reyner banham sobre drop city

Em 1962 Reyner Banham publicou, na forma de livro-catálogo, um conjunto de apontamentos e comentários a respeito de episódios e edifícios representativos da arquitetura moderna que ele, em particular, apreciava. Na obra, intitulada Age of the Masters. A Personal View of Modern Architecture, Banham divide as obras e episódios a partir de recortes temáticos próprios, destacando questões e temas que lhe interessavam. O autor mesclava certa dose de sarcasmo com genuína apreciação e fascínio pelas obras e seus arquitetos — o que resultava em breves e valiosos textos sobre aqueles edifícios, temperados com pitadas de ironia. Conhecido por sua relação com a cultura pop, Banham hoje daria um excelente blogueiro.

Admirador que era de Buckminster Fuller, Banham dedica algumas páginas à cultura dos domos geodésicos, nas quais ele chega mesmo a tecer alguns comentários sobre a apropriação dos domos pela contracultura norte-americana. Entre outras observações, na edição revisada de 1975, o crítico britânico fala sobre a então já mitificada experiência de Drop City, após alguns ácidos comentários sobre esses “tipos que saúdam o sol e fazem as pazes com a natureza”:

Pode-se argumentar […] que estruturas permanentes constituem apenas alguns dos meios pelos quais um arquiteto cria ambientes humanos hoje: eletrônicos e outros estudos ‘não-arquitetônicos’ são meios adicionais de extender nosso controle sobre os ambientes — e se os arquitetos não podem torná-los parte de sua arte então a raça humana pode decidir se desvincular da arte da arquitetura, assim como ela se desvinculou das artes dos bruxos e curandeiros.

O que pode se revelar irônico, já que muitas das promessas das estratégias de projeto total de [Buckminster] Fuller, assim como de seus domos, foram desde então usurpadas por aqueles tipos primitivos de almas que saúdam o sol e fazem as pazes com a natureza no deserto durante o amanhecer, bem como investigam sinais nas areias e ervas em busca de orientação sobre como lidar com seus afazeres cotidianos. Por conta de suas críticas radicais às ordens estabelecidas da arquitetura, da tecnologia e da sociedade, Fuller se transformou em um dos heróis dos estudantes de arquitetura rebeldes dos anos 1960. […]

E em alguns parágrafos depois, a menção a Drop City:

Os domos de Drop City, no Colorado — um lugar sagrado para a contracultura tanto quando Haight–Ashbury — eram cobertos por folhas coloridas de aço estampado aproveitado dos capôs de carros abandonados com a pintura ainda intacta, bem como fenestrados com vidros de formatos irregulares também reutilizados de parabrisas de automóveis. Seus espaços públicos eram adornados com esculturas para o culto do sol feitas de velhos espelhos de automóveis. Portanto, à medida em que o tempo dava voltas em busca de suas próprias revanches, é bem provável que algum hippie do tipo “sou da paz”, observando de forma especulativa o firmamento na noite da mais recente missão Apollo e indagando sua tripulação com perguntas como ‘Homens da Lua, o quê vocês estão fazendo?’ o fizesse à porta de um rude abrigo construído de acordo com os preceitos do mesmo Buckminster Fuller que também havia sido o herói da geração anterior, que adorava a ciência — para quem uma missão lunar teria sido uma ocasião não para sarcasmo, mas para reverência.

Fonte:

BANHAM, Reyner. Age of the Masters. A Personal View of Modern Architecture. Londres: The Architectural Press, 1975, p. 133.

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“Após sua visita a Drop City, venha tomar um sorvete no Dairy Joy”

Drop City, a mais famosa comunidade contracultural estadunidense dos anos 1960, vem sendo objeto de um interesse renovado na última década. O livro-reportagem Droppers, de Mark Matthews, por exemplo, publicado em 2010, é um dos produtos deste interesse e já foi citado aqui. Alguns dos depoimentos dos primeiros anos de Drop City são particularmente interessantes. Gene Bernofsky, um de seus fundadores, declara o seguinte:

