Esquerda: construção da sede da Fundação Lama. Direita: Steve Wozniak lavando louça na Primeira Conferência Hacker

'pense diferente'

IBM; "Pense".
IBM; "Pense".

Reinhold Martin (citado na postagem anterior sobre arquitetura pós-moderna) assim inicia o primeiro capítulo de seu livro Utopia’s Ghost:

“Pense.” Por volta de 1911 este já havia se tornado um lema corporativo. Por volta dos anos 30, na forma de slogan da International Business Machines (IBM), ele anunciava a formalização do que viria a ser conhecido no início dos anos 70 como o imaterial ou a produção pós-Fordista*. Em 1997, em um tardio ato de reconhecimento do motor afetivo, contracultural, que guiava a economia “global” neoliberal, este lema já havia sido transladado pela concorrente da IBM, a Apple Computer, no slogan “Pense diferente.” O estado de coisas a que estes eventos pertencem adquiriu ao longo do tempo uma variedade de nomes. Em 1973, Daniel Bell anunciou entusiasmadamente o “advento da sociedade pós-industrial.” No fim da década de 1980, Gilles Deleuze o caracterizou como a “sociedade do controle.” Mais recentemente, Alan Badiou o chamou de “segunda Restauração”. E em uma linha afim deleuzo-foucaultiana, Antonio Negri e Michael Hardt o chamaram de “Império”. Mas na esfera cultural, a expressão que continua a perseguir todas estas outras, seja como consequência ou como precursora é uma das favoritas de muitos outros teóricos, iniciando nos anos 70 e persistindo até os 90: simplesmente, pós-modernidade.

MARTIN, Reinhold. Utopia’s Ghost. Architecture and Postmodernism, again. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2009.

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* De acordo com seus biógrafos, em 1911, ainda como administrador no National Cash Register (NCR), Thomas J. Watson escreveu a diretriz “PENSE” em uma lousa durante uma apresentação para capturar a atenção da sua equipe de vendas. O fundador do NCR, John Henry Patterson, inseriu então o lema em cada um dos departamentos da empresa. Contratado em 1914 pelo investidor Charles Flint para conduzir a Computing—Tabulating—Recording Company (CTR), a qual antes fundira-se com a Tabulating Machine Company de Herman Hollerith, Watson levou o slogan com ele para a nova companhia, posicionando-o também em cada cômodo da empresa. Em 1924, ele alterou o nome da Companhia para International Business Machines (IBM). Thomas Graham Belden; Marva Robins Belden. The Lengthening Shadow (Boston: Little Brown, 1962) 157–159. Por volta da primeira metade da década de 1930; “PENSE” havia se tornado o lema não oficial da empresa. Identificando o pensamento produtivo com a lealdade e o conformismo, ainda que aparentemente encorajando a autonomia intelectual, o slogan produz um duplo vínculo que corresponde à consolidação da “produção imaterial” como uma característica definidora do capitalismo corporativo de fins do século XX. Sobre a produção imaterial e seus correlatos, v. em particular Lazzarato; Immaterial Labour; 133–147

Semana passada estive na FAUUSP no dia seguinte ao falecimento de Steve Jobs. Todos os computadores ao meu redor conectados à internet mostravam em algum momento a imagem deste que foi provavelmente o mais relevante nome do capitalismo contemporâneo. Capital acumulado a tal ponto que se torna imagem…

Jobs ganhava alguns trocados na faculdade vendendo pequenos aparelhos que permitiam efetuar ligações telefônicas gratuitas — deliciosamente ilegais — de longa distância, os quais ficaram conhecidos por “blue boxes”. Pode parecer um fato menor mas ele é interessante: Jobs e seu colega Steve Wozniak (futuro co-fundador da Apple com o primeiro) conseguiram de forma brilhante transformar um macete técnico conhecido apenas por alguns poucos entusiastas “contraculturais” da eletrônica (conhecidos naquele momento por phone phreaks — os “esquisitos do telefone” —, sujeitos que dariam origem ao que hoje conhece-se vulgarmente por “hacker“) em um produto facilmente manipulável por leigos no assunto. Jobs usaria esta imagem (a da criação de “computadores que qualquer um pode usar”) para construir a sua própria figura de empreendedor preocupado mais com as pessoas que com os produtos.

