade que a paisagem vulgar não reuniria, demandando uma ação de ordenação ou de dotação de coerência ou de perspectiva.

A constituição desta unidade momentânea — fechada e coerente — da paisagem, da dotação de uma totalidade a um recorte, é construída por Simmel a partir da ideia de Stimmung da paisagem. O Stimmung, porém, é único ao observador, só existe nele e para ele, mas só se efetiva na relação entre ele e a matéria. A “paisagem” em si não possui qualquer Stimmung, pois este se dá apenas enquanto estado psíquico. No entanto, ela só é paisagem pois justamente possui Stimmung. Trata-se, portanto, de uma relação não simples entre sujeito e objeto, entre observador e observado: um não existe sem o outro, mas ambos influenciam-se mutuamente pois, justamente, existem separadamente. Grosso modo, só há matéria pois há observador.

A paisagem simmeliana, é, portanto, inerentemente dialética, trata-se de uma terceira coisa que não é apenas a soma de duas outras [grifos nossos]:

Perante tudo isto, está, evidentemente, mal formulada a questão de se primeiro, ou só depois, vem a nossa representação unitária da coisa ou o sentimento que a acompanha. Entre eles não existe a relação de causa e efeito e, quando muito, ambos poderiam figurar quer como causa quer como efeito. Por isso, a unidade que a paisagem enquanto tal suscita e a disposição anímica que a partir dela em nós retumba e com a qual a envolvemos, são apenas desmembramentos ulteriores de um só e mesmo acto psíquico.

O sentimento da paisagem é específico dela, mas ela (a paisagem) é sempre específica do observador.

Simmel, nesta rica jornada intelectual sobre o tema da paisagem, sugere-nos algumas lacunas a serem melhor compreendidas: em que medida o Stimmung da paisagem pode ser construído a partir da partilha dos Stimmungen individuais? Para Simmel a paisagem é sempre individual ou ela pode assumir um caráter de construção coletiva? Está claro que aqui não estamos tratando de estruturas (construídas) que são claramente objeto da ação coletiva e conflitual de sujeitos diversos, mas da construção de um sentimento de unidade sobre este conjunto de elementos. Este sentimento é sempre individual?

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Em que medida pode-se enquadrar o problema do “pitoresco”? Em outras palavras, como considerar as representações sociais efetivadas por determinadas paisagens, como a Veneza gótica de Ruskin ou o pays de La Blache ou a “França profunda” de Mérimeé? Trata-se apenas de uma espécie de “caricatura” de um sentimento de paisagem generalizado?

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