Toda manhã havia uma procissão de carros. As pessoas queriam ver o quê, em nome de Deus, estava acontecendo lá. Tudo era muito amigável e nos fins-de-semana isto durava o dia inteiro. Algumas pessoas eram corajosas o suficiente para vir nos visitar: assim que elas perceberam que éramos amistosos, o boca-a-boca começou a se espalhar e mais e mais pessoas queriam nos conhecer para conversar conosco e saber o que estávamos fazendo. O dono da lanchonete Dairy Joy, em Trinidad, nos disse então que se permitíssemos que ele colocasse uma placa dele em nossa propaganda ele nos daria sorvete de graça. Concordamos e erguemos aquele letreiro, que dizia: “Após sua visita a Drop City, faça uma parada no Dairy Joy.” O sujeito foi leal à sua palavra. À época, nós usávamos chapéus “dropper” que pareciam com kaftans, eles eram cobertos com lantejoulas e quinquilharias brilhantes. Sempre que aparecíamos no Dairy Joy com nossos chapéus, ganhávamos sorvete de graça.

[…]

Era como se fôssemos algum tipo de ser humano bizarro em exposição. As pessoas nunca haviam visto nada como nós. Estávamos lá em campo aberto, expostos. À medida em que o interesse aumentava, comecei a contar o número de visitantes nos fins-de-semana: lembro de contar mais de 120 pessoas em um único dia. Mas depois de um tempo, começou a ficar irritante ter de parar de trabalhar para conversar com eles. Pintamos, então, um novo letreiro na entrada: “Limite: apenas uma pergunta por visita.” Num certo momento, consideramos cobrar uma taxa de ingresso, mas ao invés disso instalamos uma caixa de doações. Não consigo lembrar de achar mais de 75 centavos nela: a própria caixa era ela mesmo um objeto cuidadosamente manufaturado. Acho que as pessoas simplesmente consideravam-na apenas mais um objeto curioso para olhar.

MATTHEWS, Mark. Droppers: America’s First Hippie Commune, Drop City. Norman: University of Oklahoma Press, pp. 93–94.

Anúncio da lanchonete Dairy Joy próximo de Drop City.
Anúncio da lanchonete Dairy Joy próximo de Drop City. Fonte: Matthews, 2010: 94
Letreiro na entrada de Drop City. Fonte: Matthews, 2010.
Letreiro na entrada de Drop City: “Drop City, visite à vontade. Bem vindos. Limite: apenas uma pergunta por visita.” Fonte: Matthews, 2010.

dome cookbook, algumas imagens

Algumas imagens de uma recém chegada cópia da primeira edição do lendário Dome Cookbook, de Steve Baer, publicado de forma semi-artesanal em 1968 pela Fundação Lama:

dome cookbook

dome cookbook

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dome cookbook

dome cookbook

dome cookbook

Segundo Fred Turner, professor de comunicação da Universidade Stanford:

Em fins da década de 1960, estes emblemas [os domos geodésicos de inspiração fulleriana] da inventividade americana do período da Guerra Fria e do desejo de sobreviver a um ataque nuclear se transforaram em símbolos de um modo de vida holístico. Buckminster Fuller havia construído um para sua própria casa em 1963. Por volta de 1965, Ken Kesey declarava entusiasticamente seu desejo em construir um domo para hospedar seus Acid Tests. Em 1967, as duas dúzias de fundadores da Drop City assistiram a uma palestra proferida por Fuller em Boulder (Colorado) e imediatamente se dispuseram a construir suas casas segundo os projetos de Fuller. Em 1968, Steve Baer, projetista principal de Drop City, publicou suas receitas construtivas em seu Dome Cookbook [‘Livro de receitas de domos’], o que constituiu a fagulha para uma explosão construtiva no contexto da contracultura. Duas das comunidades mais visitadas por Stewart Brand (Libre e Fundação Lama) logo começaram a levantar seus próprios domos. E em 1970 e 1971, Lloyd Khan (co-editor de Brand no Whole Earth Catalog), Jay Baldwin e vários outros membros da equipe do Catalog, utilizaram-se da própria estrutura do Catalog para produzir seus próprios manuais de construção de domos (Domebook One e Domebook Two).

TURNER, Fred. From Counterculture to Cyberculture. Stewart Brand, the Whole Earth Network and the Rise of Digital Utopianism. Chicago: The University of Chicago Press, 2006, p. 94.