Helvetica/Arial

helvetica e borracha

Helvetica/Arial
Helvetica (acima) e Arial (abaixo)

De uma única vez, na fotografia abaixo, desaparecem dois dos referenciais visuais mais significativos do Metrô de São Paulo: de um lado, o famoso piso de borracha preto que acompanhou seus usuários durante algumas décadas, substituído por placas de granito cinza. De outro lado, no letreiro branco, desaparece a usual Helvetica, trocada desajeitadamente pela Arial. No primeiro caso, a justificativa envolve a resistência mecânica, facilidade de manutenção e menor consumo de energia elétrica para iluminar os ambientes. No segundo, parece ser mesmo descuido na troca de programação visual.

Tratam-se de dois curiosos índices de uma modernidade incompleta que conviveram anos conosco: sua substituição por versões mais vulgares de si mesmos (ainda que, no caso do tipo, seja aparentemente uma substituição distraída) talvez explicitem apenas a impossibilidade efetiva de tal processo de modernização nesta periferia em que vivemos. Os edifícios do Metrô possivelmente constituíam os exemplares da arquitetura moderna tardia paulista que mais eram frequentados pela maior parte da população. Em certo sentido, tratavam-se da única efetiva presença do Estado em suas vidas, ainda que em um contexto de violência institucionalizada e provação cotidiana. Nesta periferia do capitalismo cuja força de trabalho é obrigada a lutar pelas suas próprias condições de reprodução, ao invés de tê-las garantidas como no capitalismo de bem-estar social de outrora na Europa, o Metrô é ao mesmo tempo sinal de violência e de mínima ordem para a maioria. Diariamente as pessoas convivem com uma cenografia de modernidade que nada apresenta além de sua aparência: é neste sentido, talvez, que a troca dos materiais sofisticados (borracha industrial e tipografia celebrada pela história do design) por materiais vulgares (pedra e uma versão genérica da Akzidenz Grotesk) faça tanto sentido.

arial no Metrô?As estações do Metrô constituem de fato uma teia de significados para fatia relevante da população que habita a metrópole paulista. É, em certo sentido, e apenas por conta desta teia, uma espécie de veículo de memória, suporte de representações cotidianas que poderia facilmente ser categorizado como “patrimônio cultural” paulistano. Não se trata de qualquer proposição de ufanismo ou celebração da cidade e de seus mitos: quando digo tratar-se de “patrimônio”, penso mais na dimensão conflitiva que tradicionalmente se associa a esta categoria do que propriamente qualquer valor positivo que se atribua a ele.

Os índices visuais de que temos falado (o plurigoma emborrachado agora trocado por granito vulgar; a Helvetiva agora substituída distraidamente, ao que parece, pela igualmente vulgar Arial; o forro em cores vivas; o concreto aparente de sua estrutura, os relógios redondos suspensos do teto; etc) materializam uma espécie de ritualística diariamente praticada por cidadãos de todos os cantos da cidade. O Metrô materializa uma espécie de dialética da malandragem que regula a vida do povo paulista: a ordem que ele supostamente representa é repentinamente contraposta à suposta desordem urbana em que se insere.

Talvez valesse a pena pedir até mesmo o tombamento do piso emborrachado e dos letreiros em Helvetica: durante todos os anos em que eles foram atores fundamentais em constituir esta cenografia de modernidade que o Metrô representa eles colaboraram com este conjunto de rituais a que os paulistanos se submetem. “Preservá-los”, neste sentido, nos ajudaria a lembrar sempre da ironia patética que vivemos, ao nos submetermos a tal dialética malandra que nos opõe em uma mesma jornada ordem e desordem como se tal fosse um fenômeno natural.

zona leste

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2 comentários em “helvetica e borracha”

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