sustentabilidade e sociedade

Algumas notas sobre a ideia de “desenvolvimento sustentável” tomadas da obra Naturalismo e biologização das cidades na constituição da ideia de meio ambiente urbano, de Marcos Virgílio da Silva:

O progressivo comprometimento de organismos internacionais com a causa do desenvolvimento sustentável traz certas implicações que devem ser notadas: acaba-se associando sub-repticiamente a adoção dos preceitos da globalização ao alcance de um “desenvolvimento sustentável”; corre-se o risco de aceitação sem questionamento dos processos dominantes de globalização, da forma como vêm sendo promovidos por esses órgãos (BID, Banco Mundial, OMC, FMI, etc.). Como observam Brand e Görg (2003), a institucionalização do desenvolvimento sustentável ao longo da última década também se deu “de cima”, com países hegemônicos fazendo prevalecer seus interesses em acordos internacionais como as convenções sobre o clima e a biodiversidade, e promovendo uma verdadeira “mercantilização da cultura” (Brand e Görg, 2003: 47).

A principal questão colocada é a respeito do papel da sustentabilidade: ponto de partida para uma remodelação ou reafirmação do capitalismo, num contexto de globalização neoliberal e transição para o “pós-fordismo”, ao invés de um projeto emancipador e visando à superação desse mesmo contexto. […] Talvez a principal matriz do discurso da sustentabilidade seja o discurso do “equilíbrio” ecossistêmico, e está pautada pela eficiência na utilização dos recursos naturais. Pela lógica da eficiência, sustentabilidade é motivada por “combate ao desperdício da base material do desenvolvimento, a instauração da racionalidade econômica na escala do planeta, a sustentação, enfim, do mercado como instância reguladora do bem-estar dos indivíduos na sociedade” (Acselrad, 2001: 32). De outro lado, tem-se a matriz que se preocupa em vincular a noção de sustentabilidade à de suficiência (ou seja, de limites ao crescimento). […] Em outras palavras, a justiça “intergeneracional” subjacente ao discurso da sustentabilidade “não pode, por certo, se sustentar legitimamente se não for apresentada de forma subordinada à muito palpável questão da justiça intrageneracional” (Acselrad, 2001: 35).

[…] As diversas vertentes do ambientalismo, como diferentes abordagens teóricas, implicam numa multiplicidade de interpretações e apreciações da “sustentabilidade”, de modo que a literatura pode ir de uma produção inteiramente comprometida com o ideal de “desenvolvimento sustentável” até uma que lhe é abertamente crítica.

[…]

Atualmente, há uma disputa particular em torno da ideia de sustentabilidade e dos rumos que o debate ambientalista tomará em seu nome. Com a crescente difusão de tal ideia no meio empresarial, percebe-se que o termo vem tendo seu uso pendido cada vez mais para as suas acepções “pragmáticas” e “realistas” — o que significa, primordialmente, uma desqualificação do ambientalismo “radical” e “utópico” daqueles que se propõem a, em nome da conservação e preservação ambiental, reformular as bases do sistema produtivo em função dos princípios da sustentabilidade.

Perdendo o conteúdo mais explicitamente crítico do sistema capitalista, a noção de desenvolvimentos sustentável acaba se reduzindo a um novo instrumento dos empresários para “agregar valor” (vide a publicidade promovida em torno das certificações como ISO 14 000 ou a implementação de sistemas de gestão ambiental), “conquistar novos mercados” ou simplesmente “melhorar a imagem corporativa” perante uma comunidade que se mostra cada vez mais atenta. Essa nova orientação tem também implicações no campo profissional: reduzida cada vez mais a uma questão de gestão, os profissionais destacados para os setores ligados a meio ambiente nas empresas passam a ser cada vez mais cobrados por qualificações ligadas à gestão de processos, atividades e os fluxos matéria-prima/produto/resíduos, num esvaziamento de qualquer conteúdo territorial ou mesmo sociocultural ligado à ideia de “ambiente”. Radicaliza-se, portanto, uma visão integralmente tecnocrática e apolítica das questões ambientais. Assim os empresários respondem, a seu modo, de qual sustentabilidade se trata.

