bruno latour: memória, história e tempo

Alguns comentários sobre a invenção da memória e da história em Jamais fomos modernos:

De onde nos vem a ideia de um tempo que passa? Da própria Constituição moderna. A antropologia está aí para nos lembrar que a passagem do tempo pode ser interpretada de diversas formas, como ciclo ou como decadência, como queda ou como instabilidade, como retorno ou como presença continuada. Chamemos de temporalidade a interpretação dessa passagem, de forma a distingui-la claramente do tempo. Os modernos têm a particularidade de compreender o tempo que passa como se realmente abolisse o passado antes dele. […]

[…] Como Nietzche havia observado, os modernos têm a doença da história. Querem guardar tudo, datar tudo, porque pensam ter rompido definitivamente com seu passado. Quanto mais revoluções eles acumulam, mais eles conservam; quanto mais capitalizam, mais colocam no museu. A destruição maníaca é paga simetricamente por uma conservação também maníaca. Os historiadores reconstituem o passado nos mínimos detalhes com um cuidado muito maior, pois este se perdeu para sempre. Estaremos realmente tão distantes do nosso passado quanto desejamos crer? Não, já que a temporalidade moderna não tem muito efeito sobre a passagem do tempo. O passado permanece, ou mesmo retorna. E esta ressurgência é incompreensível para os modernos. Tratam-na então como um retorno do que foi recalcado. Fazem dela um arcaísmo.

Se existe algo que somos incapazes de fazer, podemos vê-lo agora, é uma revolução, quer seja na ciência, na técnica, em política ou filosofia. Mas ainda somos modernos quando interpretamos este fato como uma decepção, como se o arcaísmo houvesse invadido tudo, como se não existisse mais um depósito de lixo onde fosse possível empilhar o que foi recalcado. Ainda somos pós-modernos quando tentamos ultrapassar essa decepção através da justaposição, por colagem de elementos de todos os tempos, todos igualmente ultrapassados, fora de moda.

LATOUR, Bruno. [1991] Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora, 34, 2013, pp. 67–69

liceu

Algumas palavras sobre a tragédia ocorrida na manhã desta terça-feira, 4 de fevereiro, na sede do Centro Cultural do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo.

Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo
Desenho de memória feito vários anos atrás, pouco depois de deixar o Liceu

1. minha relação com o lugar

Vivi o Liceu durante três anos, entre 2000 e 2002: conheci ali pessoas que influenciariam minhas escolhas e posturas futuras e foi por causa dele que passei de fato a conhecer a cidade em que morava. Todos os dias eu me deslocava da longínqua zona leste de São Paulo para a região da Luz: na prática, eu aprendia com este movimento o que era a cidade, as dificuldades cotidianas de seu povo, a vida de seu centro. Decidi ali, entre outras coisas, que queria estudar arquitetura e urbanismo.

Toda pessoa tem nas escolas que frequentou um marco para lembrar de seu passado e para construir sua subjetividade. Sinto, porém — e isto é compartilhado pelos meus colegas —, que o Liceu proporcionou a mim e a meus amigos mais do que um marco tradicionalmente associado a rituais de amadurecimento e passagem da adolescência à vida adulta. O Liceu nos forneceu um senso de comunidade e pertencimento que era e é cada vez mais raro. Até mesmo a união que se revelava entre os estudantes constituída em resistência aos métodos de ensino ultrapassados, autoritários e nada dialógicos utilizados por parte do corpo docente e incentivados pela instituição reforçava este caráter comunitário e coeso daquele grupo de alunos. Tratava-se de uma escola profundamente conservadora e com certo ranço antidemocrático do período ditatorial em que se constituíram seus cursos técnicos, apesar da origem centenária da instituição: ainda assim havia certa autonomia construída entre os estudantes, um certo espírito progressista que se expressava em atitudes que me parecem excessivamente precoces hoje — chegamos mesmo a organizar (aqueles garotos e aquelas garotas de 15, 16, 17 anos) uma greve quando o fechamento da escola parecia iminente por parte da mantenedora.

