lucien kroll, arquitetura aberta nos anos 70

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Apesar do caráter da obra do arquiteto belga Lucien Kroll ter passado por mudanças significativas ao longo de quatro décadas de atividade, sua participação na construção de um complexo de edifícios (imagem acima) para a Faculdade de Medicina da Universidade Católica de Louvain (que, apesar do nome, se localiza em Bruxelas) permanece como uma referência relevante para a discussão de algo que pode ser chamado de “arquitetura aberta”. Críticos diversos tentam enquadrar a obra do arquiteto dentro de um raciocínio de “participativismo”.

Com efeito, tratam-se de experiências associáveis a propostas ligadas à tecnoutopia que caracterizou parte dos anos 60/70 e à ingenuidade que tais linhas de pensamento professavam quanto à melhoria das condições de vida no capitalismo simplesmente baseando-se na equação “avanço tecnológico + todo poder ao usuário”, ignorando porém o potencial do próprio capital se apropriar deste mesmo discurso. Frampton, sem citar Kroll (mas referindo-se a Habraken, influência importante ao arquiteto), estabelece uma espécie de linha evolutiva que surge com a crença irremediável na tecnologia e no design de Buckminster Fuller, passa melo metabolismo japonês e pelos megaestruturalistas ingleses, chegando às propostas de arquitetos em maior ou menor grau relacionadas com a cultura do advocacy planning, eventualmente com o Estruturalismo, com a Nova Esquerda e com certa cultura hippie/comunitarista:

[…] além da cultura marginal da cúpula geodésica do Oeste norte-americano, o maior impacto de Buckminster Fuller deu-se no Japão e, acima de tudo, na Inglaterra, onde um desenvolvimento contínuo “Dymaxion” pode ser rastrado, desde os primeiros projetos de estrutura espacial e cúpula de Cedric Price e Peter Cook até a obra mais recente da Foster Associates.

[…]

No início dos anos 1960, a consciência cada vez maior de que, na prática comum, faltava uma correspondência fundamental entre os valores do arquiteto e as necessidades e os costumes dos usuários, levou a toda uma série de movimentos reformistas que buscavam, através de uma variedade de caminhos contra-utópicos, superar esse abismo entre o designer e a sociedade cotidiana. Essas facções não só desafiaram a inacessibilidade da sintaxe abstrata da arquitetura contemporânea, como também tentaram criar maneiras pelas quais os arquitetos poderiam atender aos segmentos pobres da população que normalmente são marginalizados pela profissão.

[…] [neste ponto Frampton cita a experiência de Turner no Peru]

A criação de modos alternativos de lidar com tal situação, tanto no caso do mundo desenvolvido como no do subdesenvolvido, mostrou-se ilusória, e a panaceia da “participação do usuário” (difícil de definir adequadamente, e ainda mais difícil de conseguir) serviu apenas para nos dar uma consciência mais aguda da intratabilidade do problema e do fato de que ele talvez só possa ser eficientemente abordado em etapas, por respostas apropriadas a situações específicas.

FRAMPTON, Kenneth. História crítica da arquitetura moderna. São Paulo: Editora Martins Fontes, 2008, 2ª edição, pp. 346–352.

Há por vezes em críticas deste teor uma certa abordagem superficial (talvez preguiçosa…) ao tentar reunir em um mesmo contexto arquitetos com pensamentos tão diversos como John Turner, Christopher Alexander, Yona Friedman e o próprio Habraken. No caso de Frampton, isto fica evidente com o uso da expressão “panaceia da participação do usuário”.

lucien kroll, projeto participativo

Diane Ghirardo refere-se ao tema da seguinte forma:

Tanto Erskine quanto Kroll abandonaram preconceitos sobre a ordem arquitetônica, insistindo para que o arquiteto estabelecesse um diálogo com o cliente e que a construção refletisse a necessidade de seus habitantes em vez dos caprichos do arquiteto, do banqueiro ou do construtor. Em Louvain, os estudantes de medicina buscavam um projeto não comprometido com os ditames da profissão do arquiteto, que não fosse elitista e lhes permitisse participar do processo de tomada de decisões e da construção do prédio. As fachadas de muitas cores, materiais e proporções que eles produziram foram desdenhadas como bricolagem por alguns críticos, mas Kroll e os moradores defenderam-na por incorporar liberdade, igualdade e independência da típica relação senhor-escravo entre arquiteto e cliente. Não deixa de ser irônico que na década de 90 a bricolagem tenha se tornado uma estética supostamente de vanguarda.