SILVA, Marcos Virgílio da. Naturalismo e biologização das cidades na constituição da ideia de meio ambiente urbano. São Paulo: Alameda Editorial, 2014, pp. 180–185.

“Se você não á parte da solução, você é parte do problema.”
“Se você não á parte da solução, você é parte do problema.” Chamada para a lendária Conferência de Estocolmo de 1972.

bruno latour: dinâmica sociedade/natureza

Kasimir Malevitch. Paisagem com casa branca. Óleo sobre tela, 59x59 cm, 1929.
Kasimir Malevitch. Paisagem com casa branca. Óleo sobre tela, 59×59 cm, 1929. Disponível em http://www.wikiart.org/en/kazimir-malevich/landscape-with-white-house-1929

Um dos trechos mais interessantes do clássico Jamais fomos modernos, de Bruno Latour:

A potência da crítica

Hoje, quando as capacidades críticas dos modernos se esgotam, é conveniente medir, pela última vez, sua prodigiosa eficácia.

Liberados da hipoteca religiosa, tornaram-se capazes de criticar o obscurantismo dos antigos poderes ao desvelarem os fenômenos naturais que estes dissimulavam — ao mesmo tempo em que inventavam os fenômenos na redoma artificial do laboratório. As leis da natureza permitiram que as primeiras Luzes demolissem totalmente as pretensões malfundamentadas dos preconceitos humanos. […] O obscurantismo das idades passadas, que misturavam indevidamente necessidades sociais e realidade natural, foi substituído por uma aurora luminosa que separava claramente os encadeamentos naturais e a fantasia dos homens. As ciências naturais definiam a natureza e cada disciplina foi vivenciada como uma revolução total através da qual ela se separava enfim do Antigo Regime. Ninguém é moderno se não sentiu a beleza dessa aurora e não vibrou com suas promessas.

Mas a crítica não se dirigiu somente da natureza para os preconceitos humanos. Logo começou a percorrer a outra direção, que levava das ciências sociais recém-fundadas rumo à falsa natureza. Estas foram as segundas Luzes, as do século XIX. Desta vez, o conhecimento preciso da sociedade e de suas leis permitiu criticar não apenas os preconceitos do obscurantismo usual, como também os novos preconceitos das ciências naturais. Solidamente apoiado pela ciência da sociedade, tornava-se possível distinguir nas outras ciências uma parte realmente científica e uma outra devida à ideologia — a acusação crítica por excelência. […] Todas as formas de pensar de outrora — aí incluídas certas ciências — tornaram-se ineptas ou aproximativas. Ou antes uma sucessão de revoluções radicais criou, por contraste, um “outrora” obscuro que em breve seria dissipado pela aurora luminosa das ciências sociais. As armadilhas da naturalização e da ideologia científica se dissipavam, finalmente. Ninguém é moderno se não ansiou por esta aurora e não vibrou com suas promessas.

Tornou-se mesmo possível aos invencíveis modernos combinar as duas, tomando as ciências naturais como forma de criticar as falsas pretensões do poder e utilizando as certezas das ciências humanas para criticar as falsas pretensões das ciências e da dominação científica. O saber total estava, enfim, ao alcance da mão. Se o marxismo pareceu, durante um longo tempo, incontornável, foi porque na verdade cruzava os dois recursos mais poderosos que já foram desenvolvidos pela crítica e os congelava para sempre. Permitia que fosse conservada a parte de verdade das ciências naturais e sociais, ao mesmo tempo em que eliminava cuidadosamente sua parte maldita, sua ideologia. […] Quem nunca sentiu vibrar dentro de si esta dupla potência, ou quem nunca foi obstinado pela distinção entre o racional e o irracional, entre falsos saberes e verdadeiras ciências, jamais foi moderno.

