bruno latour: memória, história e tempo

Alguns comentários sobre a invenção da memória e da história em Jamais fomos modernos:

De onde nos vem a ideia de um tempo que passa? Da própria Constituição moderna. A antropologia está aí para nos lembrar que a passagem do tempo pode ser interpretada de diversas formas, como ciclo ou como decadência, como queda ou como instabilidade, como retorno ou como presença continuada. Chamemos de temporalidade a interpretação dessa passagem, de forma a distingui-la claramente do tempo. Os modernos têm a particularidade de compreender o tempo que passa como se realmente abolisse o passado antes dele. […]

[…] Como Nietzche havia observado, os modernos têm a doença da história. Querem guardar tudo, datar tudo, porque pensam ter rompido definitivamente com seu passado. Quanto mais revoluções eles acumulam, mais eles conservam; quanto mais capitalizam, mais colocam no museu. A destruição maníaca é paga simetricamente por uma conservação também maníaca. Os historiadores reconstituem o passado nos mínimos detalhes com um cuidado muito maior, pois este se perdeu para sempre. Estaremos realmente tão distantes do nosso passado quanto desejamos crer? Não, já que a temporalidade moderna não tem muito efeito sobre a passagem do tempo. O passado permanece, ou mesmo retorna. E esta ressurgência é incompreensível para os modernos. Tratam-na então como um retorno do que foi recalcado. Fazem dela um arcaísmo.

Se existe algo que somos incapazes de fazer, podemos vê-lo agora, é uma revolução, quer seja na ciência, na técnica, em política ou filosofia. Mas ainda somos modernos quando interpretamos este fato como uma decepção, como se o arcaísmo houvesse invadido tudo, como se não existisse mais um depósito de lixo onde fosse possível empilhar o que foi recalcado. Ainda somos pós-modernos quando tentamos ultrapassar essa decepção através da justaposição, por colagem de elementos de todos os tempos, todos igualmente ultrapassados, fora de moda.

LATOUR, Bruno. [1991] Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora, 34, 2013, pp. 67–69

bruno latour: dinâmica sociedade/natureza

Kasimir Malevitch. Paisagem com casa branca. Óleo sobre tela, 59x59 cm, 1929.
Kasimir Malevitch. Paisagem com casa branca. Óleo sobre tela, 59×59 cm, 1929. Disponível em http://www.wikiart.org/en/kazimir-malevich/landscape-with-white-house-1929

Um dos trechos mais interessantes do clássico Jamais fomos modernos, de Bruno Latour:

A potência da crítica

Hoje, quando as capacidades críticas dos modernos se esgotam, é conveniente medir, pela última vez, sua prodigiosa eficácia.

Liberados da hipoteca religiosa, tornaram-se capazes de criticar o obscurantismo dos antigos poderes ao desvelarem os fenômenos naturais que estes dissimulavam — ao mesmo tempo em que inventavam os fenômenos na redoma artificial do laboratório. As leis da natureza permitiram que as primeiras Luzes demolissem totalmente as pretensões malfundamentadas dos preconceitos humanos. […] O obscurantismo das idades passadas, que misturavam indevidamente necessidades sociais e realidade natural, foi substituído por uma aurora luminosa que separava claramente os encadeamentos naturais e a fantasia dos homens. As ciências naturais definiam a natureza e cada disciplina foi vivenciada como uma revolução total através da qual ela se separava enfim do Antigo Regime. Ninguém é moderno se não sentiu a beleza dessa aurora e não vibrou com suas promessas.

Mas a crítica não se dirigiu somente da natureza para os preconceitos humanos. Logo começou a percorrer a outra direção, que levava das ciências sociais recém-fundadas rumo à falsa natureza. Estas foram as segundas Luzes, as do século XIX. Desta vez, o conhecimento preciso da sociedade e de suas leis permitiu criticar não apenas os preconceitos do obscurantismo usual, como também os novos preconceitos das ciências naturais. Solidamente apoiado pela ciência da sociedade, tornava-se possível distinguir nas outras ciências uma parte realmente científica e uma outra devida à ideologia — a acusação crítica por excelência. […] Todas as formas de pensar de outrora — aí incluídas certas ciências — tornaram-se ineptas ou aproximativas. Ou antes uma sucessão de revoluções radicais criou, por contraste, um “outrora” obscuro que em breve seria dissipado pela aurora luminosa das ciências sociais. As armadilhas da naturalização e da ideologia científica se dissipavam, finalmente. Ninguém é moderno se não ansiou por esta aurora e não vibrou com suas promessas.