GHIRARDO, Diane. Arquitetura contemporânea. Uma história concisa. São Paulo: Martins Fontes, 2009, 2ª edição, pp. 171–172.

A obra de Kroll é ambígua em vários sentidos, sobretudo quando seus projetos posteriores são comparados com suas primeiras experiências. No entanto, a trajetória do complexo de edifícios ligados aos alojamentos da Faculdade de Medicina coloca possibilidades interessantes de interface entre processos construtivos industrializados e a cultura construtiva da população local (“usuária”). O que tanto Frampton quanto Ghirardo parecem colocar como problema meramente marginal, ignorando a potencialidade emancipatória, é justamente a dimensão tectônica do problema, a possibilidade de estabelecimento de um diálogo entre conhecimento técnico e conhecimento popular e a construção de um conhecimento arquitetônico comum. A interface promovida pelos paineis pré-fabricados (e, em certa medida, pela modularidade) representa o meio pelo qual o diálogo se dá.

coordenação modular, arquitetura flexível

O conjunto de edifícios associados aos alojamentos estudantis da Faculdade de Medicina (creche, restaurante, estação de metrô, entre outros equipamentos, além das várias expansões e reformas) compõe um complexo cuja construção durou mais de uma década: as diferentes pessoas que passaram pelo projeto nele imprimem sua presença e efetivamente transformam tal projeto em uma obra que dialoga com a história e reconhece o papel da memória. Apesar da presença mítica de Kroll em toda a trajetória, é em certa medida uma obra coletiva.

Montagem dos dormitórios pelos estudantes

Segundo Wolfgang Pehnt em seu texto de introdução ao livro que reúne as obras de Kroll:

One of the greatest hopes during the years when Kroll was beginning to go his own way was the industrialization of building technology. Although it had already become clear that mass tenements had contributed to alienation, there was hope that industrialized building, if only managed properly, would assure the individuality of domestic architecture. Some who were advocating participatory building procedures believed they could counteract contradictions between the prevailing practice in domestic architecture and the self-determination of the people affected. The party-cry was: separation of the mega-structure from the infill; the first should be planned for performance, the other for short-term development. In this way, the preplanned, the calculated, and permanent would be reconciled with the unscheduled, spontaneous, and lively.

An eloquate advocate for the differentiated and differantiating industrialization was Nicolaas John Habraken, who published his De Dragers en de Mensen in 1961 and who was cofounder of the Dutch Foundation for Architectural Research (S.A.R.). He compared the supporting frame and the infill with the principle of the bookcase, which accommodates the most disparate contents within its separate shelves. The primary structure would be the concern of industry, the infill could be left to the builders, or, in the case of an appropriate range of industrialized parts, to the dexterity of the individual resident. Habraken considered a properly understood industrialization of building techniques to be a mean of firmly re-establishing architecture in society (Cf. Ingo Bohning, Autonome Architektur und Partizipatoriches Bauen, Basel, 1981)

Lucien Kroll did not accept the ideology of the mega-structure, which very quickly proved its inadequacies. Nor did he accept the separation of public objectivity and private subjectivity for his practical work. However, that part of the teachings in which Habraken speaks of the necessity of a personal dwelling territory, in which he states that it is part of human existence to leave traces and form one’s own world, and where he describes buildings as an interaction of many participants, must have been very congenial to Kroll. He almost achieved the divorce of a permanent supporting construction and a flexible interior in the houses for the students at Woluwé-Saint Lambert. However, already in the initial building, the Maison Medicale (“Mémé”), the supporting parts are, within given measurements, freely varied, causing an inevitable diversive partitioning of space. The supports are “walking”, not “marching.” Individuality has, therefore, already encroached on the primary structure, which, in accordance with the mega-construction theory, should remain neutral. In contrast, Kroll completely accepted the importance of scale and measure and of a differentiated grid as favored by the S.A.R. Woluwé-Saint Lambert became verification for the opinion that a more segmented frame had a less violating effect.

