arquitetura e gênero: precisamos de uma Barbie arquiteta?

Estudante, 1973.
Imagem surrupiada daqui: http://ensaiosfragmentados.blogspot.com/2011/03/campanha-para-estudantes-de-arquitetura.html

Há no livro Reconstructing Architecture (editado por Lian Hurst Mann e Thomas Dutton, já citado aqui) um artigo sobre a relação entre o universo da arquitetura e o da discriminação de gênero. Tenho usado o livro como fonte importante de referências para meu TFG, mas este artigo em especial, que não apresenta relação direta com meu tema de estudos, chamou a atenção pelos dados estatísticos que apresenta.

A autoria é de Sherry Ahrentzen (pesquisadora do campo da habitação social e co-autora do difundido livro New Households, New Housing) e o título é “The F Word in Architecture: Feminist Analyses in/of/for Architecture.”

arquitetura e gênero

A autora apresenta diversos argumentos que evidenciam tanto a discriminação presente na formação e na prática profissional quanto na própria arquitetura que é produzida por um corpo profissional cuja representação é prioritariamente masculina. Trata-se de artigo extenso, cheio de referências interessantes, por vezes polêmico (quando, por exemplo, cita um estudo que procura denunciar o machismo implícito em obras como o famoso Condição Pós-moderna de Harvey), mas uma nota de rodapé é especialmente significativa:

De acordo com estatísticas reunidas pelas sucursais da AIA em Washington e Nova Iorque, pelo National Council of Registration Boards [Conselho Nacional de Registro Profissional, semelhante ao CONFEA], e por uma pesquisa sobre salários de arquitetos realizada em 1988 por D. Dietrich Associates, a faixa salarial de um arquiteto-sênior encontra-se entre USD 22.000–45.000, e a de um gerente de projetos entre USD 28.000–56.000 (por ano). Um arquiteto com registro profissional com oito anos de experiência recebe em média USD 37.000 (valores de 1990). Compare-se este cenário com o de outros profissionais licenciados. Um advogado em início de carreira recebe um salário anual de aproximadamente USD 47.000 (advogados experientes ganham em média USD 120.000). Médicos ganham em média USD 155.800 (valores de 1989), sendo que o especialista menos bem pago — clínico-geral ou o médico familiar — ainda assim recebe em média mais do que um arquiteto experiente, cerca de USD 94.000. Um médico com idade inferior a 36 anos ganha em média USD 113.300. Contudo, um assistente social com registro profissional servindo o governo federal recebe um salário anual de aproximadamente USD 38.200 (valor de 1991). Um professor de ensino infantil licenciado recebe USD 32.400 (1990); um terapeuta ocupacional registrado, USD 30.400 (1990); e enfermeiros registrados recebem em média USD 16,20 por hora, significando um salário médio de USD 33.700/ano para jornadas integrais de trabalho. Ainda que salários variem bastante de acordo com a região, cidade, anos de experiência e sexo, estes dados sugerem que os salários de arquitetos apresentam maior relação com profissões como enfermagem, ensino, assistência social e outras especialidades da saúde do que com o direito e a medicina. Entretanto, é também fato que os arquitetos mais bem pagos ganham mais do que os mais bem pagos enfermeiros, por exemplo. A arquitetura — quando comparada com outros campos profissionais predominantemente femininos, como os citados acima (ensino infantil, enfermagem, assistência social) — de fato oferece alguma oportunidade para receber altos salários. Pode ser que a imagem das estrelas do meio, mais do que a do típico arquiteto comum, seja o que direciona a percepção do arquiteto como um integrante do mesmo universo econômico do direito ou da medicina. Entretanto, eu argumentaria que a base para tal percepção também refletiria um pensamento machista — utilizando-se das estrelas mais bem pagas para representar todo o campo profissional, excluindo a média ou o típico. Dados de John W. Wright, The American Almanac of Jobs and Salaries, 1987–88 (Nova Iorque: Avon, 1987); Departamento de Comércio dos EUA, Gabinete do Trabalho, Occupational Outlook Handbook, 1992–93, Boletim 2400 (Washington, D.C.: U.S. Government Printing Office, 1992).

AHRENTZEN, Sherry. “The F Word in Architecture: Feminist Analyses in/of/for Architecture” in DUTTON, Thomas; MANN, Lian (orgs.). Reconstructing Architecture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996, p. 111

O que fica implícito nos dados: 1. profissões predominantemente femininas estão relacionadas com o pagamento de menores salários (diferenças salariais entre homens e mulheres constitui um problema que vem sendo denunciado pelo movimento feminista há tempos, e continua grave). 2. a arquitetura (campo profissional predominantemente feminino no Brasil — ainda que com suas estrelinhas masculinas — , diferente dos EUA, onde cerca de 80% dos arquitetos com registro profissional são homens), mesmo sendo uma profissão mal paga, é associada às figuras bem-pagas da elite profissional (que chegam a receber tanto quanto os mais importantes médicos e advogados). Mesmo sendo uma profissão “economicamente” feminina, é “socialmente” masculina: os louros fatalmente ficam com os homens, mesmo nos escritórios estelares e “descolados” compostos por sócios de ambos os sexos.