Tornou-se mesmo possível aos invencíveis modernos combinar as duas, tomando as ciências naturais como forma de criticar as falsas pretensões do poder e utilizando as certezas das ciências humanas para criticar as falsas pretensões das ciências e da dominação científica. O saber total estava, enfim, ao alcance da mão. Se o marxismo pareceu, durante um longo tempo, incontornável, foi porque na verdade cruzava os dois recursos mais poderosos que já foram desenvolvidos pela crítica e os congelava para sempre. Permitia que fosse conservada a parte de verdade das ciências naturais e sociais, ao mesmo tempo em que eliminava cuidadosamente sua parte maldita, sua ideologia. […] Quem nunca sentiu vibrar dentro de si esta dupla potência, ou quem nunca foi obstinado pela distinção entre o racional e o irracional, entre falsos saberes e verdadeiras ciências, jamais foi moderno.

Solidamente apoiado sobre a certeza transcendental das leis da natureza, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais e às dominações não justificadas. Solidamente apoiado sobre a certeza de que o homem constrói seu próprio destino, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais, às ideologias científicas, à dominação não justificada dos especialistas que pretendiam traçar limites à ação e à liberdade. […] A natureza transcendente permanece, apesar de tudo, mobilizável, socializável, humanizável. Os laboratórios, as coleções, os centros de cálculo e de lucro, os institutos de pesquisa e os escritórios de desenvolvimento misturam essa natureza, diariamente, aos múltiplos destinos dos grupos sociais. Inversamente, apesar de construirmos a sociedade por inteiro, ela dura, elas nos ultrapassa, nos domina, ela tem suas leis, é tão transcendente quanto a natureza. Isto porque os laboratórios, as coleções, os centros de cálculo e de lucro, os institutos de pesquisa e os escritórios de desenvolvimento traçam diariamente os limites da liberdade dos grupos sociais e transformam as relações humanas em coisas duráveis que ninguém criou. É nesta dupla linguagem que reside a potência crítica dos modernos: podem mobilizar a natureza do seio das relações sociais, ao mesmo tempo em que a mantêm infinitamente distante dos homens; são livres para construir e desconstruir sua sociedade, ao mesmo tempo em que tornam suas leis inevitáveis, necessárias e absolutas.

LATOUR, Bruno. [1991] Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 2013, pp. 40–42.

helvetica e borracha

Helvetica/Arial
Helvetica (acima) e Arial (abaixo)

De uma única vez, na fotografia abaixo, desaparecem dois dos referenciais visuais mais significativos do Metrô de São Paulo: de um lado, o famoso piso de borracha preto que acompanhou seus usuários durante algumas décadas, substituído por placas de granito cinza. De outro lado, no letreiro branco, desaparece a usual Helvetica, trocada desajeitadamente pela Arial. No primeiro caso, a justificativa envolve a resistência mecânica, facilidade de manutenção e menor consumo de energia elétrica para iluminar os ambientes. No segundo, parece ser mesmo descuido na troca de programação visual.

Tratam-se de dois curiosos índices de uma modernidade incompleta que conviveram anos conosco: sua substituição por versões mais vulgares de si mesmos (ainda que, no caso do tipo, seja aparentemente uma substituição distraída) talvez explicitem apenas a impossibilidade efetiva de tal processo de modernização nesta periferia em que vivemos. Os edifícios do Metrô possivelmente constituíam os exemplares da arquitetura moderna tardia paulista que mais eram frequentados pela maior parte da população. Em certo sentido, tratavam-se da única efetiva presença do Estado em suas vidas, ainda que em um contexto de violência institucionalizada e provação cotidiana. Nesta periferia do capitalismo cuja força de trabalho é obrigada a lutar pelas suas próprias condições de reprodução, ao invés de tê-las garantidas como no capitalismo de bem-estar social de outrora na Europa, o Metrô é ao mesmo tempo sinal de violência e de mínima ordem para a maioria. Diariamente as pessoas convivem com uma cenografia de modernidade que nada apresenta além de sua aparência: é neste sentido, talvez, que a troca dos materiais sofisticados (borracha industrial e tipografia celebrada pela história do design) por materiais vulgares (pedra e uma versão genérica da Akzidenz Grotesk) faça tanto sentido.