During the years of the student revolts, Kroll must have appeared as the man of the hour. He had the patience to listen to the students, and the readiness to draw conclusions from their discussions.

PEHNT, Wolfgang. “Return of the Sioux” in Lucien Kroll — Buildings and projects. Londres: Thames & Hudson, 1987, pp. 10–11

A ideia de projeto com “foco no usuário” me parece um dos equívocos (se é possível usar tal palavra para se referir a um momento histórico) da arquitetura “participativa” dos anos 70. Mais do que estabelecer uma interface que levasse à plena satisfação dos desejos do usuário, parece que a grande potencialidade do trabalho de Kroll estava justamente em construir um diálogo tectônico: este princípio se encontra em ponto diametralmente oposto à burocratização imposta por metodologias de projeto que se resumem a atender requisitos de desempenho do usuário.

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Interessante registro desta possibilidade de produção de um conhecimento arquitetônico que reflete a mudança dos interlocutores ao longo do processo de diálogo se encontra em uma das ampliações feita em 1971 ao bloco de alojamentos dos estudantes de medicina que começou a ser construído em 1968, retratada acima. A partir de processos construtivos e materiais bastante diversos dos originais (no caso, a ampliação possui estrutura em madeira e a original é em concreto), a intervenção refletiu a cultura construtiva nova que justapunha-se à antiga, em uma espécie de poética da economia, dado que a construção conta com a participação dos moradores (os estudantes).

elevação

•••

A pesquisadora brasileira Silke Kapp faz interessante comentário sobre Kroll:

[…] Se o funcionalismo do primeiro Movimento Moderno se orientara pela representação positiva da “boa” sociedade e por suas necessidades supostamente naturais, mais tarde, a serviço da reconstrução de países em guerra fria ou governados por ditaduras, isso se torna impossível. Fica evidente que não há como criar objetos coerentes e baseados na satisfação de necessidades, se essas necessidades se contradizem entre si. Também fica evidente que muitas das funções para homens-modelo são violentamente disfuncionais para seres humanos reais. Apesar disso, ainda se espera que a produção formal concilie solicitações das mais díspares. Os projetos de arquitetura devem resultar em objetos bonitos e práticos, lucrativos e baratos, cômodos e estimulantes, fotogênicos e aconchegantes, individualizados e universais, avançados e facilmente compreensíveis. Visto desse modo, não surpreende que um texto intitulado Complexidade e Contradição em Arquitetura tenha tido tanta repercussão.

Nessa situação, há três saídas lógicas para a produção arquitetônica formal. A primeira é abandonar por completo a querela das funções e concentrar-se nos problemas imanentes da forma, como Mies van der Rohe ou Niemeyer fizeram. Nesse caso, mantém-se a aparente integridade das obras. A segunda saída é abandonar o pressuposto da integridade e deixar os objetos abertos, o que significa deixar também as funções abertas, como na prática de Yona Friedman ou Lucien Kroll. Essa é a saída menos explorada pelos arquitetos por enquanto, mas, a meu ver, a mais plausível, embora abale profundamente o estatuto da profissão. Finalmente, a terceira saída é tentar manter integridade e funcionalidade, mediante uma seleção de funções que supostamente se deixam integrar com coerência, isto é, mediante a distinção entre necessidades “falsas” e “verdadeiras”. Na segunda metade do século XX, esse é o procedimento mais freqüentemente adotado pelos arquitetos.

KAPP, Silke. “Por que uma teoria crítica da arquitetura? Uma explicação e uma aporia.” in MALARD, Maria Lúcia [org.]. Cinco textos sobre arquitetura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2005, pp. 115–167.

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