Liceu em 2008

Tenho críticas severas à maneira como o processo de ensino-aprendizagem se dava: em momentos vários a escola incentivava abertamente a competição entre alunos no lugar da colaboração (ainda que os alunos fizessem justamente o contrário); incentivava o culto a uma certa moral do trabalho que em última instância se revelava alienante e causadora de tensão entre os alunos; revelava-se conservadora  e excessivamente severa na maneira com que eram avaliados aqueles jovens em formação (o que até levava eventualmente a jubilamentos). Apesar de tudo isto, não posso negar a qualidade da formação que o lugar me propiciou, não posso negar a potencialidade que o lugar tinha em fazer com que pessoas de diferentes perfis se conhecessem e aprendessem a conviver, não posso ignorar a dedicação de um corpo docente que nutria pela escola os mesmos sentimentos que nutrimos hoje. Não a teria trocado por qualquer outra, enfim.

É difícil expressar o que o lugar efetivamente significou para nós. Sou crítico a ele, de um lado, mas nutro um carinho especial por ele, de outro. Reafirmo: não foi simplesmente “o colégio” para nós, mas um compromisso, um espaço de formação integral.

2. o centro cultural

O Liceu era formado por três entidades: a Escola Técnica, o Centro Cultural e a LAO Indústria. Esta última, autossuficiente, funcionava como mantenedora das outras duas. As sucessivas crises enfrentadas pelo país no período áureo do neoliberalismo tupiniquim levaram à inevitável queda de receita por parte da indústria: esta, por sua vez, viu-se em alguns momentos tentada a reduzir as atividades educacionais e culturais do Liceu ao mínimo possível (visto que seu estatuto as torna obrigatórias para que ele exista). A sede da indústria estava localizada na Lapa e, além dela, havia ainda instalações em Osasco. A Escola e o Centro Cultural, porém, mantinham a localização que o Liceu consolidara no início do século XX, na rua da Cantareira, em terreno cedido pelo poder público. Ali haviam se instalado as oficinas que marcaram o imaginário que parte considerável da população construiu em torno da instituição: o espaço foi responsável pela formação de parte da força de trabalho que alimentara a construção do Ecletismo paulista, pela produção de mobília art nouveau, etc. O espaço e o ensino resgiram às mudanças ocorridas na indústria e na construção paulista ao longo de um século, transformand0-se nos anos 1970 em uma escola técnica baseada no modelo proposto pelo regime militar.

Nos anos 1980 — certamente influenciados pela moda dos centros culturais recém-inaugurada com o fenômeno Pompidou — sugeriu-se a constituição de um Centro Cultural no Liceu que abrigasse um conjunto de estatuária clássico recém-descoberto na Pinacoteca do Estado e que teria pertencido ao Liceu para uso em aulas de modelagem e escultura. Tratavam-se de réplicas de peças constituintes do cânone artístico ocidental: estavam lá o Moisés, a Pietá, o Davi de Michelângelo (que a escola se orgulhava em dizer — de forma um tanto quanto mitificadora — que se tratava da única réplica em tamanho natural na América Latina), um Davi de Verrochio, imagens clássicas como o Discóbolo, bem como o Laocoonte similar ao original anterior à restauração, agonizando com os braços abertos.

Foram estes, entre outros, os personagens que sofreram com o incêndio da madrugada do dia 4 de fevereiro.

O Centro Cultural do Liceu funcionou relativamente bem ao longo dos anos 80 e 90, promovendo alguns bons e disputados cursos livres de artes e ofícios. Sua atração principal, porém, já parecia datada e questionável: intitulada de “Espetáculo Multivisão — Arte e humanismo”, era constituída de gravações em áudio, efeitos luminotécnicos e de projeção de diapositivos a respeito da exposição permanente das réplicas que compunham o acervo. Se ela parecia inovadora nos anos 80, agora ela já se revelava problemática e reduzia o espaço expositivo a um evento pirotécnico com discurso único, linear e excessivamente narrativo.

Apesar disto, adorávamos o espetáculo. Adorávamos também aquele espaço, apesar de certo ar sóbrio e da expografia: adorávamos o jeitão de galpão industrial, adorávamos o porão e suas paredes e arcos de tijolos.

Infelizmente, o contato que tínhamos com ele era pequeno e pouco incentivado pela escola. Passamos nele por apenas algumas poucas experiências que nos marcaram: montamos lá o típico teatro de colégio, montamos uma exposição de trabalhos de nossos cursos técnicos, etc. Fiquei felicíssimo, aliás, de ser convidado a participar da avaliação dos trabalhos dos formandos no curso técnico no ano passado e de poder passar alguns agradáveis momentos no espaço do Centro Cultural.