Solidamente apoiado sobre a certeza transcendental das leis da natureza, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais e às dominações não justificadas. Solidamente apoiado sobre a certeza de que o homem constrói seu próprio destino, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais, às ideologias científicas, à dominação não justificada dos especialistas que pretendiam traçar limites à ação e à liberdade. […] A natureza transcendente permanece, apesar de tudo, mobilizável, socializável, humanizável. Os laboratórios, as coleções, os centros de cálculo e de lucro, os institutos de pesquisa e os escritórios de desenvolvimento misturam essa natureza, diariamente, aos múltiplos destinos dos grupos sociais. Inversamente, apesar de construirmos a sociedade por inteiro, ela dura, elas nos ultrapassa, nos domina, ela tem suas leis, é tão transcendente quanto a natureza. Isto porque os laboratórios, as coleções, os centros de cálculo e de lucro, os institutos de pesquisa e os escritórios de desenvolvimento traçam diariamente os limites da liberdade dos grupos sociais e transformam as relações humanas em coisas duráveis que ninguém criou. É nesta dupla linguagem que reside a potência crítica dos modernos: podem mobilizar a natureza do seio das relações sociais, ao mesmo tempo em que a mantêm infinitamente distante dos homens; são livres para construir e desconstruir sua sociedade, ao mesmo tempo em que tornam suas leis inevitáveis, necessárias e absolutas.

LATOUR, Bruno. [1991] Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 2013, pp. 40–42.

trecho de entrevista de buckminster fuller sobre domos

Algumas palavras de Buckminster Fuller sobre o uso de domos geodésicos. É evidente o recurso à naturalização (ou biologização) de estruturas arquitetônicas por meio do uso (um tanto quanto forçoso) de metáforas de estruturas biológicas, bem como do discurso da aplicação de menores recursos para a obtenção de maiores resultados. O mais curioso é o fato de Fuller ter sido alertado da metáfora biológica apenas depois das fotografias de seus domos terem sido publicadas.

califórnia, 1971: whole earth catalog em produção

Seguem algumas raras imagens dos processos de concepção e produção do periódico Whole Earth Catalog, filmadas na Califórnia, em 1971, pelo seu editor Stewart Brand. Entre as imagens, encontram-se momentos de construção dos lendários domos geodésicos fullerianos adorados pela cultura hippie do período, assim como das estruturas infláveis utilizadas pelo coletivo Ant Farm. O vídeo foi disponibilizado no Youtube por Kevin Kelly (um dos criadores da revista Wired) e está acompanhado de comentários do próprio Brand.

Comentários de Brand:

Sequência de eventos: filmagens casuais de Seal Rocks, São Francisco; um “Novo Jogo” que eu inventei envolvendo o uso de vendas nos olhos; as fontes termais em Saline Valley, a 70 milhas do telefone mais próximo; a instalação do gerador que iria alimentar os ventiladores para a produção do escritório inflável e seu equipamento; solda das estruturas que manteriam o inflável preso; nivelamento de uma plataforma para o inflável (estou em algumas das cenas); o inflável se inflando; o trailer Airstream em que eu vivia, naqueles tempos, com minha esposa Lois; neve nas montanhas (era janeiro); interiores do inflável durante a instalação dos equipamentos e da mobília; construção de uma sala escura geodésica para o trabalho fotográfico; início da produção, leiaute das páginas, formatação do texto, etc; o vento balançando tudo; o mamilo de Barbara DeZonia; tentativa de resolver o problema com o vento na frágil cobertura; minha caminhonete servindo de âncora para um dos vértices do inflável; reinício da produção no Airstream; brincadeiras no topo da membrana inflável translúcida; produção de meios-tons fotográficos na sala escura; visita de um pequeno avião; e então de volta à base em Menlo Park, onde um avião era construído; muitas cenas escuras. Elenco: Hal Hershey, Barbara e Bud DeZonia, Fred Richardson, Stewart e Lois Brand; do grupo Ant Farm: Andy Shapiro, Jow Hall, Curtis Schreier.

dome cookbook, algumas imagens

Algumas imagens de uma recém chegada cópia da primeira edição do lendário Dome Cookbook, de Steve Baer, publicado de forma semi-artesanal em 1968 pela Fundação Lama:

dome cookbook

dome cookbook

dome coobook

dome cookbook

dome cookbook

dome cookbook

Segundo Fred Turner, professor de comunicação da Universidade Stanford:

Em fins da década de 1960, estes emblemas [os domos geodésicos de inspiração fulleriana] da inventividade americana do período da Guerra Fria e do desejo de sobreviver a um ataque nuclear se transforaram em símbolos de um modo de vida holístico. Buckminster Fuller havia construído um para sua própria casa em 1963. Por volta de 1965, Ken Kesey declarava entusiasticamente seu desejo em construir um domo para hospedar seus Acid Tests. Em 1967, as duas dúzias de fundadores da Drop City assistiram a uma palestra proferida por Fuller em Boulder (Colorado) e imediatamente se dispuseram a construir suas casas segundo os projetos de Fuller. Em 1968, Steve Baer, projetista principal de Drop City, publicou suas receitas construtivas em seu Dome Cookbook [‘Livro de receitas de domos’], o que constituiu a fagulha para uma explosão construtiva no contexto da contracultura. Duas das comunidades mais visitadas por Stewart Brand (Libre e Fundação Lama) logo começaram a levantar seus próprios domos. E em 1970 e 1971, Lloyd Khan (co-editor de Brand no Whole Earth Catalog), Jay Baldwin e vários outros membros da equipe do Catalog, utilizaram-se da própria estrutura do Catalog para produzir seus próprios manuais de construção de domos (Domebook One e Domebook Two).

TURNER, Fred. From Counterculture to Cyberculture. Stewart Brand, the Whole Earth Network and the Rise of Digital Utopianism. Chicago: The University of Chicago Press, 2006, p. 94.

“arte é cultura é natureza”

Parece ser pauta comum a diferentes discursos nos anos 1960 e 1970 (alguns de ordem contracultural, outros com pretensão científica, hegemônica) a constituição de uma esfera comum entre natureza e cultura, entre o artificial e o orgnânico. É o que também sugere o depoimento abaixo.

thefarm

“Arte é cultura é natureza”, declarara a artista Bonnie Sherk, cuja literalmente arrasadora Crossroads Community (The Farm), localizada no distrito Potrero de São Francisco, introduziu a noção de “estrutura de vida” [“life-frame”] […]. Uma construção rural superimposta a uma decadente área industrial urbana próxima a uma via elevada (na qual Sherk plantou palmeiras e posicionou, temporariamente, uma vaca e fardos de feno, para a surpresa dos motoristas que por ali passavam), The Farm, como Jana Blankenship aponta, era um “mini-ecossistema” e teatro de vida, oferecendo um “ambiente não-hierarquizado”, multicultural, “no qual todas as formas de vida seriam participantes integrais.” O desaparecimento em 1987 deste último refúgio da ecotopia dos anos 1960 me torna retrospectivamente triste nestes tempos de esperanças reduzidas.

Lucy Lippard, Memory as Model (Prefácio). In: Auther, Elissa; Lerner, Adam (org.). West of Center. Art and the Counterculture Experiment in America, 1965–1977. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2012.

google ngram viewer: “ambiente” e “natureza”

Uma das ferramentas mais interessantes e menos conhecidas do Google é o Ngram Viewer. Com ela é possível avaliar, em diferentes línguas, o crescimento ou recuo do uso de determinadas palavras entre os anos 1800 e 2000. Como a Google já digitalizou e indexou uma quantidade gigantesca de livros, em diferentes edições e formatos, ela consegue construir um complexo banco de dados a partir da imensa quantidade de informações extraídas deles. A partir deste banco de dados, é possível gerar gráficos de uso de palavras ao longo do tempo.

A Wikipédia define “enegrama” (ou “n-gram”) como a sequência contígua de aparições de um grupo específico de unidades em uma determinada sequência de texto ou discurso (por exemplo: na sequência “ser ou não ser”, o grupo “ser” aparece 2 vezes). Trata-se de algo próprio do campo da computação e da probabilidade que, pela sua peculiaridade, pode ser aplicado a grandes quantidades de caracteres como aqueles encontrados em livros.

Guardada certa licença poética na aplicação deste instrumento tão frio à análise crítica de um imenso corpo documental (como é o caso do conjunto de livros escaneados pela Google), ele no entanto nos fornece alguns indicativos efetivamente  interessantes, ao apontar os momentos históricos em que certas palavras (e, portanto, certas ideias ou tendências) estariam mais ou menos em voga.

