le corbusier em pessac

Em fins da década de 1920 o arquiteto Le Corbusier foi convidado a desenhar um complexo habitacional em Pessac, ao sul da cidade francesa de Bordeaux. O projeto ficaria conhecido como Quartier Frugès ou Cité Frugès e passaria a ser lido mais tarde pela historiografia oficial como um importante momento na trajetória do mestre franco-suíço: nele teria sido possível testar o conjunto de bandeiras da nova arquitetura em um pequeno protótipo de tecido de cidade. Não surpreende, aliás, a origem do projeto: tratava-se de um “experimento” de habitação operária proposto por um membro proeminente da burguesia industrial local, Henry Fruges, o que representa bem, portanto, a idealizada e celebrada aliança entre arquitetos modernos e o poder estabelecido no capitalismo industrial do início do século. O arquiteto “excêntrico” e o burguês “visionário” são os personagens que dão o tom desta farsa, pronta para integrar qualquer manual da arquitetura do século XX.

#0579; fotografia de Alan Hasoo
Uma das residências de Le Corbusier em Pessac. Imagem de Alan Hasoo.

A farsa é tão bem montada que o seu ato derradeiro inclui interessante reviravolta. Após várias décadas de existência, o complexo corbusieriano de Pessac foi radicalmente transformado pelos seus moradores.

A imagem abaixo é reveladora da trajetória sofrida pelo conjunto.

residência projetada por le corbusier, pessac, frança
Fonte: JONES, Peter Blundell. "Sixty-eight and after" in JONES; PETRESCU; TILL. Architecture and Participation. Nova Iorque: Taylor and Francis, 2005, p 113

Mais do que a “derrota” histórica da arquitetura moderna, Pessac talvez represente seu oposto: sua vitória sutil, sua lenta integração ao cotidiano, a derradeira prova de que a casa seja de fato uma máquina de morar. A jogada do mestre (talvez algo que Corbusier viesse a explicitar décadas mais tarde, sobretudo no projeto de Argel) foi a forma como aquele fragmento de cidade moderna integrou-se ao tecido, ainda que distinguindo-se dele. Ganhou historicidade, diferente de seus contemporâneos. Talvez Corbusier estivesse pregando uma peça mesmo em seus seguidores modernos: “vejam, o que importa não é o tal ‘estilo’, afinal de contas, mas o espírito que resiste ao tempo”.

A trajetória de Pessac pode ser avaliada no livro Lived-in Architecture, de Philippe Boudon. Este artigo do New York Times de 1981 também é interessante: “Projeto habitacional de Le Corbusier — Flexível o suficiente para resistir”.

Ou talvez ele ficasse, ao contrário, furioso com as janelinhas burguesas, com a platibanda delicadamente ornada e com as floreiras simpáticas.

ps:

fonte: http://lamachineahabiter.com/aquitanis-lance-un-plan-de-renovation/
casinha em processo de "restauro" de seu exterior, fonte: http://lamachineahabiter.com/aquitanis-lance-un-plan-de-renovation/

Aparentemente a simpática casinha que tantas alterações sofreu ao longo do tempo está neste momento em processo de reforma à condição original (um falso “restauro”).

É uma pena: não tanto pelas várias questões de preservação do patrimônio moderno que isto acarreta (acredito mesmo que a maioria dos especialistas seria favorável a algum nível de retirada de adições consideradas espúreas), mas pelo total desentendimento da história das coisas que os arquitetos têm. Em meio a tantos outros exemplares cuja forma é similar à original dos anos 20, seria no mínimo interessante preservar um exemplar alterado pelo tempo.

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