Ainda assim, as lembranças que construímos do Liceu estão muito mais ancoradas nos demais espaços que propriamente no Centro Cultural: sinto até mesmo algum afastamento do lugar.

A administração do Centro, na minha época de estudante e nos anos posteriores, para piorar, foi também lentamente reduzindo suas ações até torná-lo quase invisível. A gestão do acervo parecia amadora, para dizer o mínimo: o espaço não era climatizado adequadamente para que pudesse receber aquelas peças em gesso centenárias, propiciando a formação de um ambiente quente e abafado, com ventilação ruim e manutenção inadequada. É preciso destacar o mérito das gestões recentes que, ao que parece, se esforçavam em promover um processo de restauro e requalificação das instalações da escola. O descaso com o acervo e com o espaço, porém, já vinha de anos.

3. nossa relação com os objetos

Talvez pelo afastamento que tínhamos do Centro Cultural durante a época de escola, talvez pela sensação de “tragédia anunciada” que se desenhava desde então, talvez pelo ceticismo com que me relaciono com a temática do patrimônio cultural, assisti à reação ao incêndio evitando qualquer atitude mais precipitada: sobretudo, precisamos evitar à tentação de encontrar culpados. A tristeza em saber que o espaço que é marco de minhas lembranças foi destruído é inevitável, mas é preciso agora olhar a coisa toda por outra perspectiva.

Em primeiro lugar, é preciso celebrar toda a mobilização que está se constituindo entre ex-alunos, ex-professores, alunos e professores para que o Centro seja reerguido adequadamente. Mas, para além desta necessária convocação de solidariedade à escola para a qual tanto devemos, precisamos também refletir sobre a relação que estabelecemos com os objetos que nos cercam e que nos fazem.

Ficamos inevitavelmente tristes em saber que uma parte do que somos foi destruída em minutos. Mas o trauma causado pelo evento raramente se revela em uma renovação na maneira com que olhamos para os artefatos com que nos relacionamos. E não pretendo com isto sugerir qualquer tipo de moralismo na nossa relação com a cultura material: trata-se apenas da necessidade de tomarmos consciência da maneira com que nos relacionamos com ela.

Para a maioria das pessoas que se sentiu abalada com a perda, não havia muito o que se fazer, é claro, dado o distanciamento. Para os administradores do Liceu, a gestão de um problema tão complexo como o de um acervo sem a devida (e caríssima) climatização certamente não era tarefa fácil ante as dificuldades financeiras do cotidiano. Mais uma vez, não pretendo encontrar culpados, apesar do problema estar visível há anos. Mas o momento é oportuno para discutir o papel que os objetos têm no nosso cotidiano.

Tratamos os objetos e as coisas de uma maneira contraditória: de um lado, promovemos a aurificação de alguns deles. Fazemos questão, por exemplo, de cultuar nossos carros ou de elevar certos gadgets a uma condição especial que nada tem de natural, mas que parece bastante espontânea. De outro lado, promovemos uma cultura do desperdício e do descarte que revela um desapego com aquilo que consumimos que, em última instância, sugere uma sociedade viciada. Ambos os casos são resultado de uma relação fetichizada com a cultura material: os objetos simplesmente parecem existir, não parecem ter sido produzidos nem parecem ser objeto da ação humana. Itens de consumo como iGadgets são dotados de vida própria (nada sabemos sobre a precarização do trabalho que os possibilita), já monumentos (e uso aqui o sentido original da palavra, como suporte de memória) — tal qual o Centro Cultural para nós, ex-alunos — são destituídos de sua historicidade, são elevados a uma condição distante de sua imaterialidade. E, por conta disto, são esquecidos.

Os objetos que são dotados de certa aura — como o Centro Cultural para aqueles que nele viam um suporte de memórias — correm o risco, em momentos traumáticos como o atual, de se transformarem em um mito que nada tem a ver com as lembranças que se fazem dele. Seja ele reconstruído, seja ele transformado em um mito, o que se constituirá será um espaço que relação nenhuma estabelece com este conjunto de lembranças. Cabe perguntar: por que chegamos a tal ponto?