arial no Metrô?As estações do Metrô constituem de fato uma teia de significados para fatia relevante da população que habita a metrópole paulista. É, em certo sentido, e apenas por conta desta teia, uma espécie de veículo de memória, suporte de representações cotidianas que poderia facilmente ser categorizado como “patrimônio cultural” paulistano. Não se trata de qualquer proposição de ufanismo ou celebração da cidade e de seus mitos: quando digo tratar-se de “patrimônio”, penso mais na dimensão conflitiva que tradicionalmente se associa a esta categoria do que propriamente qualquer valor positivo que se atribua a ele.

Os índices visuais de que temos falado (o plurigoma emborrachado agora trocado por granito vulgar; a Helvetiva agora substituída distraidamente, ao que parece, pela igualmente vulgar Arial; o forro em cores vivas; o concreto aparente de sua estrutura, os relógios redondos suspensos do teto; etc) materializam uma espécie de ritualística diariamente praticada por cidadãos de todos os cantos da cidade. O Metrô materializa uma espécie de dialética da malandragem que regula a vida do povo paulista: a ordem que ele supostamente representa é repentinamente contraposta à suposta desordem urbana em que se insere.

Talvez valesse a pena pedir até mesmo o tombamento do piso emborrachado e dos letreiros em Helvetica: durante todos os anos em que eles foram atores fundamentais em constituir esta cenografia de modernidade que o Metrô representa eles colaboraram com este conjunto de rituais a que os paulistanos se submetem. “Preservá-los”, neste sentido, nos ajudaria a lembrar sempre da ironia patética que vivemos, ao nos submetermos a tal dialética malandra que nos opõe em uma mesma jornada ordem e desordem como se tal fosse um fenômeno natural.

zona leste

anos 90, pós-modernidade, arquitetura

Em 1996 foi publicado o livro Reconstructing Architecture, editado pelos pesquisadores Thomas Dutton e Lian Hurst Mann. A publicação reúne artigos versando em maior ou menor grau sobre a necessidade e a possibilidade de construção de um “projeto social” — conceito não muito bem definido a princípio, mas que ganha relevos mais claros à medida em que os argumentos são expostos — na prática arquitetônica contemporânea. O livro, que pertence à série Pedagogia e prática cultural editada por Henry Giroux e Roger Simon, chamou minha atenção particularmente por ser o único trabalho acadêmico que já encontrei no campo da arquitetura, fora do Brasil, a citar a obra do educador Paulo Freire (especificamente no artigo do próprio Dutton sobre pedagogia crítica e estudos culturais na arquitetura). Reconstructing Architecture é daqueles títulos espertos: tanto pode significar “reconstruindo a arquitetura” como “arquitetura reconstrutora”.

No texto introdutório à coletânea (“Modernismo, pós-modernismo e projeto social da arquitetura”, pp. 1–26), de autoria de Dutton e Mann, procura-se oferecer ao leitor um panorama do contexto social e político que levou à reunião dos artigos e publicação do livro. Ainda que não se aprofunde na análise de tal conjuntura, os autores nos fornecem um retrato relevante da forma como se tratava a aparente fragmentação da esquerda nos EUA naqueles anos Reagan-Bush-Clinton (esquerda que congregava movimentos que iam do marxismo ao “liberalismo” social da ala mais progressista Partido Democrata, passando por grupos de defesa de direitos civis e ligados a questões de raça e gênero). Anos mais tarde, David Harvey em Espaços da esperança comentaria a respeito do efeito da miríade de agendas de cada um dos vários grupos que movimentaram os anos 60–80 (ambientalistas, feministas, movimentos pelos direitos das populações afro-americanas, LGBT, etc).