Utilizando-se a base de dados de livros publicados em língua inglesa, a incidência das palavras “environment” e “nature” gera alguns gráficos curiosos. Ressalte-se, porém, a já citada “licença poética” para o uso desta ferramenta: ela no máximo nos permite avaliar a quantidade de vezes que se usou uma palavra, não efetivamente o sentido atribuído a ela. Pode-se usar a palavra “natureza”, por exemplo, para falar da “natureza” das coisas ou para falar da “natureza” como normalmente entendida hoje pelas pessoas. Mesmo tendo em vista esta ressalva, os gráficos são interessantes pelas indicações que eles fornecem.

A começar por “environment”: ainda que esta palavra nem sempre estivesse associada ao sentido vulgarmente dado a ela hoje (“meio ambiente” ou “natureza”, por extensão, etc), o gráfico abaixo explicita a explosão de usos da palavra a partir de meados dos anos 60 e 70, quando o sentido atual começa a ser generalizado.

environment

O forte aumento no uso da palavra acompanha o crescimento do movimento ambientalista a partir de meados dos anos 1960, bem como episódios usualmente retratados como importantes, como a Conferência de Estocolmo, a criação da EPA nos EUA e a influência do Clube de Roma. Curiosamente, a partir da institucionalização do ambientalismo e seu acolhimento por parte da ordem capitalista vigente (que se seguiu a tais episódios), houve certa estabilização no uso da palavra — o que coincide também com as gestões Reagan e Tatcher. Entre os fins da década de 1980 e ao longo dos anos 1990 houve novo crescimento. É de se notar também, curiosamente, a queda no uso da palavra no período da II Guerra Mundial.

Quando a palavra “nature” é analisada junto de “environment”, é gerado o surpreendente gráfico abaixo, quase sugerindo um certo desconforto contemporâneo com “natureza” e sua gradual substituição por “ambiente”.environment-nature

Finalmente, testando a expressão “ambiente construído”, somos apresentados à imagem abaixo. A explosão de uso desta expressão acompanha o crescimento do interesse por “ambiente” ao longo dos anos 1960 e 1970, apresentando apenas uma leve queda em meados dos anos 1990.

builtenvironment

o advento do 'meio-ambiente'

Em um dado momento do século XX, o conceito de “meio-ambiente” passou a frequentar de modos variados o imaginário das pessoas —seja pela sua presença cada vez mais constante na cultura de massas, seja pela forma como ele se integrou à agenda política e social —, tendo sido incorporado pelo vocabulário ideológico do capital como forma de se reinventar. Se o ‘meio-ambiente’ como categoria de análise do mundo e como plataforma de ação surgiu primeiro em movimentos contraculturais vários (e, numa outra medida, também no mundo acadêmico), ele foi logo adotado por organismos e empresas globais como elemento ideológico de autopreservação — “responsabilidade ambiental” tem sido o principal álibi do capital contra os ataques a ele dirigidos. O que é a atual ideia de sustentabilidade senão o instrumento usado pelo capitalismo para transformar a degradação em mercadoria (quantificável e negociável)?

Nos discursos arquitetônicos o advento do ‘ambiente’ como expressão de uma pauta política (em teoria) inovadora entra em contato (ora em choque, ora em complemento) com a ideia de “ambiente construído” que frequentava o vocabulário da época e que já gozava há algum tempo de um certo prestígio como designadora do campo intelectual específico da arquitetura enquanto disciplina.

método das camadas de ian mcharg
planejamento paisagístico-ambiental de ian mcharg. Fonte: http://bit.ly/thsKsB

Reinhold Martin, professor da Universidade de Columbia que já havia sido citado na postagem “‘pense diferente'”, tece os seguintes comentários sobre a construção em meados dos anos 70 da pauta do ambientalismo e dos discursos que fatalmente levariam à noção hoje tão falaciosa de sustentabilidade (e cuja falácia lá já se encontrava em estado germinal):