A relação entre a nascente indústria da microinformática pessoal em fins dos anos 70 e início dos anos 80 e o universo da contracultura (caracterizado no meio técnico informático por aquilo que costuma ser chamado de “cultura hacker”) é bastante interessante e merece estudos mais detalhados posteriores. Trata-se de um momento curioso da história em que alguns jovens cabeludos idealistas transformam-se em alguns poucos anos em magnatas corporativos e yuppies descolados. O livro From Counterculture to Cyberculture: Stewart Brand, the Whole Earth Network, and the Rise of Digital Utopianism de Fred Turner explora um pouco esta história, ainda que de forma um tanto quanto apaixonada, apresentando uma linha evolutiva — claramente instrumentalizada, ainda que bem construída — que vai da contracultura dos anos 70 à “cibercultura” contemporânea.

Esquerda: construção da sede da Fundação Lama. Direita: Steve Wozniak lavando louça na Primeira Conferência Hacker
Esquerda: construção da sede da Fundação Lama. Direita: Steve Wozniak lavando louça na Primeira Conferência Hacker

As duas imagens acima constam do livro de Turner: a primeira delas retrata a construção ritualística de uma estrutura baseada em domo geodésico (o qual foi adotado nos anos 60 como uma expressão contracultural, por algum motivo que ainda não entendi completamente) na sede da Fundação Lama, uma entidade contracultural fundada nos anos 70 no Novo México por um grupo de artistas ligados ao tal Stewart Brand do título do livro, que por sua vez editava um tal Whole Earth Catalog que teria influenciado gerações de “hackers” contraculturais. Aparentemente Brand é o autor da famosa frase A informação quer ser livre (“Information wants to be free”, adotada pelo movimento da “cultura livre”: software livre, Wikipédia, Creative Commons, etc). Já a segunda imagem apresenta uma situação inusitada ocorrida na “Primeira Conferência Hacker”: os conferencistas, em um espírito altamente evocativo da cultura “faça você mesmo” e da autogestão de maio de 68, lavam eles mesmos a louça usada durante o almoço no evento (que, apesar do nome, tinha caráter acadêmico e corporativo). A cena ocorreu em 1984, ano de lançamento da primeira versão do computador Macintosh. Uma das figuuras presentes na imagem é o próprio Steve Wozniak.

Naqueles anos algumas palavras que estavam na moda entre o pessoal que circulava em ambientes “contraculturais” eram “meio-ambiente”, “ambientalismo”, “participação”, “autonomia”, entre outras. O capitalismo pré-crise já havia se apropriado de todas estas expressões em sua face “sustentável”, adotando atitudes de “colaboração” entre “consumidores conscientes”. O capitalismo pós-crise vai pelo mesmo sentido, mas desta vez com presença do Estado na salvação dos mercados falidos.

Ao comentar a trajetória da arquitetura britânica ao longo do século XX, Frampton faz, na História Crítica da Arquitetura Moderna, uma breve associação com uma certa “linha evolutiva do domo geodésico” que teria surgido com Buckminster Fuller (e que teria a ver com os megaestruturalistas, team 4 e portanto Foster, etc). Chega a ser curioso que em fins da década de 2000, no ápice da crise, o escolhido pela Apple para construir sua nova sede seja o escritório de Norman Foster (aliança entre o velho capital industrial travestido de capital cultura descolado e um arquiteto global que trabalha com capitalistas e com sheiks árabes cujas origens estaria na velha geodésica contracultural).

 Apple; "Pense diferente"; 1997
Apple; "Pense diferente"; 1997

Em tempo: as breves análises do pessoal do Observatório da Imprensa sobre Steve Jobs parecem ser o que de melhor se produziu na grande mídia brasileira. Entre muitos adoradores cegos do espetáculo fechado e monopolista promovido pela Apple, é importante haver alguns poucos mas persistentes incomodados.

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Alguns anos atrás ninguém diria que haveria protestos de massa —anticapitalistas! — em Wall Street, com direito a discurso de Slavoj Žižek. Toda esta movimentação, porém, já é tomada por espetáculo e rapidamente incorporada pelo sistema.

Este foi um ano curioso para a cultura de massas. O Super-Homem, personagem símbolo do “sonho americano” durante tantas décadas, renunciou à cidadania estadunidense no início do ano e reapareceu nos últimos meses como um campeão das classes oprimidas, vestindo calças surradas e botas gastas — uma espécie de “Superman versão Bruce Springsteen”, nas palavras do autor Grant Morrinson. Em outras palavras: o mercado do entretenimento já lucra com as representações da crise do capitalismo — mesmo que seus consumidores não percebam. A edição da revista Action Comics em que é apresentada esta versão proletária do sonho americano esgotou e recebeu oficialmente três reimpressões.

Não seria surpreendente que a próxima campanha publicitária da Apple apresentasse imagens dos manifestantes em Wall Street, alegando que nada daquilo teria sido possível sem a presença dos maravilhosos aparelhos mágicos possibilitados por Jobs…

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