•••

O artigo de Ahrentzen foi publicado há 15 anos, mas tudo indica que o problema continue marginal, mesmo na academia. O sítio do bourdieano Garry Stevens, com seu característico e irritante senso de humor, apresenta alguns comentários sobre a presença de mulheres nas faculdades e nos escritórios de arquitetura, mas ainda trata-se de exceção.

arquiteta Barbie

Barbie, versão "arquiteta"
Versão "arquiteta" da boneca Barbie, comercializada pela Mattel a partir de 2010. Mais no Design Observer — http://bit.ly/fqnsvR

No início deste ano a Mattel passou a comercializar uma versão “Arquiteta” da boneca Barbie. Como se sabe, a empresa produz centenas de versões da Barbie, para cada uma das profissões (nos anos 60 ela já foi bailarina, baby-sitter e astronauta). A versão “Arquiteta”, no entanto, só foi produzida este ano.

O acontecimento foi celebrado pelas arquitetas Kelly Hayes McAlonie (biógrafa da primeira arquitetura estadunidense e presidente da sucursal novaiorquina do Instituto Americano de Arquitetos) e Despina Stratigakos (professora da Universidade Estadual de Nova Iorque em Buffalo), que chegaram mesmo a elaborar uma campanha para pressionar a Mattel a lançar o brinquedo.

O fato foi noticiado pelo relevante blogue Design Observer e os comentários são interessantes (alguns comemoram o fato da Barbie vir acompanhada de um capacete de obras, outros dizem que isto é preconceito, pois arquitetos de verdade pouco frequentariam canteiros…). O blogue Architizer reuniu outros comentários: ela deveria usar calças ao invés de saia, cabelo curto ao invés de comprido, trocar o canudo por um iPad, trocar o salto por botas adequadas a canteiros. Barbie Arquiteta também vem acompanhada de uma mini-maquete (que mais parece de fato uma mini-casa-de-bonecas). Chegaram até mesmo a questionar a certificação LEED dos projetos da arquiteta Barbie, pois a casinha que a acompanha não responderia a critérios de sustentabilidade…

Como se vê, comentários superficiais, quase nada sobre o caráter sexista da boneca. O único comentário mais lúcido parece ter sido este (o grifo é meu):

Women of a certain age, i.e., my generation, know what the feminist revolution was really all about and what Barbie symbolizes. Barbie is a sexist symbol. Our colleagues must be very very careful with this issue. Promoting architecture in a sexist way with a sexist venue is not good for any of us, male or female. This is not a positive way to “convince the public of our value”. And this is not “a great opportunity…and a win win”. It is only a win for Mattel.

I actually find it incredible that AIA was involved with the creation of this doll by Mattel considering all the problems us architects have that they could be spending their time on.. This new doll has been in the news already for a few weeks, in prominent press, and has received mixed reviews, from applauding the idea of dolls influencing young girls (and by the way, there is controversial research data as to whether they actually do) to mocking the taffy plastic pink house and retro drawing tube etc. Search the news media and you will see many comments about this “fetish in pink”.

Many of us who grew up and marched in the streets in the turbulent times of the 60s and 70s never gave our children Barbie dolls…and that was on principle. You must realize that the Barbie doll is a vestigial symbol of the time when women were not accepted in the field of architecture, or many other fields for that matter. If Barbie has transformed into a positive female role model, I sure don’t see it. Across our society we are currently suffering a swing of the pendulum back to the time before feminism. Do you all really romanticize the “MadMen” era?

Inda Sechzer, Kander Sechzer Architectural Partnership, 8 de abril de 2011

mais

Como se sabe, a Bauhaus não foi a escola unanimemente progressista que as histórias oficiais da arquitetura moderna contam. Às mulheres eram reservados os cursos “femininos”, como tapeçaria. Mais aqui: mulheres esquecidas da Bauhaus (e todos aqueles homens superestimados).

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4 comentários em “arquitetura e gênero: precisamos de uma Barbie arquiteta?”

  1. Realmente. Não tinha imaginado a questão por essa vertente dos gêneros. Faz muito sentido.

    De bonecas eu não entendo muito, mas aqui no Brasil para se adequarem à demanda de mercado, já estou vendo eles lançarem a Barbie Arquiteta que vem junto do Ken Engenheiro. Ou nem precisa, já reforça o estereótipo assim mesmo. Hilário que esse padrão de brinquedo ainda dite tendência infantil.

    Você ainda vai dar aula na faculdade para meninas que estarão lá porque se identificaram mais com a versão “arquiteta”. haha, quero ver…

    ” 1. profissões predominantemente femininas estão relacionadas com o pagamento de melhores salários” você quer dizer menores, né?

    Aliás, sobre o que é seu TFG? Tudo que você escreve faz referência a ele!!

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  2. kim, por algum motivo seu comentário foi classificado como spam, consegui recuperá-lo agora.

    o tfg é sobre discursos, práticas e experiências relacionadas com arquitetos e autores que em maior ou menor grau tiveram alguma relação com o tema da participação nos anos 70. Pretendo enfrentar o tema a partir da noção de dialogicidade de paulo freire.

    tem razão, errei no “menores”.

    valeu pelo comentário!

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