bruno latour: dinâmica sociedade/natureza

Kasimir Malevitch. Paisagem com casa branca. Óleo sobre tela, 59x59 cm, 1929.
Kasimir Malevitch. Paisagem com casa branca. Óleo sobre tela, 59×59 cm, 1929. Disponível em http://www.wikiart.org/en/kazimir-malevich/landscape-with-white-house-1929

Um dos trechos mais interessantes do clássico Jamais fomos modernos, de Bruno Latour:

A potência da crítica

Hoje, quando as capacidades críticas dos modernos se esgotam, é conveniente medir, pela última vez, sua prodigiosa eficácia.

Liberados da hipoteca religiosa, tornaram-se capazes de criticar o obscurantismo dos antigos poderes ao desvelarem os fenômenos naturais que estes dissimulavam — ao mesmo tempo em que inventavam os fenômenos na redoma artificial do laboratório. As leis da natureza permitiram que as primeiras Luzes demolissem totalmente as pretensões malfundamentadas dos preconceitos humanos. […] O obscurantismo das idades passadas, que misturavam indevidamente necessidades sociais e realidade natural, foi substituído por uma aurora luminosa que separava claramente os encadeamentos naturais e a fantasia dos homens. As ciências naturais definiam a natureza e cada disciplina foi vivenciada como uma revolução total através da qual ela se separava enfim do Antigo Regime. Ninguém é moderno se não sentiu a beleza dessa aurora e não vibrou com suas promessas.

Mas a crítica não se dirigiu somente da natureza para os preconceitos humanos. Logo começou a percorrer a outra direção, que levava das ciências sociais recém-fundadas rumo à falsa natureza. Estas foram as segundas Luzes, as do século XIX. Desta vez, o conhecimento preciso da sociedade e de suas leis permitiu criticar não apenas os preconceitos do obscurantismo usual, como também os novos preconceitos das ciências naturais. Solidamente apoiado pela ciência da sociedade, tornava-se possível distinguir nas outras ciências uma parte realmente científica e uma outra devida à ideologia — a acusação crítica por excelência. […] Todas as formas de pensar de outrora — aí incluídas certas ciências — tornaram-se ineptas ou aproximativas. Ou antes uma sucessão de revoluções radicais criou, por contraste, um “outrora” obscuro que em breve seria dissipado pela aurora luminosa das ciências sociais. As armadilhas da naturalização e da ideologia científica se dissipavam, finalmente. Ninguém é moderno se não ansiou por esta aurora e não vibrou com suas promessas.

Tornou-se mesmo possível aos invencíveis modernos combinar as duas, tomando as ciências naturais como forma de criticar as falsas pretensões do poder e utilizando as certezas das ciências humanas para criticar as falsas pretensões das ciências e da dominação científica. O saber total estava, enfim, ao alcance da mão. Se o marxismo pareceu, durante um longo tempo, incontornável, foi porque na verdade cruzava os dois recursos mais poderosos que já foram desenvolvidos pela crítica e os congelava para sempre. Permitia que fosse conservada a parte de verdade das ciências naturais e sociais, ao mesmo tempo em que eliminava cuidadosamente sua parte maldita, sua ideologia. […] Quem nunca sentiu vibrar dentro de si esta dupla potência, ou quem nunca foi obstinado pela distinção entre o racional e o irracional, entre falsos saberes e verdadeiras ciências, jamais foi moderno.

Solidamente apoiado sobre a certeza transcendental das leis da natureza, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais e às dominações não justificadas. Solidamente apoiado sobre a certeza de que o homem constrói seu próprio destino, o moderno pôde criticar e desvendar, denunciar e se indignar frente às crenças irracionais, às ideologias científicas, à dominação não justificada dos especialistas que pretendiam traçar limites à ação e à liberdade. […] A natureza transcendente permanece, apesar de tudo, mobilizável, socializável, humanizável. Os laboratórios, as coleções, os centros de cálculo e de lucro, os institutos de pesquisa e os escritórios de desenvolvimento misturam essa natureza, diariamente, aos múltiplos destinos dos grupos sociais. Inversamente, apesar de construirmos a sociedade por inteiro, ela dura, elas nos ultrapassa, nos domina, ela tem suas leis, é tão transcendente quanto a natureza. Isto porque os laboratórios, as coleções, os centros de cálculo e de lucro, os institutos de pesquisa e os escritórios de desenvolvimento traçam diariamente os limites da liberdade dos grupos sociais e transformam as relações humanas em coisas duráveis que ninguém criou. É nesta dupla linguagem que reside a potência crítica dos modernos: podem mobilizar a natureza do seio das relações sociais, ao mesmo tempo em que a mantêm infinitamente distante dos homens; são livres para construir e desconstruir sua sociedade, ao mesmo tempo em que tornam suas leis inevitáveis, necessárias e absolutas.

LATOUR, Bruno. [1991] Jamais fomos modernos. São Paulo: Editora 34, 2013, pp. 40–42.

reação a tafuri, anos 80, eua [1]

originalmente postado em http://notasurbanas.blogsome.com/2010/02/08/reacao-a-tafuri-anos-80-eua-1/

No início dos anos 80 um grupo de acadêmicos estadunidenses, duplamente incomodados com a condição em que se encontrava a produção de teoria da arquitetura naquele momento naquele país resolveram chamar alguns estudiosos (como o crítico literário Fredric Jameson) para um evento. Estavam duplamente incomodados pois tanto o momento político era conservador (início da era Reagan) quanto o máximo que se produzia de teoria e história da arquitetura ou era a crítica sofisticada e de público limitado da revista oppositions ou abordagens ainda bastante operativas e de maior repercussão do tipo Curtis ou até mesmo Frampton. Incomodava sobretudo o fato do papel da ideologia ser ignorado no estudo da arquitetura. A escola de Veneza tafuriana (nascida já fazia pelo menos mais de uma década) ainda era algo por demais longínquo ou obscuro. Por mais que Tafuri fosse frequente contribuidor da revista oppositions, suas ideias ainda eram de algum modo inéditas nos EUA.