Existe um mito que prega que “o brasileiro não tem memória”. A frase é preconceituosa e conceitualmente equivocada (pois memória se constrói socialmente, não “se tem”), mas revela algo não sobre o conteúdo da assertiva, mas sobre quem a sentencia. Se é um chavão tão difundido, por que ele não é tão igualmente combatido por aqueles tantos que o pregam? A proposta discursiva por trás do mito é evidente: trata-se de desqualificar um outro “brasileiro” que não o próprio enunciador da sentença, culpabilizando-o por todas as mazelas advindas da suposta falta de memória. Também revela um entendimento da memória não como uma construção social que está envolta em conflito e em tensão, mas como um dado estático a que se deve recorrer de modo moralista.

O momento como o que vivemos é adequado para repensarmos nossa relação com os objetos (ao mesmo tempo efêmera e áulica, mitificadora e descartável), nossa relação com aquilo que nos circunda, nossa relação com a cidade, enfim. Trata-se de problema político (lidamos, afinal, com a pólis) dos mais sérios e virtuosos: precisamos discutir que responsabilidades queremos assumir com o que nos circunda e a quem isto interessa.

Não quero ver reerguida uma coisa da qual permaneçamos apartados e da qual lembremos apenas em momentos espetaculares. Quero, no entanto, ver reerguido o lugar que fez com que tanta gente se sentisse abalada com sua perda, um espaço que potencialmente continue a nos influenciar a sermos mais virtuosos.

4. políticas de patrimônio

Chegamos, enfim, ao problema essencial: é preciso politizar o patrimônio cultural institucionalizado, que se encontra hoje burocratizado e limitado a instrumentos ultrapassados, como o tombamento e os inventários técnicos distantes das pessoas.

Precisamos de uma plataforma pública que de fato incorpore a dimensão de conflito que caracteriza o patrimônio: uma plataforma que permita, enfim, que nossos referenciais de memória sejam devidamente celebrados na medida em que nossas responsabilidades e nossos direitos sobre eles sejam bem definidos. Que democratize os processos, envolva as pessoas e inverta o preconceito de que “as pessoas não se importam com o patrimônio”.

O que vi nas últimas horas foram centenas de pessoas que de fato se importam com uma coisa e estão dispostas a reconstrui-la, ainda que apartadas de sua preservação. Estamos, afinal, falando da nossa relação com a cidade e seus objetos. É esta relação que está obstruída, elitizada, burocratizada. Não está em questão a responsabilidade de uma entidade particular com seus bens, mas da forma como estamos construindo uma cidade que afasta as pessoas daquilo que elas consideram importante. Os movimentos contra a verticalização espalhados pela cidade (equivocados em seu alvo, mas legítimos em sua causa) têm diretamente a ver com isto.  A luta do pessoal que resistiu ao fim de um cinema de rua na Paulista tem a ver com isto (ainda que se trate de uma causa que teve excessiva exposição pública quando comparada com a luta na periferia por espaços culturais). Enfim: estamos tratando da forma como produzimos nossos gestos urbanos, como lidamos com nosso cotidiano na cidade. Estamos tratando de um conflito que se encontra neutralizado e precisa ser explicitado.

5. enfim

Não estou completamente seguro do que disse acima, confesso. Apesar da frieza com que tentei avaliar a situação, trata-se afinal de algo que constituiu anos fundamentais da minha vida, pelo que peço desculpas por eventual confusão na condução das ideias.

Apoio, porém, toda mobilização que se estabeleça ao redor do Liceu para celebrá-lo e ajudá-lo. Há ainda muito mais a fazer, porém.

algumas palavras sobre patrimônio cultural (parte 1)

futebol autoconstruídoGostaria de compartilhar algumas palavras sobre o tema do patrimônio cultural. Tratam-se de anotações que usei no último sábado no contexto das ações do Núcleo de Estudos da Paisagem ora em curso em Perus (que envolvem, em um mesmo tempo e espaço, uma disciplina de graduação, uma disciplina de pós-graduação e uma instância de extensão).

Não são as palavras de um acadêmico especializado no assunto nem se constituem em texto com qualquer pretensão acadêmica, mas anotações que podem ajudar a iniciar novas conversas sobre o assunto. As anotações serão divididas em diferentes postagens neste blogue, para facilitar a leitura. O sumário é o seguinte:

  1. a palavra “patrimônio” (logo abaixo, nesta página)
  2. materialidade e intangibilidade no patrimônio
  3. transformações de sentido do conceito e suas contraditoriedades (a ser publicado)

1. a palavra “patrimônio”

vila esperança

É vasta a bibliografia sobre a trajetória da noção de patrimônio no mundo ocidental, bem como das transformações que sofreram as práticas de preservação de monumentos e de bens culturais. A alegoria do patrimônio, o clássico trabalho de Françoise Choay, é um porto seguro consagrado para iniciar estudos e discussões sobre o tema. O que se segue, ao contrário, são apenas comentários descompromissados sobre o assunto.