Segundo Dutton e Mann:

[…] One of the greatest contribuitions of both gender- and race-based theories is their challenge to the inherent totalizing power of “class” and the legitimacy of socialism itself. Those who have believed, based on analysis of the historical evolution of property relations, that sexism and racism both predate capitalism and have often been prevalent in state socialist models argue for the relative autonomy of male supremacy white European chauvinism even within the bounds of capitalism — both in the ideological realm and the arena of actual practice. But at times, this belief has been used to evade understanding of the constitutive character that structural suppresion and exploitation of women and peoples of color possess in capitalist economics, politics and culture, as well as evading the undeniable rise of this phenomenon precisely as capitalism is moving to homogenize again in international working-class. The task of disaggregating gender and race temporarily as a way to reintroduce them into a new configuration with class has never been more urgent than today. When the very character of the increasingly immiserated working class throughout the world is overwhelmingly female and multiethnic, efforts to segregate the theoretical pursuits of cultural studies, women’s studies, and Black, Latino, Asian Pacific Islander, and Native American studies from the analysis of the increasingly ruthless nature of class-driven transnational capitalism and its drive to recolonize will only contribute to that very recolonization. In other words, if we continue to swim in the fragmentary and bask in disaggregation, the universals of capitalism’s requirement of expansion will relentlessly reorganize the world. Meanwhile, masking big sticks, big ideologies, and big economic maneuvers, the apparent atomization of the social succesfully achieves hegemony by disorientation. [pp. 09–10]

Em Pedagogia da Esperança Paulo Freire cita um congresso de que participou nos EUA, nos anos 80, em que teve de lidar com um conjunto de representantes de movimentos sociais diversos que, aparentemente, não se entendiam e não conseguiam articular para além da fragmentação, enfraquecendo-se mutuamente. Dutton e Mann, nos anos 90, parecem estar preocupados com o avanço da fragmentação não apenas como aspecto da prática, mas como mesmo uma estratégia intelectual.

O trecho seguinte lembra os grunhidos de certos colunistas da grande mídia brasileira.

[…] Ironically, postmodern theorists — raising disorganization to a principle — are no match for the newly organized Right. One succesful strategy of the Right is to explain social decay as the direct result of liberal policies: conjured up are such terms as “reverse discrimination,” “welfare queens,” “black rapists and murderers,” “illegal aliens,” “lazy workers,” “shrewish women,” and “political correctness” to embolden reactionary ideology. [p. 10]

Na segunda parte do texto, Dutton e Mann associam a conjuntura que eles traçaram até então à necessidade de buscar respostas arquitetônicas “socialmente responsáveis”. Desta forma, dão o tom do livro: apesar do cenário em que praticamente não há perspectivas de transformação, ainda assim apostam em experiências pontuais de ruptura com os modelos vigentes.

[…] Herein lies the value we ascribe to postmodernism theory: it challenges both the logo-Eurocentric constitution of Western bourgeois culture and the taken-for-granted emancipatory “promises” of radical and revolutionary social practices. Yet its challenge is insufficient — worse, disarming. Shifts in the dynamics of global capitalism unleashed with the collapse of the Soviet Union and the end of the Cold War mark a qualitative leap in the complexity of capitalist operations, now functioning on a scale of plunder and development unimagined by Marx or Lenin. In this context, the quest for viable approaches to socially responsive architecture practice intensifies, and consideration of theories of cultural practice spawned by those who embrace this anlysis of a postmodern cultural condition and offer postmodern theories, albeit highly problematic, seems worthwhile.

DUTTON, Thomas; MANN, Lian. “Modernism, Postmodernism, and Architecture’s Social Project” in Reconstructing Architecture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.

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Por se tratar de um texto de apresentação dos artigos que constituem o livro e com o intuito de apenas introduzir um conjunto de argumentos, notam-se alguns deslizes teóricos (por exemplo, em sua conclusão, os autores fazem observações superficiais a respeito da relação entre forma e conteúdo, mantendo-as em instâncias distantes).

O livro encontra-se esgotado, mas pode ser obtido via impressão sob demanda pelo programa Minnesota Archive Editions.