O simpósio se deu justamente no Instituto de Arquitetura e Estudos Urbanos da Nova Iorque (o mesmo da oppositions) e se chamou Revisions. No ano seguinte (1982) foi publicado o livro architecture criticism ideology, editado por Joan Ockman. Os textos referentes ao seminário são de Fredric Jameson, Demetri Porphyrios e Tomas Llorens. Há ainda comentários de Beyhan Karahan e Jon Schwarting, além de textos outros selecionados de Colquhoun e Tafuri. De uma forma geral, porém, trata-se de uma breve coletânea de análises e comentários sobre as ideias do italiano. Curiosamente havia naqueles textos um frescor ou um desejo de produzir teoria e crítica que não vejo hoje – pelo menos não na academia.

A introdução escrita por Mary McLeod apresenta o seguinte:

[…]

Twentieth-century architectural criticism and theory thus appeared to us as largely divorced from systematic ideological investigation. The naive utopianism of the modern movement, the social criticism of the sixties, the semiological analyses of the seventies, and contemporary eclectic approaches – all fail to examine architecture’s “real connection” to material processes. Although architecture of the all arts is most directly tied to economic and social conditions given both its scale of production and public use, the field contains almost no tradition outside the Soviet Union of Marxist criticism of Marxist avant-garde practice. During the thirties, when the United States art historians such as Meyer Schapiro and Clement Greenbert, strongly influenced by Marxist theory, sought to reveal the ideological nature of painting and sculpture, no equivalent socially based criticism emerged in architecture. Even the Frankfurt School largely ignored architecture. There exists no Marxist study devoted to architecture comparable in scope and quality to Lukács’s investigations of the novel or Adorno’s analysis of music. Only recently, in Italy, can we see a historical, materialist criticism beginning to develop.[…]

The following papers will address these emergent positions. […]

A synthetic position can hardly be defined from such divergent approaches. It is our hope only that these papers will help to open discussion concerning the nature of architecture and ideology. With Fredric Jameson, in The Political Unconscious, we wish to continue to ask:

How is it possible for a cultural text that fulfills a demonstrably ideological function, as a hegemonic work whose formal categories as well as its content secure the legitimation of this or that form of class domination — how is it possible for such a text to embody a properly utopian impulse, or to resonate a universal value inconsistent with the narrower limits of class privilege that inform its more immediate ideological vocation?

This question, in face of a highly conservative political and cultural climate, appears to us, as practicing architects and critics, central to our own endeavours.

todos os grifos são meus

McLEOD, Mary. “Introduction” in OCKMAN (org.). Architecture Criticism Ideology. Nova Jérsei: Princeton Architectural Press,  1985

Parece-me que as condições políticas — clima cultural e político altamente conservador — são similares no Brasil atual. Vinte anos depois, ainda precisamos fazer teoria.

arquitetura da pobreza/arquitetura do sublime [pt 2]

originalmente publicado em http://notasurbanas.blogsome.com/2009/07/29/arquitetura-da-pobrezaarquitetura-do-sublime-pt-2/

Continuando com a leitura do texto iniciada em http://notasurbanas.blogsome.com/2009/07/23/arquitetura-da-pobrezaarquitetura-do-sublime-pt-1/

O texto parte para a defesa de uma ideia de “sublime” na arquitetura. No final, acho que os trechos anteriores eram mais ricos: a conclusão parece ter ficado mais datada. Vale como contraponto a esta ler a opinião de Mike Davis sobre Koolhaas (exagerada, evidentemente, mas necessária). Todos os grifos são meus.

What I am attempting to develop is an architecture of the sublime. The sublime is that which must be thought of in a relation to something eternal, an absolute quantity that cannot be expressed in time and space. […] Shadows, loneliness, silence and the approach of death can be ‘terrible’ because they announce as it were that the other, language or life is soon over (Lyotard). A similar perception is never obtained from a design drawing. Every drawing is an attempt at an effect. But we cannot rule out that when such a building is actually built, this threat will be present.

[…] His work [trata aqui de Koolhaas, em oposição aos experimentos arquitetônicos não consumados dos construtivistas russos e avaliados apenas no papel e como ideias] was earlier connected with the modernist machine aesthetic in which the formal is defined anew. The machine aesthetic means for the descontructivists that the argument about free form is over – the design process becomes an automatic linar process involving cells and links. [precipitado?]

I believe that the machine of the modernist concept has always broken down. In truth it is about identifying the hitches and disturbances which are intrinsic to such complete orders. It doesn’t bring us to a ‘free form’, but id adds to the experiences which are evoked by this defective machinery, and to the experience of time and space of the users. The users are not the social guarantee for architecture that it can leave the stuffed and quilted boudoir.

fonte: GRAAFLAND, Arie. “The architecture of unease” in The Architecture Annual – 1994-1995. Delft: TUDelft, 1995

Loja da Prada?