[…] No dia 1º de janeiro de 1970, o presidente dos EUA, Richard M. Nixon, sancionou a Lei da Política Ambiental Nacional (National Environmental Policy Act, NEPA), declarando que “os anos 70 devem absolutamente ser aqueles em que a América pague sua conta com o passado reivindicando a pureza de seu ar, de suas águas, e nosso ambiente de vida. É literalmente agora ou nunca.” Em 10 de fevereiro do mesmo ano Nixon delineou um programa antipoluição de 37 pontos, destacando que “na medida em que aprofundemos nossa compreensão de processos ecológicos complexos […] muito mais será possível.” Ao assinar o NEPA e ao assinar tais medidas antipoluentes Nixon, de modo implícito, invocou uma série de construções que eram simultaneamente buscadas por arquitetos e teóricos da arquitetura, entre outros. Fundamental entre tais construções estava um problema humano implícito, o habitante do “ambiente.” Para Nixon, assim como para muito do discurso ambiental e ecológico, este problema era um instrumento de integração a uma totalidade sociopolítica, ainda que com fins diversos. Mas o que espero aqui esclarecer é o nível com que o discurso arquitetônico também invocou este mesmo problema em uma tentativa de isolar a arquitetura como tal das forças sociotecnológicas e sociopolíticas em operação no discurso sobre o “ambiente”

[…]

Entre os encaminhamentos presentes na lei sancionada por Nixon (que resultou na formação da Agência de Proteção Ambiental mais tarde naquele ano) encontrava-se um que autorizava e orientava todas as agências federais a “utilizarem uma abordagem sistemática, interdisciplinar, que garantirá o uso integrado das ciências sociais e naturais assim como das artes do projeto ambiental no planejamento e na tomada de decisões que podem apresentar impacto no ambiente do homem.” Neste sentido, as “artes do projeto ambiental” encontravam-se bem preparadas. Por exemplo, em 1972 foi lançado o sétimo volume da série Vision + Value, editada pelo artista e teórico visual (assim como professor no MIT) Gyorgy Kepes, intitulado Arts of the Environment[Artes do ambiente]. Este livro, assim como os que o precederam na série, tomou o requisito interdisciplinar de modo consideravelmente literal, não por responder diretamente a ele (Kepes não era nenhum Nixonita) mas ao contrário ao empregar o que a legislação chamara de uma “abordagem sistemática, interdisciplinar” integrando as “ciências sociais e naturais” com “as artes do projeto ambiental”, um quadro que até então era típico do discurso ecológico. De fato, Kepes via tanto a arte quanto a humanidade no limiar de uma segunda ordem de adaptação evolucionária, uma “evolução autoconsciente” regulada pela comunicação social, na qual as aspirações de “vida repleta de arte” das vanguardas do início do século XX (nas quais Kepes tinha suas raízes) foram substituídos por uma simbiose “homem e ambiente” regulada por um complexo conhecimento interdisciplinar.

[…]

A iniciativa ambiental de Nixon também apareceu brevemente na época na obra Design, Nature and Revolution: Toward a Critical Ecology[Projeto, natureza e revolução: por uma egologia crítica], de Tomás Maldonado, a qual era a tradução revisada para o inglês publicada em 1972 de seu livro La speranza progettuale de 1970. Maldonado, que havia dirigido a Escola Técnica Superior da Forma em Ulm [Technische Hochshcule für Gestaltug] entre 1954 e 1867 com uma ênfase em uma ciência racionalizada do projeto, destacava a origem do termo ecologia no grego oikos, que significava “casa” ou “lar” e que também integra a raiz da palavra economia, com ambos os termos traduzindo etimologicamente como o “estudo” e a “administração” do lar, respectivamente. Apesar de Maldonado ter notado o sentido etimológico de ecologia, ele não notou a conexão com a economia, preferindo ao invés disto adotar a abordagem sistemática de Ludwig von Bertalanffy por meio de uma análise do “sistema social” construído em torno de uma oposição entre sistemas abertos e fechados, derivada da escola pós-weberiana de sociologia americana formada nos anos 1950 ao redor de Talcott Parsons. Este quadro referencial leva Maldonado a ler as revoltas mal-sucedidas ocorridas no fim da década de 60 através da noção de “equilíbrio dinâmico” de um sistema, uma tendência que absorveria e neutralizaria o conflito. E então nós o vemos referindo-se sarcasticamente à campanha ambiental de Nixon como uma evidência de uma neutralização, um fechamento autoritário imposto a um sistema social, refletida na apropriação de protocolos ecológicos, ou o que Maldonado chama de “moda da ecologia.” Como é colocado por ele em uma das muitas e extensas notas de rodapé de seu livro: “De fato, de um dia para outro, como se eles estivessem respondendo a um Diktat, todos os principais veículos da imprensa americana — Time, Newsweek, Life, Fortune, Business Week e até mesmo Playboy — ficaram extremamente interessados no tema.” Consequentemente, para Maldonado, a transformação era simples: “O escândalo da sociedade está culminando no escândalo da natureza.” Mas o verdadeiro escândalo, para o qual Maldonado permanece insensível apesar de seu discernimento crítico, encontra-se na naturalização de “ambiente” como um sistema significativo. [o último grifo é meu]