A palavra “patrimônio” lembra herança, legado, espólio. De um lado, sugere continuidade, tradição e afeto. De outro, sugere, normatividade e imposição, pois há algo de hierárquico e vertical nela: a raiz pater não deixa de nos passar certa sensação de passividade perante os tais desígnios paternos. Pater também não deixa de nos lembrar, ainda que muito indiretamente, de patrão e pátria, além de pai e de herança. Se há nisto tudo certa dimensão afetiva (pois, afinal, “patrimônio” é algo do qual ninguém abriria mão em princípio), também tem algo de impositivo e heteronômico. Patrimônio, então, tem a ver com norma, regra, padrão, lei. Marcos Bagno, aliás, tece bonitos comentários sobre pater e mater na definição do que entendemos por língua pátria e língua materna, apontando as implicações destas categorias e daquilo que está implícito nelas.

Mais do que tudo, este conjunto de sentidos parece ainda tentar nos passar certa sensação de estabilidade, estanqueidade, coerência. Trata-se de algo sólido, tangível… inflexível, até: não está sujeito a mudanças, justamente por que passa a ideia de finitude, referência, segurança.

Norma, regra, lei, segurança, estabilidade, Estado.

vila esperança

Articulado a tudo isto está ainda a ideia de valor, usualmente associada à noção de patrimônio mesmo em situações cotidianas. Valor costuma ser entendido como uma qualidade especial de algo. Mas a palavra também tem óbvia conotação mercantil. Se entendemos, por um lado, determinados traços de caráter como valores, por outro, o fazemos justamente porque associamos a estes traços, mesmo que implicitamente, alguma dimensão mensurável, econômica, quantitativa. Mesmo tratando de assunto completamente diverso, não deixa de ser curioso o comentário feito por Marx nos primeiros capítulos de seu Capital sobre a maneira como a palavra “valor” é usada para identificar atributos humanos que nada tem a ver com “valores”: elementos de caráter como a honra ou a consciência de alguém passam a ser chamados de “valores” e considerados como tal (chegando mesmo a ter um preço), mesmo não sendo mensuráveis ou não tendo qualquer dimensão material.

Os valores, por sua vez, atribuem-se a bens ditos culturais. Um bem talvez seja algo bom em si mesmo, ou algo que tenha valor por si mesmo. No entanto, não deixa de ser curioso o fato de ter sido elegida esta palavra particular para fazer referência aos objetos a que se atribuem características patrimoniais (ou que sejam portadores de sentidos a que se associam valores), na medida em que é impossível desassociá-la de seu sentido pragmático: bem é quase sinônimo de mercadoria (ou de valor…). O sentido econômico ou mercadológico da expressão bem é inescapável de tal modo que até nos esquecemos que se trata de algo, teoricamente, “bom”: a mensuração de valor sobrepõe-se à sua qualidade, ainda que implicitamente. Quando se fala em bem, é na acepção que se atribui a usos como “bem imóvel”.

Ou seja: ao tratarmos de “patrimônio” estamos a tratar, portanto, de algo a que associamos, por analogia explícita ou por ato falho, a um herança cujos valores têm como referência convenções mercadológicas ou econômicas. A tendência ao “congelamento” do patrimônio (ou à sua representação como tal, independente do discurso contrário ou prevenido dos técnicos de patrimônio) também parece estabelecer alguma relação com este conjunto de sentidos socialmente atribuídos à expressão: heranças (sobretudo em sua dimensão material, enquanto conjunto de bens) devem passar segurança, estabilidade, devem estar sujeitas à norma.

Mesmo as heranças futuras (aquilo que se pretende preservar para as futuras gerações) são entendidas como algo a ser protegido, estabilizado, por vezes até isolado da vida social a que está integrada para, na condição de objeto reificado, assumir uma aura quase ritual de celebração da continuidade, da tradição, da norma, da eternização do presente (ou de uma qualquer representação do passado). Não deixa de ser atitude com alto grau de egoísmo: escolhe-se, entre um conjunto variado de “bens”, aqueles que serão dignos de serem lembrados e celebrados por gerações que sequer existem hoje — as quais não terão, inclusive, a chance de eleger como herança os demais “bens” que foram apagados ou totalmente consumidos.

