anos 90, pós-modernidade, arquitetura

Em 1996 foi publicado o livro Reconstructing Architecture, editado pelos pesquisadores Thomas Dutton e Lian Hurst Mann. A publicação reúne artigos versando em maior ou menor grau sobre a necessidade e a possibilidade de construção de um “projeto social” — conceito não muito bem definido a princípio, mas que ganha relevos mais claros à medida em que os argumentos são expostos — na prática arquitetônica contemporânea. O livro, que pertence à série Pedagogia e prática cultural editada por Henry Giroux e Roger Simon, chamou minha atenção particularmente por ser o único trabalho acadêmico que já encontrei no campo da arquitetura, fora do Brasil, a citar a obra do educador Paulo Freire (especificamente no artigo do próprio Dutton sobre pedagogia crítica e estudos culturais na arquitetura). Reconstructing Architecture é daqueles títulos espertos: tanto pode significar “reconstruindo a arquitetura” como “arquitetura reconstrutora”.

No texto introdutório à coletânea (“Modernismo, pós-modernismo e projeto social da arquitetura”, pp. 1–26), de autoria de Dutton e Mann, procura-se oferecer ao leitor um panorama do contexto social e político que levou à reunião dos artigos e publicação do livro. Ainda que não se aprofunde na análise de tal conjuntura, os autores nos fornecem um retrato relevante da forma como se tratava a aparente fragmentação da esquerda nos EUA naqueles anos Reagan-Bush-Clinton (esquerda que congregava movimentos que iam do marxismo ao “liberalismo” social da ala mais progressista Partido Democrata, passando por grupos de defesa de direitos civis e ligados a questões de raça e gênero). Anos mais tarde, David Harvey em Espaços da esperança comentaria a respeito do efeito da miríade de agendas de cada um dos vários grupos que movimentaram os anos 60–80 (ambientalistas, feministas, movimentos pelos direitos das populações afro-americanas, LGBT, etc).

Segundo Dutton e Mann:

[…] One of the greatest contribuitions of both gender- and race-based theories is their challenge to the inherent totalizing power of “class” and the legitimacy of socialism itself. Those who have believed, based on analysis of the historical evolution of property relations, that sexism and racism both predate capitalism and have often been prevalent in state socialist models argue for the relative autonomy of male supremacy white European chauvinism even within the bounds of capitalism — both in the ideological realm and the arena of actual practice. But at times, this belief has been used to evade understanding of the constitutive character that structural suppresion and exploitation of women and peoples of color possess in capitalist economics, politics and culture, as well as evading the undeniable rise of this phenomenon precisely as capitalism is moving to homogenize again in international working-class. The task of disaggregating gender and race temporarily as a way to reintroduce them into a new configuration with class has never been more urgent than today. When the very character of the increasingly immiserated working class throughout the world is overwhelmingly female and multiethnic, efforts to segregate the theoretical pursuits of cultural studies, women’s studies, and Black, Latino, Asian Pacific Islander, and Native American studies from the analysis of the increasingly ruthless nature of class-driven transnational capitalism and its drive to recolonize will only contribute to that very recolonization. In other words, if we continue to swim in the fragmentary and bask in disaggregation, the universals of capitalism’s requirement of expansion will relentlessly reorganize the world. Meanwhile, masking big sticks, big ideologies, and big economic maneuvers, the apparent atomization of the social succesfully achieves hegemony by disorientation. [pp. 09–10]

Em Pedagogia da Esperança Paulo Freire cita um congresso de que participou nos EUA, nos anos 80, em que teve de lidar com um conjunto de representantes de movimentos sociais diversos que, aparentemente, não se entendiam e não conseguiam articular para além da fragmentação, enfraquecendo-se mutuamente. Dutton e Mann, nos anos 90, parecem estar preocupados com o avanço da fragmentação não apenas como aspecto da prática, mas como mesmo uma estratégia intelectual.

O trecho seguinte lembra os grunhidos de certos colunistas da grande mídia brasileira.

[…] Ironically, postmodern theorists — raising disorganization to a principle — are no match for the newly organized Right. One succesful strategy of the Right is to explain social decay as the direct result of liberal policies: conjured up are such terms as “reverse discrimination,” “welfare queens,” “black rapists and murderers,” “illegal aliens,” “lazy workers,” “shrewish women,” and “political correctness” to embolden reactionary ideology. [p. 10]

Na segunda parte do texto, Dutton e Mann associam a conjuntura que eles traçaram até então à necessidade de buscar respostas arquitetônicas “socialmente responsáveis”. Desta forma, dão o tom do livro: apesar do cenário em que praticamente não há perspectivas de transformação, ainda assim apostam em experiências pontuais de ruptura com os modelos vigentes.

[…] Herein lies the value we ascribe to postmodernism theory: it challenges both the logo-Eurocentric constitution of Western bourgeois culture and the taken-for-granted emancipatory “promises” of radical and revolutionary social practices. Yet its challenge is insufficient — worse, disarming. Shifts in the dynamics of global capitalism unleashed with the collapse of the Soviet Union and the end of the Cold War mark a qualitative leap in the complexity of capitalist operations, now functioning on a scale of plunder and development unimagined by Marx or Lenin. In this context, the quest for viable approaches to socially responsive architecture practice intensifies, and consideration of theories of cultural practice spawned by those who embrace this anlysis of a postmodern cultural condition and offer postmodern theories, albeit highly problematic, seems worthwhile.

DUTTON, Thomas; MANN, Lian. “Modernism, Postmodernism, and Architecture’s Social Project” in Reconstructing Architecture. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1996.

•••

Por se tratar de um texto de apresentação dos artigos que constituem o livro e com o intuito de apenas introduzir um conjunto de argumentos, notam-se alguns deslizes teóricos (por exemplo, em sua conclusão, os autores fazem observações superficiais a respeito da relação entre forma e conteúdo, mantendo-as em instâncias distantes).

O livro encontra-se esgotado, mas pode ser obtido via impressão sob demanda pelo programa Minnesota Archive Editions.

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