MARTIN, Reinhold. “Language — Environment, c. 1973” in Utopia’s Ghost. Architecture and Postmodernism, again. Minneapolis: University of Minnesota Press, 2010; pp. 50–54

Não é preciso lembrar: em 1972 ocorreu a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano (mais conhecida como Conferência de Estocolmo), considerada pelos ambientalistas como um marco de início de um pensamento que mais tarde estaria associado ao que o capitalismo chama de desenvolvimento sustentável. Dois anos antes a ONU também passaria a celebrar anualmente o “Dia da Terra” em 22 de abril.

tomás maldonado; projeto, natureza e revolução
fonte: http://bit.ly/uBiaeu

Martin segue explorando a problemática arquitetônica deste contexto de coisas (indo de Venturi a Einsenman, analisando as implicações discursivas que as diferentes formas de se apropriar das expressões sendo trabalhadas naquele momento propiciavam). Em particular, desenvolve uma curiosa e bem-articulada associação entre a busca de autonomia disciplinar realizada neste mesmo período pelas neovanguardas com uma espécie de “atitude protecionista” por parte da profissão, que estava prestes a sofrer profundas alterações com o vindouro processo de financeirização da mesma maneira que Estados tentavam — com as últimas medidas protecionistas levadas a cabo naquele momento e que logo se mostrariam ineficazes — evitar as transformações estruturais do capital, as quais, no entanto, eles iriam de todo modo logo assimilar.

Ao concluir o capítulo, destaca o seguinte:

Em 15 de agosto de 1971, Nixon promoveu nova iniciativa discursiva, a qual ele relatou em um informe televisionado sobre a política econômica: “Solicitei ao Secretário [da Fazenda, John B.] Connaly que suspendesse temporariamente a conversibilidade  do dólar no ouro ou em outras reservas.” Tal medida, uma tentativa protecionista de estancar a inflação ascendente, tornou-se permanente em 1973. Aquele ano também assistiu à substancial elevação no fluxo de petrodólares especulativos como resultado do quádruplo aumento nos preços da energia durante o embargo de petróleo da OPEP, o qual efetivamente minou os esforços do estado para proteger sua moeda. […] Nas décadas posteriores [ao acordo de Bretton Woods, que vinculava o dólar ao padrão-ouro], através de ciclos inflacionários, o suprimento de dólares no mercado internacional chegou a exceder enormemente às reservas de ouro mantidas pelo Tesouro estadunidense. Em outras palavras, na linguagem da semiótica, o signo desvinculou-se de seu referente, ou o significante de seu significado.

[…]

Era neste contexto [o autor refere-se aqui ao início de um período histórico em que o capitalismo passa a se caracterizar por intensa financeirização] que Nixon também declarou, ao assinar a lei do Programa das Nações Unidas para o Ambiente de 1973 que “nós possuímos a Terra — seu ambiente e seus recursos para a confiança das futuras gerações,” uma assertiva que mais uma vez colaborava no obscurecimento da função pragmática de seu ambientalismo, em um momento em que sempre crescentes camadas de abstração lógico-matemática de uma economia global das materialidades — seja na forma de trabalho, terra, petróleo ou edifícios — de que o valor era originalmente extraído. […]

Idem, ibidem, pp. 64–65

Whole Earth Catalog de Stewart Brand
Whole Earth Catalog de Stewart Brand (de um velho hippie tecnológico a um emprendedor da "economia criativa")