Paul Cézanne. Mont Sainte-Victoire et Château Noir, 1890–1895.

filosofia da paisagem: arte, ciência, religião

Paul Cézanne. Mont Sainte Victoire.

No contexto do grupo de pesquisa Paisagem, Cultura e Participação Social do Núcleo de Estudos da Paisagem (FAUUSP), li recentemente o texto Filosofia da paisagem, escrito por Georg Simmel em 1913. Era-me algo completamente inédito: eu conhecia Simmel apenas e grosseiramente como um dos pais da sociologia urbana, sobretudo por conta de seus textos sobre a vida na metrópole, solidão, estranhamento, etc. Ler as observações do autor sobre a temática da construção da paisagem (como operação proto-artística inerente à vida cotidiana do homem moderno) foi revelador e surpreendente.

Entre outras coisas, tive a impressão de que Simmel entende a natureza como algo totalmente extrínseco ao homem, como uma espécie de valor absoluto, coerente em si mesma (e em vários momentos ele fala na natureza como Totalidade e como uma espécie de representação do divino), distante de noções outras que entendem-na antes de tudo como uma construção cultural (portanto, e antes de tudo, como representação, da mesma forma que a paisagem). Talvez, como indicam outras fontes, tenha sido uma leitura precipitada e equivocada minha: é provável que eu tenha perdido algo do argumento do autor em minha leitura rápida de seu texto. No entanto, o incômodo persistiu ao longo de toda a leitura, especialmente pela forma complexa com que Simmel estabelece as relações entre observador, objeto, as impressões e as representações, fugindo das noções vulgares de paisagem como mera visualidade desinteressada ou como mera configuração territorial ou conjunto de formas.

Paul Cézanne. La Montagne Sainte-Victoire au grand pin; 1886–1887

arte, ciência, religião

É em certa passagem do texto, cuja presença aí cumpre quase somente função instrumental na construção do argumento do autor (na medida em que trata de temas outros que não o da paisagem, de modo um tanto quanto operativo), que um argumento lateral chama bastante a atenção.

Simmel submete a constituição de certos sistemas de pensamento inerentes ao mundo moderno — nomeadamente a religião, a arte e a ciência, reunindo-os todos em uma mesma estrutura — a práticas e a “necessidades” ou demandas da vida empírica cotidiana e das experiências que as caracterizam. Um esforço, em certo sentido ideológico, de racionalização e sistematização constituiriam então um corpo fechado, coerente e sacralizado, de rituais e práticas associadas a conceitos tornados herméticos. Neste sentido, não seria o sistema e seus elementos inerentes que sugeriria a constituição de práticas e rituais, mas, ao contrário, e em movimento dialético, estaríamos falando da constituição e sacralização do sistema (e de seus elementos, como a divindade, no caso da religião) a partir de um conjunto disperso e confuso de práticas várias da vida cuja necessidade de organização constituiria um ímpeto social estrutural.

Segundo o autor:

Tudo aquilo a que chamamos cultura encerra uma série de formações dotadas de lei própria, que se elevaram a uma pureza auto-suficiente acima da vida diária, multiplamente imbricada, que transcorre na prática e na subjetividade; refiro-me à ciência, à religião, à arte. É sem dúvida legítimo que elas exijam ser cultivadas e compreendidas segundo as suas ideias e normas, que existem por si, libertas de todos os emaranhados da vida contingente. No entanto, abre-se ainda outra via para a sua compreensão, melhor dizendo, uma via para uma diferente compreensão delas. A vida empírica, destituída por assim dizer de princípios, encerra constantemente rudimentos e elementos dessas formações, os quais, partindo dela, são apropriados por estas com o exclusivo propósito de alcançarem o desenvolvimento que se cristaliza em torno da ideia que lhes é própria. Não quer isto dizer que todos estes complexos criativos do espírito e a nossa vida, que transcorre entre outros impulsos e metas, existam separadamente, e que esta se apoderasse de certas seções daquelas para integrar em si. Não se refere aqui este acontecer naturalmente duradouro, a vida engendra sentimentos e modos de comportamento que temos de chamar religiosos, embora de modo algum sejam experimentados sob o conceito de religião ou façam parte dele: amor e impressões da natureza, impulsos ideais e entrega a comunidades mais amplas ou mais restritas da Humanidade têm frequentemente esta coloração, que não irradia porém da “religião” instituída de modo subsistente. Religião, por seu lado, surge sempre quando este elemento específico que cresceu em conjunto com tais vivências, que co-determinou o modo do seu ser vivido, se eleva até à existência própria, deixando para trás o seu conteúdo para se condensar auto-criativamente nas formações puras, as divindades, que são expressão sua — abstraindo inteiramente da questão de saber qual seja a verdade e o significado que esta produção possui na sua vida própria e separada de todas aquelas formas prévias. A religiosidade, em cujo timbre vivenciamos inúmeros sentimentos e destinos, não provém — ou melhor, só provém posteriormente — da religião como um especial domínio transcendente, mas é inversamente à religião que decorre daquela religiosidade, sendo que esta cria conteúdos a partir de si mesma em vez de se limitar a formar ou a colorir os conteúdos dados pela vida e que voltam a estar inseridos nela. Não é diferente o que se passa com a ciência. Os seus métodos e normas, em toda a sua altura e soberania intocáveis, não deixam de ser as formas do conhecimento cotidiano, que se tornaram autônomas e alcançaram hegemonia. São, é certo, simples meios da prática, elementos ao serviço dela, e de certo modo contingentes — misturados com tantos outros para constituírem a totalidade empírica da vida; só que na ciência o conhecimento tornou-se fim de si mesmo, um reino do espírito administrado por legislação própria — com este deslocamento imenso do centro e do sentido apenas se dá a purificação e a elevação ao estatuto de princípio daquele saber disperso pela vida e pelo mundo de todos os dias. Em vez da banalidade iluminista que pretende colar as regiões dos valores às camadas mais baixas da vida — a religião ao medo, à esperança e à incertez, o conhecimento às contingências sensíveis e que apenas servem servem o sensível —, é preferível considerar que aqueles ideais fazem de antemão parte das energias determinantes da vida; e apenas por se tornarem legisladoras de reinos próprios, criadoras de conteúdos próprios, em vez de adaptarem a si um material estranho, é que as nossas esferas de valor se desenvolvem em torno da pureza daquela ideia. Eis precisamente a fórmula essencial da arte. Seria inteiramente insensato derivá-lo do impulso de imitação, do impulso de jogo ou de outras fontes psicológicas estranhas, que se mesclam, é certo, na sua fonte autêntica e podem co-determinar a sua expressão: a arte enquanto arte porém não pode provir senão da dinâmica artística. Não significa que ela comece com a arte acabada. Ela provém da vida — mas apenas na medida em que e porque a vida, tal como é vivida cada dia e em toda a parte, contém estas forças formadoras cuja efetuação pura, que se tornou autônoma e determina por si mesma o seu objeto, se chama então arte. É certo que não intervém qualquer conceito de “arte” quando o homem fala correntemente, ou se exprime por gestos, ou quando a sua intuição modela os seus elementos com sentido e unidade. Mas em tudo isto atuam modos de dar forma que temos de chamar, como que retrospectivamente, artísticos; pois quando em virtude da legalidade própria e libertos do uso que está ao serviço da vida formam para si um objeto que é exclusivamente produto seu, isto é, uma “obra de arte”. Por esta via larga justifica-se a nossa interpretação da paisagem. Onde vemos de fato paisagem e não já uma soma de objetos naturais isolados, temos uma obra de arte in statu nascendi.

Simmel, “A filosofia da paisagem”, 1913.

Pode-se argumentar que Simmel não só apresenta certa noção ingênua do que seja a arte (ignorando questões ligadas à aura, mercadoria, fetichismo, etc, que começavam a ser debatidas no momento em que o texto fora escrito) como também a instrumentaliza de forma exagerada a fim de constituir um “ato fundador da paisagem” inerente ao homem moderno. No entanto, a sugestão desta operação não deixa de apresentar ainda algo de sedutor e poético, nem de evidenciar o que de belo há nas operações cotidianas de construção e representação de paisagens.

Paul Cézanne. Mont Sainte-Victoire et Château Noir, 1890–1895.

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