Neste sentido, percebe-se claramente que isto que temos chamado de “patrimônio” quase nada tem a ver com uma espécie de “arqueologia” da memória (enquanto representação de algo passado), na medida em que é antes de tudo um esforço de construção ou de imposição de memória e de representações. Objetos reificados, isolados da vida social a que estavam integrados, como coloca prof. Ulpiano Meneses a partir de Baudrillard, deixam de apresentar-se como valores-de-uso e assumem o papel de objetos portadores de sentidos. Seus valores são puramente simbólicos e como tal eles participam, fatalmente, de um campo de disputas de significados. Patrimônio, neste sentido, é antes de tudo, portanto, um campo marcado pelo conflito (seja ele explícito ou implícito).

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Continua na parte 2.

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vila esperança
Acompanham estas palavras imagens de um patrimônio arquitetônico e urbanístico banal. São imagens que compõem um imaginário de infância bastante pessoal, mas ainda assim digno para mim da expressão “patrimônio”: são imagens que evidenciam a relação entre a vida, a matéria e o tempo, são construções continuamente caracterizadas e recaracterizadas pelos seus viventes, sem qualquer tentativa de fetichizá-las. Bonitas ou feias, autênticas ou falsas, elas parecem possibilitar a construção de algum sentido.

23.03.13: memórias e paisagens em perus

Ontem, em uma agradável manhã de sábado, partilhei de um rico encontro de memórias e paisagens. Tratava-se da terceira aula da oficina/curso conduzida por professores da FAUUSP e da FFLCH no distrito de Perus, reunindo em uma mesma instância disciplinas de graduação e pós-graduação envolvendo estudantes de variadas formações, bem como cursos livres e informais voltados a interessados não-universitários, moradores da região, entre outros.

registro de aula

Partilhei naquela manhã da deliciosa construção de paisagens fortemente marcadas por fragmentadas mas belas lembranças de quintais grandes, casas rodeadas por cercas e não por muros, ruas de terra batida e mesmo de graciosas quedas de bicicleta. Eram casas cheias de festas, rezas, mães, tias, parentas, avós, crianças. Um território marcadamente feminino, ao que parece — talvez o cotidiano suburbano a que eram submetidas as mulheres em uma sociedade tão machista, afinal, tenha sido belamente ressignificado. Num bairro de não mais que sete mil habitantes nos tempos daquelas memórias, distante cerca de 20 km do Centro de São Paulo, construímos juntos, entre outras, a imagem de uma mina d’água, de uma benzedeira, de corredores vários e mesmo de um cinema na rua improvisado com lençóis no Bar do Guido.

Mesmo sendo profundamente ateu — ou seja, desconfiado e apequenado —, emocionei-me com o sentido bonito produzido nas pessoas pela religiosidade que fluía e coloria o espaço construído à medida em que a memória partilhada por aqueles sujeitos viventes desenhava paisagens. Distâncias, ladeiras e morros mediam-se com procissões e terços. Padres holandeses e comunidades de base compunham este universo.

Soubemos ainda da silenciosa dor de artesãos espanhóis cujas filhas, estudantes da Unicamp, eram perseguidas pelos agentes da repressão. O papel das comunidades eclesiais de base revelara-se fundamental na mobilização de mentes e almas naqueles doídos e bonitos anos 1960/70 na distante e bela periferia de São Paulo. Tratava-se de um bairro castigado pela espessa fumaça da Fábrica de Cimento de Perus, palco de luta e afeto, resistência e carinho de seus operários-queixadas. Os viventes daquele lindo lugar, unidos e mobilizados, lutaram e conseguiram, entre outras coisas, a instalação de filtros nas chaminés da fábrica. “O pó de cimento esmaga a vida”, bradava o movimento, lutando e fazendo poesia.

Pouco a pouco se construía na manhã de ontem a semente do que no futuro deve ser a universidade livre e colaborativa com a qual todos aqueles viventes sonham.

Só posso, como estudante ignorante e distante que sou, agradecer a todos por ter participado desta emocionante partilha.